Zeca, o robot que ajuda crianças com autismo

Dia Mundial de Consciencialização do Autismo é celebrado esta quinta-feira.

Os comportamentos repetitivos são frequentes nos autistas e funcionam como um calmante para eles
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Autismo caracteriza-se fundamentalmente por uma forma particular de se situar no mundo PÚBLICO/Arquivo
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O robô Zeca com a investigadora Sandra Costa DR

Chama-se "Zeca", sigla para a expressão inglesa “Zeno Engaging Children with Autism”, e simula sentimentos como tristeza, alegria, surpresa e medo. Tem cerca de 60 centímetros e é transportável. O robot humanóide, produzido pela Hanson Robotics, foi desenvolvido pela Universidade do Minho (UM) para interagir com crianças autistas de forma a melhorar a sua interacção social e o sucesso nas tarefas realizadas.

Contactada pelo PÚBLICO, Filomena Soares, professora da Universidade do Minho e coordenadora do projecto, conta que o "Zeca" foi testado em cenário de jogo e que "as crianças participantes melhoraram os níveis de resposta, envolvimento e interesse na interação". "Exibiram mais comportamentos não-verbais e tiveram um desempenho significativamente melhor nas tarefas, quer na identificação e imitação das expressões faciais como na inferência dos estados afectivos de colegas", especifica. 

Segundo a docente do departamento de Electrónica Industrial, o robot provoca "reacções bastante diversificadas nas crianças, e de um modo geral estas reagem de forma agradável devido ao aspecto de boneco e ao facto de falar e mexer os braços".

Em parceria com a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental – APPACDM, em Braga, e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT, o projecto de investigação, pioneiro em Portugal, já foi testado em várias escolas, clinicas e associações de Braga, Porto e Aveiro. A professora acrescenta que, de um modo geral, o suporte robótico influenciou positivamente a intervenção com estas crianças, quando comparadas com as que realizaram tarefas idênticas sem este robot.

Designada “Robótica-Autismo”, a investigação com início em 2009 no Centro Algoritmi e no Departamento de Electrónica Industrial da Universidade do Minho, é coordenada por Filomena Soares, juntamente com Cristina Santos, João Sena Esteves, Sandra Costa, Ana Paula Pereira (CiED – Uminho) e Fátima Moreira (APPAACDM).

Este projecto robótico-afectivo já foi alvo de quatro teses de mestrado, onde "foram usados robots da LEGO devido ao baixo custo mas em contrapartida menos versáteis", diz Filomena Soares, e um doutoramento, "onde já foi usado o Zeca", publicações em revistas internacionais. A equipa já recorreu de novo à Fundação para a Ciência e Tecnologia com o objectivo de prosseguir o estudo.

O autismo é um distúrbio neurológico que afecta um em cada 1000 indivíduos, sobretudo homens. Prolonga-se por toda a vida e evolui com a idade. O seu estado mental caracteriza-se fundamentalmente por uma forma particular de se situar no mundo, criando uma realidade para si mesmo. 

Um inquérito realizado pela Federação Portuguesa de Autismo, divulgado em 2014 e que envolveu 301 famílias a viver em Portugal, revelou que 56% das crianças ou jovens com autismo toma medicação e 99% é acompanhado do ponto de vista médico. Em 40% dos casos, o diagnóstico foi feito por um pediatra do desenvolvimento, sendo que a maior parte dos diagnósticos foi feita no SNS. Ao nível do ensino, o estudo mostrou que 87% das crianças frequenta o ensino público, metade das quais num estabelecimento escolar que tem ensino estruturado, ou seja, uma resposta específica para o autismo.

Texto editado por Andrea Cunha Freitas