O Clube dos Extremistas Sociais

É deplorável que uma universidade dê abrigo a um observatório travestido de gabinete de estudos da CGTP.

Começo por Louçã, que embora seja demasiado inteligente para não ter percebido aquilo que eu escrevi, prefere, ainda assim, fingir que o objectivo do meu texto era defender o governo e os números oficiais do desemprego em Portugal. Não era. O objectivo era mesmo denunciar o Observatório Sobre Crises e Alternativas e sublinhar a homérica vergonha que é andar a chamar “investigação científica” ao mais puro combate ideológico. Claro que todos nós temos convicções que marcam o nosso trabalho. Para dar um exemplo da área ideológica de Louçã: se Fernando Rosas foi torturado pela PIDE, é expectável que isso influencie o seu olhar sobre o Estado Novo. Mas não é por ter sido preso, nem por pertencer ao Bloco de Esquerda, que os seus livros de História deixam de ser trabalhos sérios. A razão é simples: há uma diferença radical entre as convicções ideológicas de um determinado autor marcarem o seu trabalho académico, e o seu trabalho académico ser integralmente construído para servir as convicções ideológicas de determinado autor. Ora, é isto que acontece no Observatório Sobre Crises.

Louçã chama a atenção no seu post para dados oficiais que mostram que há uma diferença de 150 mil pessoas entre o número de desempregados segundo o INE e aqueles que andam à procura de emprego segundo o IEFP. Sejamos claros: essa divergência merece certamente ser investigada. Só que o Boletim nº 13 do Observatório Sobre Crises não faz nada disso. O que ele faz é ir acrescentando aos números oficiais camadas de alegados desempregados, não-empregados, mal empregados e sub-empregados, chegando ao ponto inconcebível de engordar o desemprego com os emigrantes em idade activa. Isto é aceitável para alguém?

Pelos vistos, sim: é aceitável para o CES e para o Observatório sobre Crises. Basta, aliás, olhar para os títulos dos seus boletins para mergulharmos de cabeça na pseudociência: “Segurança Social: a austeridade põe as pensões em risco”(Boletim n.º 10), “Orçamento para 2015: mais custos para pior Estado” (n.º 11), “O salário mínimo: a decência não é um custo” (n.º 12). Se isto é linguagem académica, então eu vou compilar os meus textos do PÚBLICO e chamar-lhes uma tese de doutoramento. É deplorável que uma universidade dê abrigo a um observatório travestido de gabinete de estudos da CGTP, e que esse trabalho passe para a comunicação social com o carimbo da credibilidade científica.

Faço notar que o artigo que Carvalho da Silva et al. assinam hoje neste jornal é bastante mais sensato do que o Boletim n.º 13 que esteve na origem do meu artigo anterior. Não é por acaso que os quatro autores se entretêm apenas a defender a credibilidade das suas subcategorias esquecendo o mágico número dos 29% de desemprego “real” que tanto entusiasmou o El Mundo, e que implicaria que um em cada três portugueses activos estivesse sem trabalho. Caros senhores: o problema não está na definição de cada categoria. O problema está na sua soma aritmética. É essa soma que é 0% ciência e 100% política. É essa soma que faz do CES um Clube de Extremistas Sociais. É essa soma, enfim, que envergonha quem ainda acredita na nobreza da palavra “ciência” em Portugal.

Jornalista