Crónica

Corrigir Tolentino

Há trabalhos invisíveis que os leitores desconhecem. Um deles é o de revisão e tratamento de textos dos jornalistas em campo. Ou em ilhas…

Tolentino de Nóbrega sempre nos deu que fazer. Da função de alguns de nós, espera-se o assegurar de que foram ouvidas todas as partes e de que não estamos a incorrer em processos de difamação. “Hoje, temos ‘Tolentas’”, avisava muitas vezes Raul Vaz aos copy-desks ou copy-editors (como preferirem). Era um tratamento carinhoso por parte do então editor da Política, mas também um alerta para que estivéssemos atentos aos textos que produzia. “Tolentas” como sinónimo de “tormentas”.

Não que os problemas de gramática fossem diferentes de muitos outros jornalistas experientes ou que Tolentino não fosse cuidadoso a manter a sua isenção, mas sabíamos que o Governo Regional da Madeira seria implacável com o seu mais ínfimo deslize. Qualquer frase que pudesse denotar opinião ou falta de isenção seria imediatamente alvo de processo ou de insulto por quem tanto tempo esteve no poder.

Sempre que lhe pedíamos para repensar e reescrever alguma frase mais acesa ou intempestiva, brincava: “Mas tu és da família do Jardim?” Não, não éramos. Não somos.

Tolentino quase sempre acatava as sugestões e reformulava as passagens mais susceptíveis (desde que ali estivesse ausente a justificação objectiva que lhe dera origem e que uma notícia séria exige). Reconhecia muitas vezes que o seu impulso incontrolável de querer denunciar o que não estava certo poderia virar-se contra ele. Contra nós.

No entanto, nunca se deixou manipular e resistiu às ameaças dos que se julgavam poderosos para sempre. Mas, ainda assim, manteve a humildade de aceder a mudar, aqui e ali, a sua prosa. Mesmo se a sugestão vinha de alguém com apenas a idade que ele já levava de carreira.

Uma gargalhada e um obrigado antecediam invariavelmente o cair da ligação entre o continente e a ilha. Nunca lhe dissemos, mas descendemos de uma família madeirense. E gostamos disso. Obrigada, “Tolentas”.