Sem-abrigo expõem trabalhos no Porto

Até 20 de Abril, quem for à estação de metro dos Aliados vai deparar-se com sapatos e botas cheios de flores.

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Rita França
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O Instituto de Emprego e Formação Profissional fez um desafio à Plataforma Mais Emprego: “Porque não fazer uma formação à medida destas pessoas?” Olga Rocha, coordenadora da Plataforma, explica que aceitou a proposta porque considerou que esta seria uma “grande oportunidade para mostrar que, com formações adequadas às pessoas, elas são capazes, vão mostrar valor e apresentar trabalho de qualidade”.

A partir daí, abordaram pessoas que, mesmo estando já alojadas pela rede, continuavam a pedir na rua. Encontraram-nas “completamente desvalorizadas e apáticas”, explica Olga Rocha, o que fez com que surgisse a dúvida: “Como é que as vamos acordar ?”

“O jogo foi uma forma de aprendizagem” com dinâmicas teatrais e actividades de jardinagem, explica João Pedro Correia, um dos formadores do curso. Para os motivar, “foi preciso fazê-los voltar a acreditar neles próprios”. “Chegaram-me a dizer ‘Tu olhas-nos nos olhos. Há muito tempo que não nos olhavam nos olhos’”, conta João Pedro Correia, alertando que a sociedade precisa de deixar de ignorar o que vê na rua.

Alfredo Costa, director da Welcome Home, uma organização parceira do projecto, revelou que “o espírito de grupo foi muito interessante”.

Anabela Pinto foi uma das pessoas carenciadas que se envolveu no “Competências para a Integração” e revela-se orgulhosa de si e “do grupo todo”. Já António Neves, outro participante, ressalva que o ambiente entre todos nem sempre foi fácil: “No começo foi um pouco conturbado porque ninguém se conhecia. A partir da terceira reunião é que passou a ser completamente diferente”.

O curso fez com que as pessoas se distraíssem dos seus problemas. Fátima Pinto, também participante, explicou que pôde interagir com as pessoas “para não entrar em depressão” e garante que participaria em mais projectos do género, caso voltem a existir.

Olga Rocha explica que as pessoas que esta sexta-feira mostraram os seus trabalhos estão “empenhadas, com auto-estima e reconhecimento da identidade que não tinham”.

O balanço dos resultados desta iniciativa ainda vão ser discutidos mas Alfredo Costa adianta que o projecto “faz sentido e é pertinente”. A partir daqui, é preciso continuar a “dar voz a quem está apagado”, sublinha Olga Rocha.

Essas mesmas vozes foram ouvidas numa gravação que foi emitida no local, com testemunhos dos participantes do projecto. Uns mais desiludidos do que outros, uns felizes, outros não. Falaram-se em “direitos iguais”. Vozes calmas explicaram: “Enquanto planto uma flor estou a sentir-me útil”. Outras não eram tão pacíficas e questionavam em tom grave: “Sem-abrigo ou bêbado não merece ser socorrido”?

Para além do trabalho exposto na estação de metro, as pessoas que participaram no projecto reciclaram materiais em trabalhos que vão ser expostos na Casa da Rua, no Porto. Texto editado por Ana Fernandes