Um holograma em Madrid para protestar pelo direito a protestar

Milhares de pessoas manifestaram-se frente ao Parlamento espanhol. Só não estavam fisicamente presentes.

Tendo estado na vanguarda da mobilização social nos últimos anos — o movimento dos indignados inspirou fenómenos semelhantes na Grécia e em Portugal, bem como o Occupy Wall Street nos Estados Unidos —, Espanha tenta um novo modelo de protesto popular: virtual.

Aconteceu na sexta-feira à noite, em Madrid, frente ao edifício do Parlamento espanhol. Milhares de pessoas de todo o mundo — incluindo 400 portugueses, segundo a agência Lusa — participaram numa manifestação contra uma nova lei espanhola que restringe o direito à assembleia e ao protesto em espaços públicos. Parecia e soava como uma manifestação tradicional: os participantes desfilaram na rua; cartazes de protesto pairavam sobre o cortejo; ouviram-se palavras de ordem. Só que nenhuma dessas pessoas estava fisicamente presente no local; a sua imagem foi projectada por holograma.  

Os organizadores chamam-lhe “o primeiro protesto de holograma da história”. A concentração foi convocada pela No Somos Delito (“Não somos crime”), uma plataforma que junta mais de cem movimentos de cidadania e organizações, como a Greenpeace e o SOS Racismo, que se opõem à nova Lei Orgânica de Segurança dos Cidadãos, aprovada a 26 de Março com os votos únicos (181) do partido do Governo, o Partido Popular, e rejeitada por toda a oposição (140 votos contra). A legislação é conhecida como “lei mordaça” pelos seus opositores, que a consideram uma ameaça a protestos políticos e ambientais no espaço público. Ela prevê multas entre os seis mil e os 30 mil euros para manifestações públicas — frente ao parlamento, por exemplo — que não sejam previamente autorizadas. A lei entra em vigor a 1 de Julho.

“Com a aprovação da lei mordaça, não poderás manifestar-te frente ao parlamento. Não poderás fazer uma assembleia em espaços públicos sem correr o risco de que te multem. Não poderás participar numa manifestação sem autorização prévia. Só o poderás fazer se te converteres num holograma”, dizem os organizadores num vídeo introdutório no seu site.

Carlos Escaño, um dos porta-vozes da plataforma No Somos Delito, disse ao El País que um dos objectivos da nova lei é abafar o protesto social que foi desencadeado desde as mobilizações do movimento 15-M. “Proibir manifestações frente ao parlamento constitui uma restrição desproporcionada da liberdade de reunião; disse-o o relator especial das Nações Unidas”, afirmou outra porta-voz da organização, Alba Villanueva, ao mesmo jornal. “Não é certo que os cidadãos exijam mais segurança. De acordo com as sondagens públicas, a insegurança ocupa o 12.º lugar nas preocupações dos espanhóis, atrás da saúde, da educação, do desemprego, da situação económica e da corrupção”, acrescentou.

Segundo uma sondagem feita para a ONG Avaaz.org, 82% dos espanhóis são contra a lei, exigindo a sua alteração ou supressão.

Nas últimas semanas, pessoas de todo o mundo enviaram mais de 2000 vídeos contestando a lei, que foram posteriormente convertidos em hologramas e projectados numa tela translúcida frente ao parlamento espanhol, no centro de Madrid. A manifestação durou uma hora, entre as 21h30 e as 22h30 de sexta-feira.

Os organizadores admitem que a acção de protesto “é uma caricatura”. Alejandro Gámez Selma, da No Somos Delito, disse à Lusa que manifestações de hologramas são o sonho de qualquer governo que queira limitar as liberdades dos seus cidadãos.

“É uma espada de dois gumes. Por um lado, provámos que este tipo de protesto se pode fazer; por outro lado, qualquer governo gostaria que todos fossem assim. Mas acreditamos que o povo sairá sempre à rua para defender os seus direitos.”