Sofia Pinto Leite
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Sofia Pinto Leite

Ensaios em forma de hambúrguer

Repartindo-se entre o râguebi e a indústria da restauração, Pedro Cabral e Gonçalo Foro gerem aquela que anunciam como "a melhor hamburgueria da cidade universitária, provavelmente de Lisboa e, porque não dizê-lo, de Portugal inteiro"

Nem só de desporto se faz a carreira dos jogadores de râguebi e, no caso de Pedro Cabral e Gonçalo Foro, os dois campeões nacionais pelo CDUL lançaram-se em 2013 como empresários do sector da restauração. Aposta culinária do negócio: hambúrgueres, daqueles a sério, artesanais. Definida a iguaria, houve apenas que escolher o local certo para o primeiro restaurante e a opção foi pelo edifício que, em pleno Estádio Universitário de Lisboa, proporcionava às refeições uma envolvente cénica ajardinada e conferia ao projecto uma designação oficial particularmente adequada: "U-Try", no seu duplo sentido de "Ensaio U(niversitário)" e "Experimente".

 

A clientela inicial da hamburgueria foi-se construindo com a comunidade desportiva e universitária, com o pessoal do Hospital D. Maria e com outros profissionais da zona de Alvalade. Alguns meses depois, a dupla já abria no Mercado de Campo de Ourique o seu segundo restaurante e, ao contrário da casa-mãe, que só funciona até às 20h00 e encerra às segundas-feiras, o novo recinto serve jantares, está aberto todos os dias e cativou assim um novo segmento de público. Num caso e no outro, contudo, essa fidelização da procura deve-se a uma ementa cuja terminologia pode à primeira vista parecer simplista, pelo recurso a denominações como "Beisique" ou "Beicone", mas cuja lista de ingredientes revela depois cuidados gourmet: o "Pinquexíquene", por exemplo, combina frango, queijo camembert e doce de framboesa; o "Peperxize" concilia carne de vaca com gorgonzola, rúcula e amêndoas caramelizadas.

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Pedro Cabral (Foto de Luís Cabelo)

 

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Gonçalo Foro (Foto de Luís Cabelo)

Mas, afinal, como é que os dois atletas deram o salto do relvado para a cozinha? "Eu trabalhava no Hospital de Cascais e já estava descontente há algum tempo, porque me sentia farto de trabalhar em frente ao computador", recorda Pedro Cabral. "Já tinha a ideia dos hambúrgueres há muito tempo e, quando reparei que o edifício do estádio estava vazio, achei que era tempo de começar uma coisa nova".

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O ex-jogador da selecção nacional convidou então Gonçalo Foro para sócio e, juntos, decidiram apostar em "pratos com alguma criatividade", para consumo à mesa, com faca e garfo, ou em formato take-away. "Pesquisei algum tempo, li muito e a Maria Fernandes Thomaz, que é uma boa cozinheira, também deu uma ajuda", revela Pedro Cabral.

 

Uma vez agilizada toda a engrenagem, os restaurantes gerem-se agora sob a atenção constante dos dois jogadores e o serviço presta-se com recurso a uma equipa de funcionários em que se incluem outros atletas de râguebi, como Filipe Pereira e André Tomás. O recrutamento entre a modalidade é, aliás, encarado como uma vantagem, pelas qualidades que os empresários reconhecem aos seus colegas desportistas em termos de empenho e dedicação. "Se virmos que podemos ajudar, óptimo", diz Gonçalo Foro. "Mas negócios são negócios. Damos às pessoas uma oportunidade, mas elas também têm que mostrar serviço. Não é por sermos amigos do râguebi que elas terão a vida facilitada". Pedro Cabral concorda e acrescenta que esse companheirismo se reflecte até num maior grau de exigência laboral: "Comecei a jogar nos seniores aos 17 anos, agora tenho 32 e continuo a jogar. Sempre puxaram muito por mim e no restaurante também somos exigentes. Faz parte da nossa personalidade e não fugimos à regra".

 

Conciliar a carreira desportiva com a empresarial tem-se revelado, contudo, um desafio novo. "De manhã vou às compras para a cozinha, organizo o serviço no restaurante, acompanho o atendimento, trato das coisas de gestão e, três noites por semana, ainda tenho os treinos, para além dos jogos ao sábado", enumera Pedro Cabral. "Saio de casa de manhã cedo e só lá chego outra vez por volta das 23h00, pelo que quem sofre é a família". Precisamente por isso, o campeão vai ouvindo as habituais reclamações domésticas e depois tenta equilibrar a jogada: "As vontades da minha mulher agora são ordens. Tem que ser, para compensar".

Gonçalo Foro, que tem o mesmo horário de treinos e ainda se mantém na selecção, não hesita, por isso, em afirmar que "dá mais trabalho ser empresário do que jogador". Tendo em conta que a cadeia U-Try está a preparar a abertura de mais dois restaurantes em Lisboa ainda este ano, o ponta do CDUL diz-se entusiasmado, mas admite também que sente falta de uma rotina que, afinal, em retrospectiva, até considera tranquila. "Como atleta, estamos a fazer o que gostamos, damos o máximo e, no final de cada jogo, podemos relaxar um bocado", explica. "Aqui, a gerir um negócio, não dá para relaxar nunca".

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