“Tenho de saber quem sou. E quem sou é uma coisa interminável”

Acabada de chegar do Rio de Janeiro, onde viveu quatro anos, Alexandra Lucas Coelho preparava-se para concluir o seu grande romance sobre o Brasil, Deus Dará, quando uma ideia obsessiva se lhe meteu no caminho: a história de uma mulher que quer matar um homem.

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MIGUEL MANSO

Viajou pelo Médio Oriente, o Afeganistão e o México, viveu em Jerusalém e no Rio de Janeiro, e depois num minúsculo quintal no Alentejo. Escreveu quatro livros de viagem, um romance de amor, outro de fúria, está a meio de um terceiro, onde o pré-apocalipse no Brasil é contado numa língua imaginária, atlântica. É uma escritora que vem do futuro, a correr para o passado, em expansão por várias vidas, tão suas como a própria morte. Em movimento, de um lugar para o outro e da realidade para a ficção, embora não goste da palavra ficção, nem de verosimilhança. Prefere a verdade, mesmo inventada. Uma conversa com Alexandra Lucas Coelho.

Assim nasceu, em dois meses, O Meu Amante de Domingo, publicado em Portugal pela Tinta da China e já com tradução prevista, pelo menos, em francês, pelo grupo editorial Éditions du Seuil.Falámos com Alexandra Lucas Coelho em Lisboa, ao chegar da Sérvia, depois de meses no Alentejo, e antes de partir de novo para o Brasil e Gaza.

Porque não paras?
Em primeiro lugar, porque posso. Não tenho filhos, nem ninguém que dependa de mim. E em segundo lugar porque quero. Sendo ateia e não acreditando noutra vida, sempre pensei que seria bom ter várias vidas nesta. Não quero encerrar-me numa possibilidade.

Atrai-te a ideia de recomeço?
Atrai-me a ideia de estar em movimento. Não necessariamente geográfico. Estar em movimento é um processo de expansão. Revejo-me muito na lógica do movimento antropofágico brasileiro, que vem dos índios. Comer o outro é uma forma de nos expandirmos. Por isso sempre me afligiu todo o processo que nos tenta reduzir, que nos tenta encaixar. Sempre vivi muito contra todos esses mecanismos que a sociedade naturalmente tenta impor aos indivíduos.

Quando sentes que a missão está cumprida, partes para outro projecto.
Não é estratégico, é muito pulsional. Porque não estou a tentar chegar a lado nenhum. Não me interessa o desfecho, mas o processo. Tenho horror a essa ideia, da sociedade capitalista, de que se vai ascendendo. Tenho horror à ideia de carreira. O poder nunca me interessou. Interessa-me a expansão. Das minhas possibilidades.

Lendo o que escreves, percebe-se que as viagens e os acontecimentos não se sucedem por acaso, mas de acordo com uma lógica, como se uma coisa levasse a outra.
É um mapa que vou construindo. Não vejo isto como uma sequência errática, talvez porque sempre soube exactamente o que queria fazer. Queria sair para o mundo e escrever. Isso determinou toda a forma como eu vivi. São duas pulsões tão fortes, que organizam tudo o resto. Nunca me senti perdida.

O jornalismo foi uma etapa nesse percurso?
O jornalismo foi uma forma de fazer isso, que agora se prolonga nos livros. Para mim, não se trata de uma interrupção.

Mas implica um olhar diferente sobre as coisas e os lugares?
Sim, mas porque se exige aos jornalistas que sejam diferentes das outras pessoas? Todos os escritores escrevem com tudo aquilo que são. O seu passado, a sua história. Mas as pessoas acham estranho que os jornalistas ponham no que escrevem algo da sua experiência jornalística. Porque se há-de estranhar que eu escreva sobre Gaza, se Gaza faz parte da minha vida, da minha biografia?

Essas experiências passam agora por um processo de transfiguração?
Para mim, o que sempre distinguiu o jornalismo da literatura é a liberdade. O jornalismo tem uma série de regras. O que se passa agora é que não tenho de obedecer a regra nenhuma. Estive recentemente, para escrever um conto, com total liberdade, nos Balcãs, uma zona que tinha visitado como repórter. Usei algumas técnicas da reportagem, como a forma como me oriento nos lugares, como procuro as pessoas. Mas depois não conversei com elas como se estivesse a fazer uma reportagem.

Não estavas tão preocupada em recolher informações factuais?
O texto que escrevi é a fusão que me interessa fazer. Tem elementos totalmente inventados, personagens que não existem, tem personagens do meu passado pessoal, alterados e misturados com a história, tem elementos da minha vida como repórter, e tem personagens reais.

Isso tudo misturado chama-se ficção.
Não gosto da palavra ficção, porque é demasiado redutora. Prefiro dizer: isto é um texto inteiramente livre, onde posso usar os elementos que me apetecer. Neste caso é um conto, podia ser um romance. A fronteira é sempre a liberdade. E o pacto que eu estabeleço com o leitor é esse. Nunca se percebe muito bem o que é da minha história e o que não é. Mas trata-se sempre de um trabalho de autobiografia. É o ponto de confluência em que a biografia se cruza com o lugar e se cruza com a História. Na reportagem, o elemento autobiográfico é muito reduzido, existe apenas no nosso olhar.

Como leitor, a minha impressão é de que no anterior romance, E a Noite Roda, há uma ligação com a realidade evidente, e neste último, O Meu Amante de Domingo, a ligação é mais apagada. Este é o momento da transição para uma nova fase?
Não vejo isso como uma transição. É um processo, em que certos elementos podem estar mais ou menos presentes. Os livros interligam-se. Eu estava a escrever um sobre o Brasil, mas ele resistia. Até que tive a ideia de escrever uma novela de sacanagem, em que uma mulher ia ter vários amantes, porque queria matar um homem. Isto começou a incrustar-se de tal forma, que telefonei à minha editora e disse: vou parar o romance e escrever outra coisa. O romance do Brasil tinha 200 páginas escritas, e tenciono escrever mais 200 ou 300. Vai ser parcialmente anterior a este e parcialmente posterior. E há uma ligação entre os dois. Eu queria na verdade construir uma ligação entre todos.

Uma continuidade?
Em O Meu Amante de Domingo a narradora corresponde-se com uma portuguesa que está a fazer pesquisa no Rio de Janeiro e que é amiga de um músico brasileiro de ascendência sírio-libanesa, que tinha decidido ir montar um centro cultural na Síria, o Karim. É o mesmo Karim que, em E a Noite Roda, é o anfitrião da narradora, quando ela se instala em Damasco, na casa de um brasileiro. No romance do Brasil, ele teria voltado, por causa da guerra. Dois irmãos dele são protagonistas do livro, e a sua casa no Rio de Janeiro é o centro do livro.

Esse Karim tem alguma relação com a realidade?
É totalmente inventado.

Como nasceu O Meu Amante de Domingo?
Nasceu da circunstância de eu estar numa casa, no meio do Alentejo, que era uma cozinha que se prolongava num quintal cercado por um muro. Vinha do Rio de Janeiro, uma cidade onde tudo me puxa para fora, para um lugar onde tudo me puxa para dentro. Este livro resultou disso. E do impacto, e da fúria que se foi gerando com a minha chegada a Portugal.

A forma como a narradora fala reflecte esse estado de espírito?
Algumas pessoas disseram que esta mulher tem uma linguagem desbragada, que significa que ela não domina aquilo que quer dizer. Ora eu acho que ela domina o que quer dizer. Por isso usa aquela linguagem. Acho que se fosse um homem ninguém diria que usa uma linguagem desbragada.

Uma coisa são as consequências que teve, outra é a tua motivação.
Sim, quero falar da minha motivação. No sexo confluem algumas das coisas mais poderosas sobre as quais alguém pode querer escrever. Tudo se projecta ali de alguma maneira. A vida e a morte, o espectro todo entre o prazer e a dor, todas as cambiantes de fracasso, dominação, violência, amor, entrega, recusa, medo, todos os fantasmas que se podem projectar.

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O sexo tem um poder metafórico enorme. E o uso de palavrões, habitual no Porto, refere-se a um universo alegórico em que todas as circunstancias da vida são traduzidas para situações sexuais, que significam relações de poder.
Esta mulher usa palavrões porque é uma mulher do norte e é uma mulher em estado de fúria.

Os palavrões estão ligados à fúria?
Estão ligados à fúria e à pulsão de matar que atravessa o livro. De vingança.

Matar, mas como pulsão de revolta.
E de vitalidade. Porque é disso que se trata. Todo o processo deste livro é um processo de como ficar vivo. É uma mulher de 50 anos que quer matar, como forma de se manter forte, de sobreviver ao que lhe está a acontecer.

Nisso, ela é mais do que si própria?
Interessou-me criar uma narradora ligeiramente mais velha do que eu, mas na mesma faixa etária. Estas mulheres fazem parte da minha vida. A minha vida também é isto. E eu quero escrever sobre aquilo que está à minha volta, que me move e me motiva. Acho normal que tendo eu 47 anos queira escrever sobre esse facto.

Temeste que isso não fosse compreendido?
A 30 de Setembro acabei de escrever o livro e enviei-o para a Tinta da China. Mas mal o mandei decidi que não queria publicá-lo.

Porquê?
Estava exausta. Foi um processo fisicamente tão violento, eu trabalhei 12 horas por dia, li o texto vezes sem conta, eu já não podia com esta mulher. Só pensava: está péssimo e eu não o vou publicar. Foi violento fazer emergir isto tudo. Mesmo os diálogos. Para mim, a zona mais violenta do livro é o diálogo dela com o futuro Nobel. Eu nunca tinha escrito diálogos assim. Não sei muito bem de onde é que estas coisas vêm.

De onde vem essa energia?
A maior parte desse diálogo foi escrito logo exactamente assim. Saí de casa para ir fazer ginástica, veio-me uma frase à cabeça, voltei para o computador e escrevi 5 mil caracteres.

Escrita automatica.
Sim. Quase não trabalhei esse texto.

A crítica foi positiva. Esses diálogos funcionaram, as pessoas identificaram-se.
A questão do sexo foi pouco abordada pela crítica. Como se houvesse uma espécie de desconforto ou pudor.

Por ser uma mulher a falar de sexo, com palavrões?
Talvez o uso da expressão linguagem desbragada tenha a ver com isso. Uma mulher é suposto ser contida.

Mas esta personagem representa uma mulher desobediente.
Claro, não aceita esse lugar. E eu sinto que, ao contrário do que me aconteceu como repórter, em que não tenho memória de ter sido preterida ou tratada de forma incorrecta por ser mulher… Pelo contrário, em algumas situações isso foi até uma vantagem, nalgumas zonas do mundo, como por exemplo o Afeganistão, ao contrário do que possa parecer. Nunca tive nenhum director que me dissesse, não podes ir para a guerra do Iraque porque és mulher.

Como escritora está a ser diferente?
É uma conjugação de duas coisas: eu ter um percurso de quase 30 anos como jornalista, e ser mulher. A conjugação destas duas coisas permitiu por exemplo que o senhor secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, na entrega do prémio APE, depois de ter feito na cerimónia declarações que confundem o Estado com o Governo, etc, me ter dito à parte que o meu discurso era primário. Não acredito que ele o fizesse se eu fosse um homem e não fosse jornalista.

Porquê?
Acho que ele o fez com o menosprezo de quem não leva a sério a pessoa que tem à sua frente, por eu ser uma repórter que começou há pouco tempo a publicar romances, e por eu ser mulher. A conjugação destas duas coisas faz com que, na hierarquia que imagino que presida ao comportamento do senhor secretário de Estado, ele me tenha tratado daquela forma. Não acredito que o tivesse feito com Mário de Carvalho, ou Lobo Antunes, se algum deles tivesse proferido um discurso crítico em relação ao Governo, ou ao Presidente da República, como eu fiz. Ele chegou ali, disse aquela série de disparates inacreditáveis, que noutras condições poderiam ter levado muito boa gente a questionar como é que um secretário de estado confunde Estado com governo, e afirma que um escritor que recebe um prémio de uma associação que também tem um fundo do Estado, deveria mostrar-se agradecido àquele Governo. A gravidade disto é extrema.

É esse sentimento que está neste livro? A forma como sentes que as mulheres são tratadas, como o país é tratado. Esta fúria também é essa?
Também é essa. Aquilo que aconteceu na cerimónia do prémio da APE esteve no meu espírito certamente quando escrevi este livro. O comportamento daquele governante, a sobranceria, o disparate, a arrogância daquele comportamento, e a falta de consequência pública e política daquele comportamento. E se eu quiser interpretar isso de uma forma lata percebo que aconteceu comigo porque mil outras coisas mais graves estavam a acontecer em Portugal. E não há espaço para noticiar tudo. O quadro era tão grave, que isto não era suficientemente grave para ter sido um caso. Há 10 anos teria sido impossível esta história não ter sido tratada por nenhum jornal. Mas nessa altura a situação do país não era o que é hoje, nem os jornalistas ganhavam o que ganham, nem tinham para fazer o que hoje têm. Hoje, quem está nas redacções trabalha 12 horas por dia e ganha 600 euros por mês, quando ganha.

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Escreve neste momento Deus Dará, romance que se passa no Rio de Janeiro: sete protagonistas em vários pontos da cidade, sete dias seguidos da semana, de anos diferentes, de 2012 a 2014 Miguel Manso

Também está no livro esse sentimento de injustiça e de impotência? As pessoas não se revoltarem, a passividade?
A passividade, claro. Este episódio lamentável do prémio da APE aconteceu no dia 11 de Abril. Eu voltei do Brasil em Março. A cronologia é esta. Vinha de uma cidade como o Rio de Janeiro, e de repente estava ali num quintal com pouco mais de um metro quadrado, com um muro à volta. E a ver o que é hoje uma pequena cidade alentejana. Como o silêncio que eu lá buscava corresponde à desertificação de quem sempre foi dali e tem de ir para fora para arranjar trabalho. O fracasso que representa. O livro é o resultado de tudo isso.

Mas há no livro uma certa proposta de redenção.
Onde vês isso?

Na revolta desta mulher.
Não é necessariamente uma redenção. O que esta mulher diz é: eu fico viva. Eu posso dizer que não. E quero morrer. Há uma frase neste último filme de Godard, que creio que vem da Antígona - “Estou aqui para dizer ‘Não’ e para morrer”. A afirmação da vida passa por isso, por ter direito à nossa própria morte. Isto é muito importante para mim, que não sou crente. Se não vou delegar nada num deus, tenho de acreditar que a responsabilidade é toda minha, a força é minha, eu sou comandante de mim própria. Por isso me aborrece tanto que alguém me tente arrumar numa gaveta, me diga: tu és repórter, deixa-te estar aí quietinha. Ninguém me vem dizer que eu tenho de ficar ali quietinha. Porque desde criança que ninguém me vem dizer isso. É uma coisa vital para mim. Não me venham dizer para ficar ali quietinha, porque eu não vou ficar ali quietinha.

Tens um problema com a autoridade.
Exactamente, tenho um problema com a autoridade. Não quero mandar em ninguém, e não quero que ninguém mande em mim.

Esta personagem parece representar uma revolta contra a autoridade. A própria ideia de vingança significa afirmação da sua vontade.
Tenho horror à ideia de ficar no lugar. Como assim, tens de ficar no teu lugar? Eu tenho é de saber quem sou. E quem eu sou é uma coisa interminável. O poder sobre mim própria deve ser absoluto. É o único poder que me interessa.

E isso está em causa?
Está em causa permanentemente. Está em causa perante a Segurança Social, que me penhora a conta bancária sem me perguntar nada, perante o meu banco, perante os patrões com quem as pessoas têm de lidar ao longo da vida, todos os sistemas hierárquicos, todas as tentativas de dominação, as nossas relações, tudo.

Mas ninguém é totalmente autónomo.
Não, ninguém é. É uma luta constante, contra não só tudo aquilo que me tenta fragilizar exteriormente, seja o Estado, seja a polícia, sejam as autoridades, mas também em relação às minhas próprias vulnerabilidades e fraquezas. É um duelo constante.

Mas é possível vencer.
Sim, é possível. Quando eu achar que não é possível, dou um tiro na cabeça. E eu quero ter o direito de dar um tiro na cabeça.

Em última análise, a morte é nossa.
A morte é nossa. A vida é minha e a morte é minha. Sempre que te atiram para um lugar de vazio, te tentam reduzir, ao teu lugar, ao teu papel, ao teu caminho, tudo isso são pequenas mortes. Mas depois é preciso construir um colectivo, uma comunidade, porque vivemos todos juntos. Uma ideia de política. Este livro é político porque contém uma afirmação de força, de não-submissão.

Há a responsabilidade de tentar construir alguma coisa.
Sim, como se articula a liberdade do indivíduo, essa autonomia que eu defendo, com outra coisa em que também acredito - a dádiva que temos de ter em relação aos outros, porque vivemos com os outros. Eu não sou uma eremita.

Quando foste para o Brasil, levavas uma grande expectativa em relação à força e entusiasmo colectivo daquele país. Depois houve uma desilusão?
Não houve nenhuma desilusão. Apenas um processo de conhecer melhor o país onde estava. Primeiro há o impacto brutal daquela natureza. Aquilo tudo atravessa-nos. E a minha atitude era essa: eu queria deixar-me trespassar. A língua, a natureza, aquela energia. Eu queria sofrer o impacto de tudo aquilo. Fisicamente e não só. E queria ver o efeito que isso teria em mim. Para onde me atiraria. O que resultaria do meu encontro com aquele lugar. Sempre senti que foi uma grande sorte eu ter ido para o Brasil depois dos 40 anos. Não fui directamente, saí de Portugal, dei uma volta ao mundo e fui para o Brasil. E isso libertou-me daquela atitude dos portugueses que oscila entre a subserviência e a arrogância.

O problema clássico da relação do ex-colonizador com o ex-colonizado.
Exactamente. Ou fica todo o tempo a pedir desculpa, ou mantém uma postura sobranceira.

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Ter corrido o mundo libertou-te disso, por teres conhecido outras ex-colónias?
Sim, eu andei a cobrir o colonialismo dos outros. Isso libertou-me para enfrentar a minha própria história. Para ser dura, ou irónica, quando tiver de ser. O Brasil foi absolutamente libertador para mim. Acho que não teria escrito O Meu Amante de Domingo se não tivesse vivido no Brasil.

Libertou-te de que forma?
A vida pode ser tão dura no Brasil… Claro que pode ser muito dura em muitos lugares do mundo, mas em talvez nenhum outro lugar eu tenha sentido como a vida pode ser dura, mesmo assim, haver alegria. E como essa alegria triunfa o tempo todo sobre a tristeza. A alegria no Brasil é o resultado de quem conheceu o fundo do fundo. É uma alegria que vem da tristeza, que a venceu.

Por isso é uma alegria libertadora?
Sim, eu passei a estar-me nas tintas para o que as pessoas achassem. Foi mais fácil começar a dizer “Eu”. E projectou-me para a nossa própria História, deu-me uma dimensão dessa História muito diferente, como uma outra possibilidade.

Fez-te olhar a identidade portuguesa de forma diferente?
Fez-me ver, como nunca, como a identidade está em movimento. E como ela é constantemente alterada. Isto é uma ideia que eu trouxe do México, na verdade. O México foi uma viagem decisiva para mim. É o México que me ajuda a decidir ir para o Brasil.

Porquê?
Esse encontro do colonizador com o Novo Mundo, com o índio, aquilo a Le Clezio chama o encontro do ouro com a magia. Foi uma viagem absolutamente mágica na minha vida. Foi nesse momento, em Maio de 2010, que eu decidi ir para o Brasil. Porque queria esse encontro, mas transportado para a nossa própria História, não a dos espanhóis.

Não tinhas sentido isso noutras viagens, por exemplo no Médio Oriente?
Não de uma forma tão física, tão carnal. O corpo no Médio Oriente não existe da mesma maneira. No México eu tive essa sensação. É como se, a certa altura, eu entregasse o próprio corpo. Deixo o meu corpo ali, seja o que for. No Brasil isso concretizou-se de uma forma muito poderosa.

Isso devia-se apenas à surpresa que o Brasil foi para ti, ou também à mudança que o próprio Brasil experimentava?
É a confluência de todas essas coisas, daquilo que eu trazia, do que aconteceu, do impacto que aquele território teve na minha biografia e na nossa História de portugueses.

Nas crónicas via-se que estavas muito atenta ao que mudava no Brasil.
Foi isso que eu achei quase mágico. Eu cheguei ao Brasil em 2010, numa altura em que o país se encontrava numa espécie de pujança todopoderosa. Os preços dispararam, tudo entrou numa loucura de consumo brutal. Uma euforia total. Simultaneamente eu estava a aterrar naquilo que podia ser uma terceira via do mundo (quando cheguei à praça Tahrir, no Cairo, os miúdos falavam-me do Lula). O Brasil parecia ser essa possibilidade de uma terceira via, entre os capitalismo e o socialismo, uma espécie de lugar novo que se podia construir à esquerda, mas na verdade eu aterrei numa das sociedades mais capitalistas do mundo. Aquilo era o auge de um capitalismo. Aquele capitalismo.

Mas não deixava de ser desenvolvimento.
Aqueles 40 milhões que emergiram da pobreza emergiram à custa de um brutal incentivo ao consumo, que depois não se reflectia em avanços na Educação, Saúde, etc. Nesse momento eu senti que havia uma atmosfera pré-apocalíptica.

Para ti isso foi uma possibilidade de utopia que falhou?
Tornou-se um prisma para ler o mundo. Simultaneamente, o Brasil está completamente voltado para dentro, e é um lugar à parte do mundo. Quem está lá não tem relação nenhuma, leitura nenhuma. Foi muito surpreendente perceber como o Rio de Janeiro, sendo uma cidade gigantesca, é tão provinciana. O Brasil é completamente autónomo, é como se fosse um grande quintal à parte do mundo. Isso é muito exaltante e ao mesmo tempo desesperante. Mas uma das coisas boas do Brasil é que nos rimos daquilo tudo, toda a gente se ri junta.

Riem de si próprios.
Sim, e isso também é uma boa aprendizagem. Talvez eu tenha perdido aí algum dramatismo.

É a ausência de culpa?
Sim, eu acho que o Brasil tem um efeito psicanalítico muito interessante na nossa mentalidade de portugueses. Eu, que tenho uma costela bastante melancólica e ansiosa, acho que o Brasil teve um grande efeito terapêutico.

O que queres dizer com ver o mundo através do prisma Brasil?
Por um lado havia uma autonomia quase infantil, que é fascinante para quem chega. Mas de repente fica-se naquela coisa que é o mundo-Brasil. Deus é brasileiro, há apenas o Brasil e o Universo. À medida que o tempo passa e tudo sedimenta, eu passei a olhar o mundo através do Brasil. Foi aí que eu comecei a sentir aquele clima pré-apocalíptico.

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O Brasil poderá ser precursor de algumas coisas que vão acontecer a nível global?
Não é ser precursor, é uma coisa mais subterrânea. É mais ser antecessor. É como uma lupa. O Brasil deu-me chaves para eu conseguir olhar para determinadas realidades. A viagem que fiz à Amazónia teve para mim esse efeito muito decisivo. É impossível voltar da Amazónia e continuar a olhar para o mundo da mesma forma. O Eduardo Viveros de Castro, um antropólogo muito importante para mim, tem uma visão de fim do mundo próximo. De falência total do planeta. Estamos a correr para isso.

O que se vê com essa lupa é o fim do capitalismo?
A única coisa que posso dizer é que há um clima pré-apocalíptico e que isso vem da consciência da relação da Natureza com os homens. O Rio é uma cidade completamente à mercê da Natureza. A casa onde eu morava ficava no Cosme Velho, um bairro que na verdade está no meio da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo. No jardim da minha casa havia macacos maiores do que eu, apareceu uma cobra na casa de banho, havia tucanos, árvores gigantescas, quando cai chuva é como se se abatesse uma catarata sobre nós. Temos a sensação de que a selva a todo o momento nos vai engolir, e que estamos a lutar com ela, mas somos ínfimos, porque tudo aquilo é muito mais forte, aquelas raízes, aquelas frutas, aquelas folhas, aquelas cores, aqueles cheiros, aqueles sons. Tudo aquilo é mais forte do que nós. Eu não vivia num apartamento num 5º andar no Leblon, protegido por grades. Eu estava no meio da floresta.

Essa sensação de vulnerabilidade estende-se também à organização colectiva, ao sistema político?
Sim, o absurdo que é estarmos a pensar que controlamos alguma coisa. Quando vemos as extensões gigantescas de terra que são ocupadas por plantações na Amazónia, os erros gigantescos que estão a ser cometidos…

Por outro lado há o facto de 40 milhões de pessoas terem saído da pobreza, nos últimos anos. Esse clima de pré-apocalipse não será relativo? Não depende da perspectiva em que nos colocamos?
Claro, as coisas não são preto e branco. Mas os perigos para o planeta não têm nada de relativo. Estamos a falar de coisas bastante objectivas.

Para quem tinha fome era um pouco indiferente os perigos para o planeta.
Uma forma pessimista de olhar para isto é: com o incentivo ao consumo, a esquerda, ao elevar 40 milhões da pobreza, neutralizou a revolta desses 40 milhões.

Que pensarão essas pessoas se alguém lhes for dizer que foi um erro melhorar as suas condições de vida, porque agora perderam a vontade de se revoltarem?
Não estou a fazer juízos. As coisas são assim. De facto houve 40 milhões de pessoas que sairam da pobreza, e isso é bom, ponto final. Não tem ‘mas’. Por outro lado, estamos a falar de um país com problemas terríveis de racismo, abusos policiais, violência extrema, onde 70 por cento dos jovens mortos são negros. Um país onde há uma guerra urbana, entre a polícia e os morros, e onde uma esmagadora maioria da população continua a ser sujeita ao que foram séculos de colonialismo, escravatura, repressão racial, ditadura. Tudo isso existe na vida do Brasil de hoje.

E tudo isso se tornou pesado para ti pessoalmente? Foi por isso que regressaste?
Não, o meu regresso deveu-se, antes de mais, à impossibilidade de viver lá, porque é demasiado caro. A partir do momento em que eu decidi viver com pouco dinheiro e escrever livros, que foi a decisão que eu tomei ao sair da redacção do Público, passou a ser impossível viver no Rio, que se tornou obscenamente caro.

Terias ficado, se não fossem os motivos económicos?
Talvez. Eu olho para o meu tempo no Brasil sem qualquer mágoa, e é maravilhoso poder voltar. Muitas pessoas importantes para mim estão lá. O Brasil foi, e continua a ser, parte da minha vida. Mas uma coisa que eu senti nos últimos meses que morei no Brasil, é que estava a tornar-se difícil escrever o livro lá. É muito difícil estar lá a viver e a escrever ao mesmo tempo sobre a cidade. Isso foi uma das razões que me fizeram pensar: agora preciso de me afastar.

O livro é sobre o Brasil, ou é apenas passado lá?
O livro passa-se todo no Rio de Janeiro. Chama-se Deus Dará, tem sete protagonistas, muito diferentes uns dos outros. Um deles é o Karim. Passa-se em sete dias seguidos da semana, embora de anos diferentes, de 2012 a 2014. A acção vai alternando entre eles, em vários pontos da cidade, que é no fundo a principal personagem. Dois dos protagonistas são portugueses. O livro começou a ser escrito antes das manifestações rebentarem no Brasil, e eu alterei-o muito por causa disso. É atravessado por um clima de pré-apocalipse.

É escrito a pensar em leitores portugueses ou brasileiros?
Não penso nisso. O livro tem várias linguagens. É também uma tentativa de trabalhar o português em várias zonas. Há personagens portuguesas e brasileiras, e há o narrador. A narração é feita na terceira pessoa. Os vários protagonistas têm vários sotaques, porque uns são da favela, outros da burguesia. Mas isto não pretende ser o romance de uma carioca, que eu não sou. Há-de ser exactamente aquilo que é: o romance de uma portuguesa que viveu no Rio de Janeiro, e que está a escrever um livro, com um narrador e sete personagens.

Mas de uma portuguesa que se tenta aproximar o mais possível. Nas crónicas que escreveste para o PÚBLICO desde que foste para o Brasil usaste formas de português do Brasil, o que não é comum. Há algum statement nessa opção?
Ainda hoje escrevi “autocarro”, porque estava a falar da Serra da Estrela. Se estou a falar do Rio de Janeiro, escrevo “Ônibus”, porque isso permite ver o autocarro no Rio de Janeiro. É uma forma de o transportar para lá. Eu encarei as crónicas como uma possibilidade de experiência da minha própria relação com a língua.

Mas o facto de passares a escrever à brasileira…
Eu não passei a escrever à brasileira. Escrevia naturalmente. Era uma tentativa de pensar aquilo que eu incorporei naturalmente. O vestígio, a marca que ficou naturalmente na minha língua.

Isso ultrapassa a dimensão da língua, significa que também alargamos a nossa identidade? E que devemos abraçar isso?
Óbvio. Pois se temos essa possibilidade.

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Como fala o narrador do teu livro?
Escreve num híbrido, que não é uma coisa nem outra.

É a fala de um português que foi para o Brasil?
Não, o narrador não é português.

É um misto, entre uma coisa e outra?
É um narrador masculino, mas não é claro o que ele é. Ele diz que escreve numa espécie de língua atlântica. Na verdade aquilo é a língua que eu ouço na minha cabeça.

É a língua portuguesa no melhor das suas possibilidades?
O narrador escreve exactamente como lhe apetece. Tem essa liberdade. É o verdadeiro narrador omnisciente.

E o Karim? Nasceu antes ou depois de teres ido viver para o Brasil?
Não sei. Ele nasceu em E a Noite Roda, mas quando comecei a pensar no Deus Dará decidi logo que ele seria um dos protagonistas. E a Noite Roda foi começado em Portugal, mas terminado no Brasil. Eu queria escrever um romance que acontecesse no Rio, porque queria tratar a experiência de lá ter vivido quatro anos. Como o Karim era uma personagem carioca, construí o romance a partir dele. Mas quando comecei a escrever E a Noite Roda eu já sabia que ia para o Brasil. A criação do Karim está associada à ideia de que eu ia para o Brasil, embora eu ainda não morasse lá.

E vais conseguir escrever sobre o Rio não estando lá?
Na verdade, tudo o que escrevi deste livro, escrevi-o em 40 dias que estive isolada na casa de uma amiga, em Minas Gerais. Escrevi pouquíssimo no Rio.

Procuras o silêncio para trabalhar, mas não aguentas mais de dois meses, e procuras de novo o ruído, onde as coisas acontecem, depois de novo o silêncio para escrever sobre elas.
Sim, eu funciono por imersões. Foi assim com os romances que escrevi até agora. De repente fechava-me durante três semanas e escrevia intensamente. Mas agora será uma experiência diferente, porque a imersão passa a ser um continuum. Não sei bem como vou gerir isso.

O método das imersões funciona para um repórter, que se recolhe de vez em quando para escrever. Para um escritor é difícil escrever intensamente e continuar a viver intensamente.
A imersão funciona bem em períodos curtos. Quando começa a ser muito longa, a vida não pode ficar congelada. É preciso misturar a vida nisso.

O que queres fazer a partir de agora?
Tenho vários livros na cabeça. Depois deste, sobre o Rio de Janeiro, que quero publicar no Outono, vou escrever uma peça de teatro sobre a Síria. Depois um romance passado nos anos 80, sobre a minha adolescência nos Olivais. Será também uma fantasia musical, porque é contado através da música que eu ouvi nos anos 80. Haverá outro romance que tem a ver com a minha infância, os meus avós paternos e a minha relação com a Serra das Estrela e as Penhas Douradas. Será mais interior ainda e mais para trás ainda. Isto é um processo da frente para trás.

Porque vais nessa direcção?
Isto relaciona-se com a minha convicção de que tudo é biografia. Vamos entrando na biografia cada vez mais. Mas não é linear. Antes disso ainda haverá um romance sobre Gaza. E uma espécie de documentário em livro sobre os imigrantes portugueses no Brasil, embora para isso eu precisasse de um apoio. O que não me vejo mais a escrever é livros de viagens. Já não faz sentido para mim.

Mas a realidade está sempre presente em tudo o que escreves. Isso continuará a ser uma marca?
Nenhum destes livros, mesmo o da minha infância, que vai atravessar o Estado Novo, pode deixar de ter um elo contemporâneo. Terão sempre um laço com o presente.

Não serão romances históricos. Porquê?
Porque eu não busco a verosimilhança, mas a verdade. Não me interessa criar um artifício, uma ilusão, uma verosimilhança. Por isso não gosto da palavra “ficção”. Não estou a ver-me a criar ali uma bolha, nos anos 80, sem haver este arco que instale a distância e crie a perspectiva. Se a distância existe em mim, eu quero que essa distância esteja lá também. Porque eu quero lidar com isso mesmo, com o meu olhar sobre essa distância. Eu escrevo sobre os outros e com os outros, mas em última análise escrevo sobre mim. No sentido em que não posso ter a arrogância de escrever sobre mais ninguém.

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