Para a PIDE o regime não caía, apenas mudava de mãos

Documentário da RTP vai mostrar os últimos dias da polícia política e contar as histórias das vítimas dos seus disparos na Rua António Maria Cardoso no 25 de Abril – houve cinco mortos e 45 feridos.

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Martins Guerreiro Francisco Farinha

“A PIDE achava que o regime dirigido pelos generais António de Spínola e Costa Gomes iria precisar de um serviço de informações, e eles haveriam de continuar.” Martins Guerreiro, almirante, oficial do Movimento das Forças Armadas (MFA), relembra a diferença de expectativas que conduziu ao primeiro embate entre António de Spínola e o MFA. A primeira divergência entre os spinolistas e os outros oficiais levou à saída de Spínola em 30 de Setembro de 1974 da Junta de Salvação Nacional e conduziu à tentativa de golpe do 11 de Março de 1975.

A história explica a divergência: a revolução do 25 de Abril “não foi planeada”, como prova não ter sido previamente definido o futuro do principal sustentáculo da ditadura que era a sua polícia política. Em Os Últimos Dias da PIDE, documentário do jornalista Jacinto Godinho, que a RTP vai transmitir brevemente, o autor procura uma versão diferente da narrativa histórica mais conhecida dos últimos 40 anos.

O almirante Martins Guerreiro foi um dos “capitães de Abril” que esteve na génese da preparação do golpe de Estado. A série televisiva, exibida no sábado, em antestreia no Algarve, relembra que a revolução não foi só de cravos – também teve mortos e sangue na rua.

Antigo membro do Conselho da Revolução, Martins Guerreiro, algarvio, vive hoje na casa de família da zona do barrocal do concelho de São Brás de Alportel, que define como o seu “porto de abrigo” onde diz encontrar o sossego para trabalhar a sua intervenção cívica. Pertence há 32 anos aos órgãos dirigentes da Amnistia Internacional. “No 25 de Abril”, recorda, estava incumbido de escolher a “melhor oportunidade para divulgar à imprensa o programa do MFA”. A estratégia comunicacional fazia parte do plano operacional, mas as diferenças entre os três ramos das Forças Armadas e a velocidade a que a revolução se fazia furaram os planos.

Os relatos sobre a chamada “revolução dos cravos” não podem esquecer a pressão das manifestações e concentrações populares espontâneas, não previstas portanto no plano de operações concebido por Otelo Saraiva de Carvalho que se saldou em cinco mortos e 45 feridos na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, junto à sede da PIDE/DGS, na tarde de 25 de Abril de 1974.

Jacinto Godinho explica que os repórteres de imagem convergiram para os dois locais que se tornaram os palcos mediáticos da revolução – Terreiro do Paço e Largo do Carmo. No primeiro recinto, os tanques de Santarém levaram à desmobilização dos blindados da Escola Prática de Infantaria, um dos poucos sustentáculos organizados da defesa da ditadura, e levantaram canhões em direcção aos vasos de guerra da Marinha fundeados no Tejo que só mais tarde aderiram à rebelião.

No Carmo, depois de um cerco de muitas horas, houve a simbólica mudança de poder: de Marcello Caetano, sitiado no Quartel da Guarda Nacional Republicana, para o general António de Spínola. “Para que o poder não caísse na rua”, justificou o antigo presidente do Conselho.

Com o contributo de uma investigação da historiadora Luísa Tiago Oliveira, que tem estudado o papel da Marinha na revolução, o jornalista da RTP lembra outros acontecimentos decisivos para a revolução.

PIDE em posição estratégica
Martins Guerreiro, um dos oficiais que desde 1970 conspirava contra o regime, que não aparece no documentário mas que visionou o trabalho, revela ao PÚBLICO: “Podia ter ocorrido um morticínio na António Maria Cardoso [sede da PIDE].” Jacinto Godinho afirma que os agentes da PIDE, “quando se renderam aos revoltosos, entregaram-se ao general Spínola, porque, para eles, o regime não caía, apenas mudava de mãos”.

A série documental, a transmitir pela RTP a 25 de Abril, resultado de uma investigação de sete anos à PIDE, em Portugal e nas antigas colónias, procura mostrar que a revolução não foi planeada a regra e esquadro. Foi influenciada por imponderáveis, como a adesão popular à queda da ditadura, logo no dia 25 de Abril, de que o cerco à sede da polícia política é um dos primeiros episódios.

As imagens recolhidas confirmam as duas tentativas de ocupação da sede da PIDE/DGS pelos fuzileiros e as manifestações populares que terminaram com cinco mortos e 45 feridos. “Naquela rua, a revolução não foi de cravos. O vermelho era mesmo do sangue que escorreu nas ruas e da muita violência exercida pela polícia política”, diz Jacinto Godinho. “Estas cenas não ficaram praticamente registadas em filmes e fotos.” Martins Guerreiro explica que os agentes da PIDE, bem armados e colocados em posições estratégicas no edifício da António Maria Cardoso, eram em número muito superior aos militares.

Então primeiro-tenente da Marinha, Martins Guerreiro relata ao PÚBLICO os “jogos de poder” que se desenrolavam enquanto Salgueiro Maia desafiava o poder do antigo regime. Os cerca de 70 homens do destacamento de fuzileiros, que iriam embarcar para Moçambique na semana seguinte, tinham nesse dia como missão obter a rendição da PIDE. Por isso, observa, embora nas imagens apareçam com cartucheiras, estão vestidos com a farda azul de cerimónia e não com o tradicional camuflado, a indumentária de combate. Embora cercada, a polícia política tinha uma posição de vantagem estratégica que a levou a disparar sobre as centenas de populares.  

Martins Guerreiro, à paisana, encontrava-se entre a população que exigia a rendição da PIDE. “Era eu que fazia a ligação política às forças da Marinha que fossem para o terreno”, explica. Depois é o momento do volte-face na transição do poder para a Junta de Salvação Nacional: “O general Spínola decidiu cortar dois pontos fundamentais do programa – extinção imediata da PIDE/DGS e o claro reconhecimento à autodeterminação dos povos dos territórios ultramarinos.”

O problema do Exército, conta, é que eles “não tiveram ninguém que fizesse a síntese entre as partes – operacional, política e cooperativa”. Na Marinha, diz, quem desempenhou esse papel foi Pinheiro de Azevedo. “Um dia vou escrever sobre isso”, anuncia. 

Mais de 500 mortos nas colónias
Dos vários “jogos de poder” que ocorreram no período revolucionário, destaca que as modificações introduzidas no programa do MFA pelo general Spínola viriam a custar a morte a centenas de soldados nas antigas colónias. “Os movimentos de libertação sabiam quem era Spínola e, a partir da altura em que não há o reconhecimento imediato à autonomia administrativa das populações autóctones, decidiram intensificar a guerrilha para se colocarem em melhor posição negocial”, relata.

Distantes de Lisboa, mas sabendo que o regime de Caetano tinha caído, “os soldados portugueses não tinham vontade de ir para o mato combater”. No entanto, as ordens para os combates pararem não chegavam. Por causa desse tempo de incerteza sobre o futuro das então colónias, as mortes também não pararam: “tombaram 400” nos meses seguintes, segundo as contas de Martins Guerreiro. Em A Guerra Colonial, os historiadores militares Aniceto Simões e Carlos Matos Gomes contabilizaram 504 baixas até às independências. Mortes em combate, devido a acidentes com armas de fogo e de viação e por outras causas.

“Spínola pretendia uma relação neocolonial”, sintetiza Martins Guerreiro. Lembra que o general “chegou a nomear para chefe da PIDE, em substituição do major Silva Pais, o inspector Coelho Dias, que acabaria, devido à pressão do MFA, por não chegar a tomar posse”.

Em relação a Otelo Saraiva de Carvalho manifesta simpatia: “Do ponto de vista humano, é um ser excepcional, simpático – gosta do show-off, é um actor.” “Politicamente, às vezes, divergimos, mas depois ele também nunca se ofende.” De resto, acrescenta, “os militares não dão facadas nas costas uns dos outros, o que os políticos não entendem”.
 
Tiros da sacada
Na série da RTP, há imagens dos últimos minutos de vida dos manifestantes atingidos pelas rajadas disparadas pela PIDE e são identificados os feridos. Relembram-se, assim, protagonistas caídos no esquecimento. “O resultado final só foi possível devido aos recentes processos de digitalização no arquivo audiovisual da RTP, tanto de televisão como de rádio, bem como o recurso ao espólio digitalizado dos fotógrafos que se destacaram neste período”, refere Jacinto Godinho. A reportagem cruzou testemunhos de protagonistas, imagens e documentos recolhidos por historiadores. 

A 25 de Abril de 1974, Octávio Seruca foi um dos populares que se manifestavam na Rua António Maria Cardoso e que foi atingido pelos disparos da PIDE. Depois de observar António Spínola a sair do Peugeot preto, no Largo do Carmo, foi “ver o que se passava” na sede da PIDE. “A malta gritava: 'Abaixo o fascismo'”, diz.

No momento em que foi alvejado “estava de conversa com umas pessoas, com uma moça que não conhecia”. De repente, abre-se a porta da sacada do 1º andar. “Aparecem dois agentes, disparam à queima-roupa. Encontrava-me mesmo em frente. Pensei que ia morrer”, relata. A bala passou de raspão, e só ao fim de algum tempo deu conta que tinha "a camisa toda ensopada em sangue”. A cicatriz, do lado direito da barriga, permanece. A rapariga que se encontrava a seu lado teve pior sorte: “Começou logo a jorrar sangue, ficou em estado bastante crítico.”

Seruca, engenheiro reformado e antigo director-geral do Ambiente, nunca soube o nome da jovem alvejada. Só sabe que se salvou depois de ter estado internada no Hospital Curry Cabral.