Torne-se perito

Nas águas turvas da História

A obra de Günter Grass é um mergulho nas águas turvas da História contemporânea ao mesmo tempo que procura auscultar o destino do Homem.

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Descascando a cebola foi publicado em Portugal pela Casa das Letras, em 2007 John MacDougall/AFP

Quando em 1959 o alemão Günter Grass (Danzig, 1927) se estreou na literatura com o romance O Tambor de Lata (D. Quixote, 2009) – que é o primeiro da chamada “Trilogia de Danzig” (os outros dois são O Gato e o Rato e O Cão de Hitler) – desencadeou na Alemanha algumas reacções bastante fortes que o acusaram de ser blasfemo, pornográfico e um ataque ao bom gosto. Mas passado pouco tempo começou a ser reconhecido como uma obra-prima, o símbolo do renascimento da literatura alemã depois de décadas de agonia, e um dos romances mais importantes da literatura alemã e, mais tarde, também da literatura europeia da segunda metade do século XX – a que quase vinte anos depois se juntaria ainda outro, O Pregado (D. Quixote, 2011). À época, O Tambor de Lata veio dar à literatura alemã posterior à guerra, uma nova vitalidade. E, não menos importante nesses anos, foi o quebrar do tabu do conflito mundial que a Alemanha perdera mais uma vez, e sobre o qual quase ninguém queria falar, muito me

A história de O Tambor de Lata é-nos narrada na primeira pessoa por Oskar Matzerath, que está internado num “asilo de alienados” depois de ter assumido ser o autor de um assassinato que não cometeu, o de uma freira por quem se apaixonara. A sua sanidade mental, ou insanidade, nunca chega a ser clara. Nas quase setecentas páginas de narrativa lenta que compõem o romance – divididas em três “livros” – Oskar percorre a história alemã desde 1899 até 1954, centrando-se, sobretudo, no período que medeia entre a ascensão do nazismo e os anos do pós-guerra. É, assumidamente, um livro que pretende perpetuar as memórias da infância do Günter Grass na antiga “cidade livre de Danzig” (actual Gdansk, na Polónia), do quotidiano da vida de província, da invasão alemã da Polónia até à chegada dos primeiros soldados russos, as memórias das dificuldades e da culpa sentida. No fundo, acaba por fazer uma análise das fundações éticas e políticas da Alemanha.

As histórias picarescas e ironicamente cómicas, tão características de algumas obras de Grass, sempre atravessadas por elementos fantásticos e mágicos, recorrendo muitas vezes a alegorias e a mitos judaico-cristãos, multiplicam-se ao longo de todo o livro numa linguagem deliciosamente “barroca” e festiva. Alguns críticos chegaram a apontar O Tambor de Lata como um exemplo do “realismo mágico europeu”, categoria em que se inscreveriam, entre outros, Gente Independente, do islandês Halldór Laxness. Grass parece ter querido explorar as possibilidades de contar histórias mas sem nunca se desviar muito das suas referências literárias (uma delas foi Alfred Döblin). O livro foi escrito e publicado numa altura em que muito se teorizava sobre “a morte do romance”, e Grass não deixa de ironizar quando a personagem Oskar começa a escrever as suas memórias: “Pode-se começar uma história pelo meio e criar confusão, avançando e recuando com ousadia. Pode-se assumir uma pose moderna (…). Também se pode afirmar logo de início que hoje em dia é impossível escrever um romance, mas depois, por assim dizer dissimuladamente, produzir um ‘best seller’ bem espesso para o autor se apresentar por fim como o último dos romancistas.”

Irmãos Grimm
Um dos aspectos importantes da obra de Grass foi a publicação da sua biografia em três volumes. Descascando a Cebola (Casa das Letras, 2007), primeiro volume autobiográfico – que descreve o período entre 1939 e 1959 – e em que revela que aos 17 anos se alistara voluntariamente nas Waffen-SS. Segue-se A Caixa (Casa das Letras, 2009), um livro conciliador, em que recorre à história de uma máquina fotográfica, uma espécie de instância autoral que ilumina as trevas do seu passado – é um objecto bem ao seu gosto, que mergulha nas águas turvas da história contemporânea ao mesmo tempo que procura auscultar o destino do Homem. Finalmente, o terceiro volume, inédito em português, Grimms Wörter. Eine Lieberserklärung (As Palavras dos Grimm. Uma declaração de amor), é sobretudo um contar sobre a sua intensa actividade política durante várias décadas, sobre a literatura, sobre a língua alemã e a arte de contar histórias.

Grass recorreu aos Grimm para contar a sua autobiografia pois, segundo ele, os Grimm viveram um período marcado por mudanças radicais, quer políticas quer sociais. Mas este recurso aos irmãos Grimm já tinha sido feito anteriormente quando escreveu O Pregado. Entre os muitos contos recolhidos da tradição oral pelos dois irmãos, há um, O Pescador e a Sua Mulher, em que um pregado acabado de ser pescado convence o pescador a libertá-lo, dizendo-lhe ser um príncipe que foi condenado a viver sob a forma de peixe. O pescador liberta-o por nunca ter ouvido um peixe falar. Ao chegar ao casebre em que vivia, o pescador conta o facto à mulher, chamada Ilsebill, que logo lhe pergunta se o homem não pediu ao príncipe que lhe concedesse um desejo. O pescador nega, e a mulher convence-o a voltar à praia, a chamar pelo peixe, e a pedir-lhe que os faça morar numa casa melhor do que aquele miserável casebre. O pescador assim faz e o desejo realiza-se. Mas não contente com o facto, a mulher convence mais uma vez o pescador a voltar à praia e a pedir agora um palácio. Nunca satisfeita e sempre gananciosa, os desejos vão aumentando e sendo realizados, até que no final o peixe os deixa a morar no mesmo miserável casebre, ensinando assim à mulher a lição moral de que “todo o excesso será punido”.

Inspirado por esta parábola, Grass escreveu O Pregado.  Cheio de verve e de ironia, arriscou à época (O Pregado foi originalmente publicado em 1977) um provocativo romance épico, complexo e com vários níveis de narrativa, onde inclui muitos dos seus poemas. O Pregado trata sobretudo das relações entre homens e mulheres ao longo da História da Humanidade – apesar de geograficamente quase se cingir apenas à região de Danzig – e em que graças aos desejos incontrolados dos homens quanto ao progresso tecnológico, toda a sociedade se vai aos poucos aproximando do abismo. Um dos momentos mais irónicos do romance é quando o peixe é julgado por um tribunal feminista, em Berlim, nos anos 70, e acusado de ser o inspirador da ordem patriarcal que tem subjugado as mulheres.

A obra de Günter Grass não se pode resumir, obviamente, a estes dois romances. Títulos como A Passo de Caranguejo, O Meu Século, ou O Gato e o Rato – para referir apenas os disponíveis no mercado português – são referências essenciais para se conhecer um dos grandes escritores europeus do século XX. Crítico literário

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