Editorial

E agora como ‘vender’ o acordo em casa?

Rohani e Obama enfrentam o mesmo problema: dizer aos conservadores que o acordo é bom.

Depois de 18 meses de negociações, com avanços a passo de caracol (e muitas vezes a passo de caranguejo), e mesmo já depois da data-limite de 31 de Março, o grupo dos 5+1 chegou a um princípio de acordo com o Irão sobre o nuclear. Em termos gerais, já se sabia, um acordo teria sempre de passar por reduzir a capacidade de enriquecimento de urânio por parte da República Islâmica em troca do levantamento progressivo das sanções económicas.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohamed Javad Zarif, confirmou que o país concordou em desmantelar mais de dois terços da sua capacidade de enriquecimento de urânio. E Barack Obama foi aos jardins da Casa Branca anunciar “um momento histórico” que poderá colocar um travão à capacidade nuclear do Irão de construir uma bomba atómica.

Para que o momento seja realmente histórico, Obama e Hassan Rohani ainda terão pela frente três meses de negociações, até 30 de Junho, para afinar os pormenores técnicos do acordo. E como fez questão de alertar Laurent Fabius, “nada está assinado até tudo estar assinado”.

Mais do que uma questão de ultrapassar detalhes técnicos, o que se trata aqui é de transpor uma enorme barreira histórica de desconfiança mútua entre dois países, que estão de costas voltadas desde a revolução iraniana de 79. Aliás, ainda antes de haver um acordo em Lausanne, já os republicanos ameaçavam aprovar legislação para reforçar ainda mais as sanções. E do outro lado do mundo, o ayatollah Ali Khamenei discursava e gritava “morte à América”.

E aqui é que está a chave para que este acordo seja realmente histórico e eficaz; quer Rohani quer Obama terão de convencer os conservadores cépticos dos seus respectivos países da bondade do acordo. Aliás, quando Zarif regressou a Teerão fez questão de separar as águas, dizendo que “as relações Irão/EUA nada tinham que ver com o acordo”. E Obama também fez questão de dizer que as sanções regressarão ao primeiro sinal de incumprimento por parte de Teerão.

Os responsáveis iranianos, apesar de tudo, quando chegaram a casa foram recebidos com aplausos nas ruas. Há toda uma geração que sabe, como lembrava Fabius, que o alívio das sanções poderá significar um ganho de 150 mil milhões de dólares para a economia.

John Kerry não foi recebido em festa. Em Washington é preciso convencer os 47 senadores republicanos que chegaram a assinar uma carta enviada ao líderes iranianos a alertar que qualquer acordo que não passasse pela aprovação do Senado seria revogado pelo sucessor de Obama, em 2017. E Obama sabe que terá ainda de lidar com a cólera e com o cepticismo de Benjamin Netanyahu – que já veio exigir que o acordo preveja o reconhecimento do Estado de Israel pelo Irão – e com a oposição dos países árabes sunitas da região que olham com medo para um Irão xiita que ficará mais forte economicamente. É difícil ultrapassar tudo isto em três meses. Mas o acordo de Lausanne é uma tentativa de, pelo menos, dar um passo em frente.