Reportagem

“Gostei de termos escrito a palavra paz, que não associamos aos refugiados”

Juntar 1300 alunos do secundário para uma experiência que se quer divertida mas que passa por simular o que pode ser sentir-se refugiado é uma aventura. Com momentos de alegria pura e outros de descoberta e reflexão.

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“Vamos ouvir uma música, mas vamos mesmo ouvir, como quem quer ver, ouvir e sentir” Miguel Madeira
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À saída do autocarro não há tempo para esticar as pernas, perceber onde se acabou de chegar. “Terroristas souberam que um grupo da diocese do Porto, de Paços de Ferreira, estava a chegar ao campo de refugiados”, grita o professor António Madureira. “Só temos uma estratégia. Vamos tentar entrar em grupos de quatro para nos protegermos. Protejam-se uns aos outros!”

Ouvem-se alguns “Anda cá” ou “Vai tu à frente”, entre risos e gritos. Depois, é correr e passar por baixo de um camuflado lutando contra uma mistura de pó e fumo, enquanto se ouvem bombas a deflagrar a toda a volta. Ainda sem tempo para respirar, soldados gritam: “Homens para a esquerda, mulheres para a direita”. Em fila. Todos passam pela revista, braços abertos, militares a sério, armas ao ombro. Segue-se o registo, um carimbo e uma pulseira chegam para se poder entrar neste “campo de refugiados”.

Ao virar da esquina, o cenário não podia ser mais diferente. O espaço destinado aos exercícios dos soldados está ocupado por pontos de diversão sem fim, matraquilhos humanos, o jogo da corda, balizas para marcar golos, uma série de insufláveis onde se pode lutar dentro de um fato gigante ou saltar, noutro há um touro mecânico, acolá joga-se uma variação da tradicional petanca.

“Durante aquela primeira meia hora nem olharam para os telemóveis, o que é tão raro”, comentará mais tarde Fernando Moita, coordenador do departamento do ensino religioso escolar no Secretariado Nacional de Educação Cristã (SNEC).

“Isto tem de ter um bocadinho de tudo, momentos de diversão e, aqui e ali, outros mais tranquilos, com mensagem”, tinha-nos dito a professora Dulce Couto, de Braga.

Estamos no quartel do Regimento de Artilharia nº 4 de Leiria, um dos cenários centrais do V Encontro Nacional de Alunos do Ensino Secundário de Educação Moral e Religiosa Católica. Entre sexta-feira e sábado, estiveram aqui 1300 alunos e 115 professores, vindos de 70 escolas e de 16 dioceses diferentes, do Algarve a Vilar Formoso.

“(Des)abrigo-me Contigo!” foi o tema escolhido. O mote, uma frase do Papa: “Não quero uma igreja tranquila. Quero uma igreja missionária”. Podiam ser outras com Francisco, que tanto tem pedido que se olhe para os mais vulneráveis e que na primeira vez que saiu de Roma foi a Lampedusa, a ilha italiana onde tantos chegam ou morrem a tentar chegar, em fuga de guerras ou da fome e em busca de um recomeço.

Como é que esse objectivo pode ser cumprido? Por exemplo, simulando em diferentes momentos ao longo de mais de 24 horas o que é sentir-se refugiado. Como é que isso se consegue quando se juntam 1300 miúdos do 10º ao 12º ano? Pode ser pedindo-lhes que tragam o mínimo, um farnel, um saco-cama, distribuir sopa quente em filas ao cair da noite, partilhar com eles numa noite de muita festa um pequeno documentário sobre sírios que fugiram do seu país e estão ao longínquo Brasil.

A ideia destes encontros são os encontros em si mesmo. Claro que há o tema e esse deve ser tratado nas aulas, explica a minhota Lígia Pereira, professora que, como Dulce Couto ou António Madureira, faz parte do SNEC. Houve materiais distribuídos aos professores e os alunos foram recebendo sms. Mensagens onde se podia ler: “Sabes que há 52 milhões de refugiados no mundo?”. Mas também: “Não te esqueças da escova de dentes”.

“Não é uma oportunidade de um nem de dois, é de muitos. E quando nos encontramos, fazemos a festa”, resume Madureira. O que o professor considera fundamental “é educar para a dimensão espiritual”, e isso, como ele próprio, mestre de cerimónias da noite, vai provar, não tem nada de aborrecido ou ortodoxo.

Coragem para conhecer
Cátia e Inês, de 16 anos, vieram de Albergaria, em Aveiro. Estão no 10.º ano. “Os mais velhos contaram que é um convívio fixe, que se fazem experiências diferentes”, diz Inês. Cátia, que confessa ter-se assustado à entrada no quartel, também veio para “conhecer um lugar novo”.

Outro motivo para estar aqui, diz Inês, é “conhecer pessoas novas”. “Ter coragem para conhecer pessoas novas”, corrige Cátia, sorriso fácil mas tímido, como a amiga. Deixar a casa em Albergaria e ousar fazer algo diferente, com tanta gente nova à volta. Com as devidas distâncias, é algo que todos os refugiados têm de fazer.

Um grupo de rapazes dos 16 aos 18, quase todos do 11.º ano, um do 12.º, da secundária Mouzinho da Silveira em Portalegre, está encostado na conversa junto aos matraquilhos humanos. O que é que esperam levar daqui? “Uma experiência enriquecedora”, responde Alexandre, 16 anos. Os outros riem e ele, mãos nos bolsos, a olhar para baixo e a sorrir, insiste: “É verdade”.

“O facto de sermos todos alunos de Moral é importante. Na minha escola somos muito poucos. Aqui, todos nós escolhemos ter Moral”, diz Ana Margarida, de 15 anos, aluna do 10.º de Castelo Branco. Para ela, isso significa “ter uma disponibilidade para assuntos de que não se fala no dia-a-dia”. Uma escolha que fez por acreditar que a disciplina “é uma ajuda para percorrer o caminho certo, na adolescência, quando estamos a começar a desenvolver a nossa personalidade”.

Energia para gastar
A noite vai ser longa, o recolher (todos “devem dirigir-se ao local onde pernoitam” e “não podem voltar a sair dos seus refúgios, visto a possibilidade de existirem bombardeamentos”) só acontece pela 1h. Até lá, vai haver muita música, incluindo a actuação de dois alunos que já passaram por programas televisivos de descoberta de novos talentos, uma visita da banda Kiss Kiss Bang Bang, uma professora de zumba que vai pôr todos – miúdas e miúdos, professores e freiras – a dançar.

O professor Madureira vai fazendo as apresentações e preenchendo os momentos entre cada uma, pedindo silêncios quando estes se impõem ou, pelo contrário, incentivando à dança, “a gastarmos energias, porque há muitas para gastar”. Por exemplo, perguntando a cada um se já conheceu alguém novo e convidando-os a olharem para o lado, a procurarem alguém que não conhecem e fazerem isso mesmo. “Sandra, então, mas tu não sais daí? Esse já conhecias, és uma mafarrica”, brinca.

Depois de horas de alegria pura, com estes adolescentes a dançarem e a fazerem tudo o que lhes é sugerido, sem vergonhas, chega o primeiro momento simbólico da noite. O desafio é fazer um logotipo humano, preencher três letras, as letras da palavra Paz, folha A4 por cima das cabeças (há um drone pronto a fotografar e provar que o desafio foi cumprido).

“A vitória significa conseguirmos construir a paz, em todos os sítios e em todos os lugares, mesmo na escola. São todos precisos”, diz o professor Madureira. “Vamos construir a palavra paz”, ajuda a professa Lígia, altifalante em punho.

Parece estranho, mas até os poucos grupos que se tinham mantido afastados do palco montado numa das extremidades do campo de jogos do quartel se aproximam para ajudarem a construir a palavra. Eram mesmo precisos todos.

“Foi lindo!”
 “Foi bonito, pessoal”, diz Madureira. “Foi lindo!”, diz a professora Lígia.

Já são 23h mas a energia é tanta que quase parece que a festa só agora vai começar. Ajuda que o tema seja o imbatível “I'm walking on sunshine”.

Começam a formar-se os inevitáveis comboios e, de repente, há mais comboios do que apeados e são tantos os passageiros que já é impossível que alguém conheça quem segue à frente ou atrás. Os comboios dançantes, como se sabe, são uma bela forma de conhecer gente. A correr e a dançar, já se sabe, não há altos nem baixos, gordos ou magros, só adrenalina e alegria em estado puro.

Nada disto é muito impressionante. Impressionante é que daqui a pouco será pedido a estes miúdos que vão buscar, em silêncio e em fila, balões brancos com luzes led no interior. Impressionante é que eles o façam e que depois se calem para ouvir uma música e ver o vídeo que a acompanha no ecrã.

É “I was here”, uma canção gravada em 2012 por Beyoncé para o Dia Humanitário Mundial das Nações Unidas, e cantada entre imagens de guerras e de catástrofes naturais, mortos e resgatados, lágrimas e gritos. “Vamos ouvir uma música, mas vamos mesmo ouvir, como quem quer ver, ouvir e sentir, num momento de silêncio quase absoluto”, pede o professor Madureira.

“Eu estive aqui”
Um balão, não há nada mais simples. No fim do vídeo, o professor pede aos alunos que os larguem, “a alegria da luz que vocês vão lançar e fazer chegar a muitos lados”. E eles fazem-no e a canção recomeça. Os balões afastam-se e o céu fica mais estrelado, até que as novas estrelas estão tão longe que mais parecem um enorme enxame de minúsculos pirilampos. “Não se esqueçam que cada um de nós esteve aqui. Eu estive aqui.”

“Que cada um de nós seja uma pequena luz no mundo”, diz a professora Lígia, olhos mareados, de ver as lágrimas que escorreram pelas faces de alguns alunos. Num daqueles momentos em que a adrenalina é descarregada e a alegria passa a emoção.

Ainda falta muito, a noite, o pequeno-almoço, a caminhada até ao castelo de Leiria, um novo abrigo, ouvir testemunhos de quem conhece refugiados, assistir a uma representação teatral, do grupo RefugiActo, formado por refugiados, palestinianos ou bósnios em palco. Mas para a professora Lígia, o momento do silêncio e dos balões brancos, foi um daqueles momentos. “Já está. Conseguimos.”

Chegamos a sábado e Ana Margarida, de Castelo Branco, diz que a experiência os tornou “mais solidários com os refugiados”. Isabel, 17 anos, aluna do 12.º que vai estudar Medicina, quer saber como pode ser voluntária numa zona de conflito. Ana Margarida recorda a noite anterior. “Gostei da parte dos balões e da música. E do facto de termos escrito a palavra paz, que normalmente não associamos aos refugiados.”