Saúde

Hospitais integram projecto para reduzir infecções hospitalares para metade

Fundação Calouste Gulbenkian seleccionou 12 unidades portuguesas para o projecto STOP Infecção Hospitalar!. Pneumonias, infecções associadas a cateteres e a algumas suturas são os principais alvos do programa.
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Só no Centro Hospitalar Lisboa Norte no espaço de três meses realizaram-se menos 1393 operações Foto: Carlos Lopes

Quando tudo corre dentro do previsto, em média os doentes ficam internados pouco mais do que sete dias nos hospitais públicos. No entanto, quando surge uma infecção hospitalar, o prazo derrapa para mais de 36 dias. Além disso, Portugal está entre os países da Europa com uma prevalência de infecções hospitalares mais elevada: os dados apontam para 10,5% quando a média dos países europeus é de 5,7%. Tendo em consideração estes dados, um grupo de 12 hospitais portugueses vai integrar, a partir desta terça-feira, um projecto da Fundação Calouste Gulbenkian que estima reduzir para metade estes valores no período de três anos.

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O projecto STOP Infecção Hospitalar!, feito em parceria com o Ministério da Saúde e o Institute for Healthcare Improvement, dos Estados Unidos, recebeu 30 candidaturas e seleccionou 12, apesar de inicialmente prever chegar apenas a dez. A ideia é dar resposta a um dos três desafios que a Gulbenkian traçou em Setembro para Portugal, aquando da apresentação do relatório Um Futuro para a Saúde – todos temos um papel a desempenhar. Na altura, o documento liderado pelo lorde britânico Nigel Crisp estimava que um programa deste género poderia diminuir em 140 milhões de euros o custo desta realidade.

“O relatório identificou as infecções hospitalares como um dos pontos de potencial melhoria e identificou essa potencial melhoria como tendo potencial impacto em ganhos de saúde, tanto na segurança do doente como em despesa em saúde. O ganho potencial de redução de despesa em infecção hospitalar é enormíssimo. Mais absoluta é a necessidade que temos de reformular o nosso sistema de saúde. Precisamos de um sistema de saúde que financie a saúde e não a doença. Isto é, que privilegie a prevenção da doença, nomeadamente da infecção, em vez de adicionar dinheiro por patologia”, sintetizou ao PÚBLICO o coordenador do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infecções e de Resistência aos Antimicrobianos.

José Artur Paiva, que também integra a comissão executiva do projecto STOP, explica que o plano da Gulbenkian será complementar ao programa português já existente no terreno e definido como prioritário pela Direcção-Geral da Saúde. Por isso mesmo, a lista de 12 hospitais conta com unidades que já estão “elas próprias incluídas nesta dinâmica do programa nacional, para que possa ser expectável uma melhoria muito ambiciosa”. A ideia é melhorar dados de várias infecções, como as associadas aos cateteres e outros tubos colocados nos doentes, de que as algálias são exemplo, assim como reduzir as pneumonias e infecções nas suturas.

Nesta fase, integram o projecto os centros hospitalares de Lisboa Central, Alto Ave, Barreiro-Montijo, São João, Cova da Beira, Lisboa Norte, Instituto Português de Oncologia do Porto, unidades locais de saúde de Matosinhos, do Nordeste e do Baixo Alentejo, Hospital de Braga e Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (Hospital Nélio Mendonça).

“Foi definida uma meta ambiciosa mas que me parece possível”, acrescentou José Artur Paiva, explicando que o programa abrange as unidades de cuidados intensivos, mas também as enfermarias de medicina e cirúrgicas – onde a gravidade e idade dos doentes é um factor de risco. O especialista lembra que o relatório Portugal: Controlo de Infecções e de Resistência aos Antimicrobianos em números – 2014, que apresentou em Novembro, já revelava melhorias nas infecções em neonatologia e associadas a cirurgias, mostrando ainda alguma redução na resistência a antibióticos. Com números preocupantes permaneciam as infecções relacionadas com as cirurgias digestivas. Para o médico, o projecto STOP vai, sobretudo, permitir dotar os hospitais de “recursos adicionais e até linhas de financiamento para obter resultados com maior facilidade”.

José Artur Paiva espera que o projecto da Gulbenkian seja especialmente útil a “construir uma vigilância epidemiológica eficaz, das infecções que temos aos antibióticos que consumimos e dos perigos de resistência das nossas bactérias”. Com esses dados, o coordenador garante que é possível “planear intervenções de melhoria”. Quais? “Tendo uma filosofia comum, podem e devem ser diferentes de hospital para hospital”, esclarece, adiantando que estarão sempre integradas nos vectores do programa nacional e que passa ainda por reforçar as medidas básicas de controlo da infecção – como a lavagem das mãos e o uso correcto de luvas – e por um programa que ajude os médicos a prescreverem melhor os antibióticos. Também aqui espera que haja um reforço.

Também Paulo Sousa, professor da Escola Nacional de Saúde Pública e membro da comissão executiva do STOP, espera que o programa ajude a mudar a “resistência à mudança”. “As pessoas têm uma percepção de que a infecção é um dado adquirido, que sempre existiu e faz parte da prestação de cuidados de saúde. A infecção, por vezes, é encarada quase como uma questão natural associada à complexidade dos cuidados ou do doente”, diz o especialista num comentário escrito.

Vão ser envolvidos mais de 100 profissionais, com 12 equipas de nove pessoas por cada hospital mais um elemento-chave que fará a ponte entre o hospital e a coordenação do projecto. Para Paulo Sousa, especialista em Qualidade e Segurança do Doente, o essencial do programa está na valorização dos profissionais e no método de colaboração entre todos “aplicando as boas práticas baseadas na melhor evidência”.