Entrevista

“O mundo financeiro tem os políticos todos na mão”

O bispo de Beja, D. Vitalino Dantas, 73 anos, nasceu em Vila Verde, Braga. Diz que a Igreja não se deve alhear dos que sofrem e não gosta do assistencialismo. Defende a não eternização no poder e espera que o Papa Francisco continue a renovação em curso. É adepto das novas tecnologias. Usa smartphone e tablet.

D. Vitalino Dantas é o bispo de Beja, onde vive há 16 anos
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D. Vitalino Dantas é o bispo de Beja, onde vive há 16 anos Enric Vives-Rubio

Aos 10 anos descobriu a vocação. No exame da quarta classe, foi-lhe pedida uma redacção sobre o que queria ser. “Missionário e dar a conhecer Jesus Cristo”, respondeu. O pai, “um pequeno construtor do Minho”, ofereceu-lhe trabalho. Recusou: “Posso ir nas férias, mas quero ir para o seminário”. Viveu dez anos na Alemanha, mas depois do 25 de Abril quis regressar.

Passou pelo Minho, Alentejo, viveu na Alemanha.
A minha infância foi no Minho. Aos 10 anos quis ser missionário e escolhi os Capuchinhos. Fui para Vila Nova de Poiares. Voltei ao Minho para outro seminário. Depois entrei na Ordem do Carmo. Estudei em Fátima e na Alemanha, Teologia e Filosofia. Vivi na Alemanha de 1966 a 1976. Dediquei-me aos emigrantes. Mas o tempo principal da minha vida foi em Santo António dos Cavaleiros, Loures. Fui com a tarefa de construir uma igreja, a comunidade. Foi a minha grande aprendizagem como padre. A seguir ao 25 de Abril, havia muita pobreza, pessoas de costas voltadas. Umas com a ideia de revolução; os retornados descontentes; e aqueles a quem chamavam fascistas. Não se falavam. Um bairro assim não tinha futuro.

Qual foi o seu papel?
Tentar o diálogo. Consegui com alguma imaginação pôr aquela gente a colaborar. Nasceu a paróquia. Construímos a igreja e outras infra-estruturas. Fundei um centro cultural e social que tinha mais de 500 praticantes. Fundei a ocupação de tempos livres, com os jovens. Nasceu ali uma comunidade que continua.

Estava na Alemanha no 25 de Abril?
Voltei em 1976, mas em 1974 aproveitei para ver o ambiente. Foi para mim um momento muito feliz, de esperança. Muita gente emigrou por causa da pobreza, da falta de liberdade, pelo medo. Como devo obediência a uma congregação, escrevi que estaria disposto a regressar. Pedi um tempo e em 1976 voltei.

De que forma é que a crise actual chegou ao Alentejo?
A crise afectou muito, mas a reorganização das empresas, da agricultura também trouxe muitos desempregados. As máquinas fazem parte do trabalho. As pessoas têm mais níveis de formação, já não querem voltar à agricultura. Os jovens quase não encontram aqui futuro. Há poucas indústrias. E o Alentejo está muito desertificado. Estou cá há 16 anos - neste período perdemos mais de 10 mil habitantes na área da diocese. Há aldeias que nos anos 60 tinham cinco a seis mil habitantes e que, agora, nem mil têm. Muitos montes estão abandonados.

Disse que no Alentejo “há empresas agrícolas que são associais, criadoras de pobreza”. Qual é, para si, a função social da terra?
Quando os bens não são usados apenas para o bem-estar dos proprietários, mas para contribuir para o desenvolvimento integrado do país e da região estou de acordo. Porque o que é de todos às vezes não é de nenhum. O resultado de uma boa administração não pode ser para o consumo desenfreado de alguns e outros ao lado a morrerem ou a passarem fome. Para nós, que acreditamos na doutrina social da Igreja, uma boa administração é solidária e social. Se não for, quer dizer que só se interessa pelo capital, consumo próprio, e não pelo bem das pessoas. Aí o Estado, através de impostos ou de outras medidas, terá de ajudar esses proprietários a entrarem na dinâmica do bem comum. Não apenas numa dinâmica de uso egoísta dos bens.

Este modelo económico exclui os mais fragilizados?
Este sistema económico, se não for acompanhado, pode levar à exclusão. Uma sociedade que cultiva desigualdades e que exclui cidadãos não tem futuro. Pode provocar uma crise social e dar origem a convulsões que a desagregam. Nós, como Igreja, temos de lutar, para usarmos os recursos e a inteligência para o bem de todos. Aqui no interior, devido a este sistema económico e social, quem não tem nada acaba por emigrar ou ficar sujeito à acção solidária de algumas instituições.

O líder do PCP, após uma audiência com o cardeal patriarca, identificou convergências sobre a necessidade de alterar o rumo desta política. Afirmou ter no partido dezenas de milhares de católicos. Sentiu-se chocado?
Não. Como pároco que fui de Santo António dos Cavaleiros conheci muitos militantes do PCP que eram da Igreja, nunca os excluí. Tinha do CDS, de todos os partidos. A Igreja tem de ser um espaço de diálogo e comunhão. Vai além das nossas divergências. Quanto ao sistema económico e a crise a que chegámos, há muitas coisas que não domino. Hoje sabemos que o mundo financeiro tem os políticos todos na mão. Nenhum político pode fazer política, se não conseguir ter alguma boa relação com o mundo financeiro. Tem, pelo menos, de lhes dar confiança, ou eles fogem e ficamos a mendigar. Era o que estava a acontecer. Estavam a degolar-nos com juros usurários. Este mundo financeiro não perdoa. O que o Governo português fez foi sujeitar-se a muitas das exigências. Mas, pelo menos, conseguiu baixar os juros. A dívida é que se mantém.

Melhorou a vida dos portugueses?
Não. Mas, se fosse como antes, simplesmente investir em coisas que não têm rentabilidade, acabava-se o dinheiro, acabava-se o capital.

O sacrifício valeu a pena?
O sacrifício, se não é desumano, às vezes é necessário.

Foi desumano?
Em algumas situações foi. A Igreja e as instituições de solidariedade tiveram imenso trabalho. Mas o assistencialismo não é uma solução para os problemas, para a realização da dignidade da pessoa. A pessoa deve lutar pela vida, ter trabalho digno e remunerado. Vivemos num mundo global. As pessoas têm de ir para os sítios onde há investimentos, produção, trabalho bem remunerado. Isso causa muita desagregação, desenraizamento. Os jovens têm mais capacidade. Mas há pessoas que já têm uma certa idade. Para essas pessoas desempregadas que, de repente, não encontram soluções e têm de emigrar e recomeçar a vida, é muito difícil.

A Igreja devia ser mais interventiva politicamente?
A Igreja são todos os cristãos, não só o bispo. O bispo tem de ir à frente e às vezes meter-se lá no meio. Tem de sujar as mãos. Orientar não apenas dentro da igreja, mas também a intervenção social, familiar. E política. Não digo orientar politicamente, porque isso em democracia é para os partidos.

A política não se reduz aos partidos.
Os partidos estão condenados a desaparecerem, se não respeitam as pessoas. Se são só um lugar para os boys, para os que dizem ámen, deixam de ter interesse. A Igreja tem um compromisso de fidelidade com o bem das pessoas, não só o espiritual. O bem social, familiar, a dignidade, a educação.

Portanto, não se pode alhear?
Não se pode alhear. Não no sentido de que a Igreja tem de comandar as tropas para criar um sistema político, mas no sentido de que os seus membros devem estar envolvidos, na sociedade, nos partidos, na indústria, nas empresas, nos sindicatos e olhar não apenas pelos interesses pessoais ou do grupo, mas para os interesses de todos.

Continua crítico da governação socialista?
Vimos aquela maneira de governar do PS. Os partidos, infelizmente, às vezes deixam-se levar pelo líder.

Refere-se a José Sócrates?
Sócrates e alguns que estavam com ele. Havia uma altura de grandes promessas, de grande consumo, que não teria futuro. Até porque os credores estavam sempre a aumentar os juros. Sempre achei que havia uma evolução desenfreada, sem controlo. Vivia de subsídios, de grandes projectos. Ultrapassámos a Alemanha nalgumas infra-estruturas. Mas já antes de José Sócrates outros seguiram essa linha. Com a entrada na Europa, deixámo-nos levar um pouco pela mentalidade consumista, de apoios, sem ver os resultados, sem a produtividade.

Houve melhorias com este Governo?
Houve uma terapia de choque. Na altura eu também não sabia bem se ia ser uma terapia ou se ia aumentar a doença. Foi uma austeridade tão de repente, ao contrário do que estava antes.

E serviu?
Para tranquilizar os nossos credores, para não nos estarem a afogar. Para mostrar que estávamos dispostos a algum sacrifício, para que não nos faltasse ao menos o capital. Não criou mais riqueza nem emprego. Trouxe-nos um pouco para a realidade do que somos. Nenhum país pode passar tão rapidamente de um ambiente de emigração, de pouca cultura, de pouca indústria, de poucas vias de acesso, de agricultura primitiva, para o oposto.

Estamos em ano de legislativas. Quer uma mudança política?
Gostaria muito que quem tem meios os pusesse a render em benefício do país. E quem não tem fosse ajudado. É preciso uma mudança sobretudo a nível educativo, social, empresarial. Quais serão os políticos que ajudarão a fazer a mudança? Não vejo ainda. Ouço o que vão dizendo. E aconselho pessoas que têm inteligência, capacidade, com provas na vida empresarial, familiar, a entrarem na luta. Se nos pomos de parte, vamos ter sempre o mesmo.

Os actuais políticos não têm capacidade para as grandes mudanças?
Não me têm convencido. Cada um e cada partido às vezes fazem coisas boas. Não digo que agora vai ter de se mudar, mas não gosto de partidos que se eternizam no poder. Gosto que haja repartição de poderes. A democracia funda-se aí. A justiça está muito subalternizada ao poder político e o poder político está muito nas mãos dos grandes capitais. Há uma promiscuidade muito grande.

Disse que os homossexuais eram um dos “lobbies anti-Igreja”. Mantém-no, depois de o Papa Francisco ter dito não ser ninguém para julgar os gays?
Nunca ostracizei quem tem outra tendência em relação à afectividade, à sexualidade. Não a podem é impor, em relação ao que é a maneira normal de viver a sexualidade. Há que respeitar e integrar na sociedade essas pessoas, mas não há que pôr toda a sociedade a funcionar como eles querem. Isso mantenho. Sou radicalmente contra a ideologia de género. Sou a favor de algumas coisas que a ideologia de género trouxe. O homem não tem mais direitos do que a mulher, tem igual dignidade.

Os homossexuais não querem impor a sua sexualidade.
O que critiquei é que havia um lobby muito forte, que levou a quase se impor a ideologia de género a toda a humanidade.

De que forma o sentiu?
Na própria educação e na linguagem. Respeito a afectividade, mas não quero impor a minha afectividade aos outros. Eu sou macho, não sou mulher. Respeito a mulher como mulher e o homem como homem.

Falou de uma sexualidade normal. O que considera normal é a união entre um homem e uma mulher e as outras não?
Considero que a antropologia normal entre homem e mulher não é o mesmo que a antropologia entre dois homens - a sua afectividade e realização sexual não é igual.

Usa a palavra normal.
Normal no sentido que é o que a grande maioria vive, que corresponde ao seu género, ao seu ADN. Que tem futuro para a sociedade. De dois homens não nascem crianças. Uma sociedade não tem futuro se não houver propagação da vida.

É contra as uniões de facto, o casamento e a adopção por homossexuais?
Não sou contra. Respeito, mas não é a minha orientação. Não vou fazer a apologia. Uma humanidade que adoptasse esse caminho como normal estava a condenar-se a si mesma. O que disse foi nesse sentido, não no de ostracizar os homossexuais. Nada disso.

O Papa condena a ostentação, a corrupção e ordenou uma investigação ao Banco do Vaticano. Isso não aconteceu antes por inércia da Igreja?
Este Papa quis dar o seu cunho. O Papa Bento XVI, um homem inteligente, já não teria idade nem força para essa mudança. Este Papa tem conseguido. Embora saibamos que onde se mexe com as pessoas há sempre muitas resistências.

É o bloqueio dos conservadores?
Vai haver sempre bloqueios. Não podemos mudar as coisas dum dia para outro. A pouco e pouco, vai fortalecendo a sua linha e os que são de bloqueios começam a enfraquecer, com o tempo ficam inutilizados. Numa revolução, mudamos tudo de uma vez, na Igreja há uma evolução. Creio que este Papa tem-no conseguido, com muita energia, mais rapidamente. Espero que continue, a Igreja precisava desta renovação.

Usa smartphone, tablet, computador.
Têm sido um grande recurso para programar o trabalho. Tenho email, Facebook, Twitter, infelizmente não tenho muito tempo para os usar. Acompanho sobretudo outros padres da diocese pelo Facebook. Gosto muito, quando vou de férias, de ir a uma loja de informática. Um bispo e uma igreja que não se abram a isso não comunicam.