Por um diálogo para um Governo de esquerda: um imperativo patriótico

Sem ignorar o quanto claudicou a social-democracia europeia e o PS a nível nacional, é imperativo afastar uma posição de recusa em negociar um compromisso com o PS.

A situação é tanto mais paradoxal quanto, não obstante as diferenças, existe uma convergência de perspectivas de diversas forças políticas relativamente às causas da crise: uma crise bancária e financeira nascida nos Estados Unidos, transformada na Europa em crise das dívidas soberanas por interesse dos credores financeiros, nomeadamente por imposição da Alemanha e consentimento da França. As políticas assumidas pelos governos dos Estados “resgatados”, combinando arrogância ideológica e desconhecimento da História, provocaram consequências bem conhecidas: uma depressão severa e regressão social, com o declínio brutal de salários e pensões, o empobrecimento, uma elevada taxa de desemprego, a emigração e o aprofundamento da precariedade, o aumento das desigualdades, a desagregação do Estado social e a privatização de sectores estratégicos da economia. A quebra de solidariedade entre os diversos Estados-membros da UE ameaça espoletar novos conflitos e ressentimentos entre um Norte mais desenvolvido e capitalizado que beneficiou largamente dos sucessivos alargamentos, da liberalização do comércio mundial e, claro, do euro, face a um Sul economicamente débil e menos capitalizado, enredado na armadilha da desregulação das trocas internacionais, da moeda única, do declínio da produção agrícola e da desindustrialização.

Perante a devastação social provocada pela crise e a debilidade de movimentos sociais organizados, a questão-chave que se coloca é justamente: como romper com a austeridade, sair deste inferno social e construir uma viragem progressista no país? Sabemos da política de compromissos e de alinhamento com os interesses da ordem neoliberal não só do PSD e do CDS mas, em parte, também do PS, em linha, aliás, com o que se passa com outros partidos socialistas e sociais-democratas na União Europeia. A posição do PS, que ora se disponibiliza para acordos à direita, ora entreabre a porta para diálogos à esquerda, evidencia ambiguidade quanto aos compromissos políticos que quer estabelecer no futuro. Em qualquer caso, a conjuntura política exige às forças de esquerda não só uma definição clara de propostas e soluções a submeter ao escrutínio dos cidadãos nas próximas eleições legislativas, como uma estratégia realista que as permita concretizar.

Ainda que inicialmente co-responsável pela austeridade que nos esmaga, o PS não foi, não é nem será previsivelmente penalizado em igual medida pelo eleitorado, como aconteceu na Grécia, com o PASOK remetido a uma posição de figurante menor da política grega, e, em Espanha, com o PSOE a passar provavelmente a terceira força política. Por isso, qualquer estratégia política que vise uma mudança significativa para o futuro do país e dos portugueses não permite prescindir do PS. Ou seja, sem ignorar o quanto claudicou a social-democracia europeia e o PS a nível nacional, é imperativo afastar uma posição de recusa em negociar um compromisso com o PS, pois tal não só em nada contribui para a viabilidade de um programa de esquerda no país, como municia os argumentos daqueles que acusam o BE e o PCP de se furtarem a responsabilidades governativas e não viabilizarem uma solução à esquerda.

Não obstante a existência de diferenças em relação ao euro e à própria União Europeia, é inquestionável a responsabilidade do PCP, do BE, do Livre/Tempo de Avançar e dos demais pequenos partidos e movimentos de esquerda na procura de uma solução viável, assente certamente em compromissos mas com vista à construção de uma outra política e de um programa de Governo que, comprometido com o fim da austeridade, encete negociações com os outros Estados-membros, a Comissão Europeia e o Eurogrupo para que a dívida pública e privada do país não se constitua em obstáculo insuperável para o nosso futuro, reforçando as vozes críticas nomeadamente da Grécia.

Neste quadro, se o PS tem que definir-se ao lado de quem está e não procurar pretextos para dizer que os partidos à sua esquerda apenas sabem protestar, as esquerdas à esquerda do PS terão de estar à altura das suas responsabilidades perante o país e não podem prosseguir com a desoladora fragmentação político-partidária, quando se impõe um imperativo patriótico e realmente solidário perante as privações e sofrimentos de um povo sofrido e exaurido. Por isso, tal como na Grécia, urge, no respeito pelas diferenças, agregar forças, alcançar compromissos e encontrar uma plataforma de entendimento como solução viável para um Governo de esquerda. Trata-se de responder e dar expressão real aos sentimentos e legítimos anseios das classes sociais vítimas da austeridade e do empobrecimento, das classes intermédias e das pequenas empresas sufocadas pela situação atual. O diálogo entre formações e movimentos de esquerda permitirá esclarecer os eleitores sobre o posicionamento de cada partido face à austeridade e, dada a correlação desigual de forças, procurar uma plataforma de entendimento com o PS e obter avanços reais para além da retórica e boas intenções.

Porque não tentar? Ou será que, acantonando-se os partidos à esquerda do PS, quais torres de marfim, mantendo-se arautos da sua "pureza" ideológica e programática, conseguem dar resposta aos problemas candentes da pobreza, do desemprego e da precariedade, repor salários e pensões, defender o Estado social e articular posições para reestruturar a dívida? Ou, recusando essa plataforma de esquerda, não estarão objectivamente a manter o statu quo e na prática ser alheios à sorte de cidadãos desesperados que anseiam uma solução imediata? Não estando, desafortunadamente, o socialismo na ordem do dia, será que as direcções partidárias vão persistir em nome de uma "coerência" a bem dizer estéril e politicamente inútil — na pequena luta sobre a verdadeira "vanguarda" ou na simples contagem de votos e de deputados à esquerda, sem que daí advenha uma real alternativa e uma esperança para o povo português?

Está na hora de as direções dos partidos políticos de esquerda assumirem as suas responsabilidades perante o eleitorado e o povo português. 

Adão Mendes, operário, ex-dirigente sindical; Ana Lúcia Sá, professora universitária; André Carmo, professor universitário; António Cardoso, professor do politécnico; Eduardo Costa Dias, professor universitário; Elísio Estanque, professor universitário; Fernanda Gouveia, advogada; Fernando Bessa Ribeiro, professor universitário; Fernando Matos Rodrigues, professor do ensino superior; Fernando Silvino, advogado; Hélder Costa, encenador; Henrique Borges, professor e sindicalista; José Alves, comerciante; Luís Cunha, professor universitário; Manuel Carlos Silva, professor universitário; Margarida Madureira, professora universitária; Mário Alves, animador sociocultural; Telmo Caria, professor universitário; Virgínia Calado, investigadora.

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