Muhammadu Buhari eleito Presidente da Nigéria

Pela primeira vez, a oposição chega ao poder pela via democrática. Goodluck Jonathan e o partido que governa o país desde 1999 foram derrotados.

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Muhammadu Buhari derrotou Jonathan Goodluck Goran Tomasevic/Reuters

Não foi preciso esperar pelo último boletim, mas quase: depois de apurados os votos de 33 dos 36 estados e ainda da capital federal Abuja, o partido de oposição Congresso Progressista (APC, na sigla em inglês) declarou vitória nas disputadas eleições presidenciais da Nigéria, e cumprimentou o seu candidato, Muhammadu Buhari, como o novo chefe de Estado – o antigo general, que governou o país com mão de ferro, já tinha aberto uma diferença de quase três milhões de votos para o seu adversário Goodluck Jonathan, que assim falha a reeleição.

E menos de uma hora mais tarde, a vitória já era oficial. A contagem definitiva, anunciada pela Reuters, atribuiu 15,4 milhões de votos a Muhammadu Buhari, contra os 13,3 milhões obtidos pelo Presidente candidato a um novo mandato, Goodluck Jonathan. Os resultados consagram um feito inédito na História da Nigéria: pela primeira vez, a oposição chega ao poder pela via democrática, depois da realização de eleições livres. No entanto, cumprindo a tradição, a votação foi marcada por incidentes e alegações de fraude – ainda antes do arranque da contagem, ambas as candidaturas já levantavam dúvidas sobre a legitimidade dos resultados.

O APC tinha prometido cautela e moderação até ao anúncio definitivo dos resultados pela Comissão Eleitoral Independente. Na segunda-feira à noite, com três quartos dos votos contados, o partido prenunciava um resultado histórico mas evitava declarações. “Sabíamos que tínhamos os números, mas tendo em conta o Governo que temos, resolvemos esperar e certificarmo-nos que os resultados não eram manipulados”, alfinetou um dos porta-vozes da campanha de Buhari, Garba Shehu, citado pelo The New York Times.

Mas quando a distância que separava os dois candidatos se tornou intransponível, a prudência foi esquecida. “É mais do que óbvio que ganhámos. Vamos para a sede do partido, onde o nosso candidato presidencial se prepara para declarar vitória”, informou o mesmo responsável, convocando os jornalistas para o quartel-general do APC em Abuja.

Nessa altura, estavam contados os votos de Lagos, a maior cidade e principal entreposto comercial da Nigéria, de Kano, o segundo maior centro urbano e também de Abuja, a cidade que foi construída para albergar a capital federal do país. A apuração estava quase fechada no delta do Níger, território propício ao PDP do Presidente Goodluck Jonathan e onde a campanha de Buhari apresentou queixa por suspeita de intimidação de eleitores e fraudes na votação. O presidente da Comissão Eleitoral Independente, Attahiru Jega, admitiu que “as eleições não foram perfeitas em todo o lado, mas nas irregularidades detectadas não se encontraram razões substanciais para invalidar o resultado”.

De acordo com a imprensa nigeriana, Jonathan concedeu a derrota e telefonou ao seu adversário para o felicitar pela eleição quando ainda se esperava pela contagem do estado de Borno, o coração da insurreição islamista do Boko Haram. “Ligou às cinco horas menos cinco minutos a cumprimentar Buhari pela vitória”, informou o porta-voz do APC, Lai Mohammed. O gesto, declarou, faz de Jonathan um “herói nacional”. “Havia receios de que ele não aceitasse a derrota”, lembrou. O reconhecimento dos resultados, e o comportamento democrático do Presidente, esvaziam “dramaticamente” a tensão no país – “Quem procurar fomentar a instabilidade a partir daqui, terá de o fazer em nome próprio”, frisou Mohammed.

Os resultados eleitorais abrem o caminho para outra novidade na política nigeriana: o estabelecimento de um sistema bipartidário, que poderá servir de exemplo e inspiração para outros países africanos. Depois da independência, de sucessivos golpes militares e do fim do regime autocrático, em 1999, só um partido governou a Nigéria – o Partido Popular Democrático (PDP) de Goodluck Jonathan.

Mas a transição do poder será um desafio, tanto para Buhari como para o PDP. O facto de o anúncio dos resultados ter motivado cânticos e dança, em vez de violência, foi apontado como um primeiro bom sinal: em 2011, a rivalidade eleitoral não terminou após a votação, e converteu-se em violência, que fez mais de 800 vítimas após a contagem.

O Presidente Goodluck Jonathan, um antigo professor de zoologia com 57 anos e pouco carisma, não resistiu ao desgaste político provocado pela violência e expansão territorial do Boko Haram, à sucessão de escândalos de corrupção que afectaram o seu Governo e à crise económica decorrente da queda do preço do petróleo, a principal fonte de riqueza do país (representa 70% das receitas do Estado e corresponde a 35% do Produto Interno Bruto). Vários analistas políticos atribuem o voto na mudança mais como uma manifestação de repúdio do actual Governo do que uma preferência pelas políticas do APC ou a liderança militar de Muhammadu Buhari, descrito pelo The New York Times como um “convertido tardio” à democracia.

Buhari governou a Nigéria entre 1983 e 1985, quando foi deposto num golpe militar protagonizado pelo general Ibrahim Babagida. Nos seus 20 meses de poder, construiu uma reputação de austero e intolerante – sobretudo com a incompetência. Acabaria por renegar a ditadura e aceitar a democracia , e tentar várias vezes a eleição presidencial – esta foi a sua quarta candidatura. Aos 72 anos, trocou o uniforme militar por sandálias e vive como “um asceta muçulmano”, diz a Reuters.

Goodluck Jonathan não desperdiçou as seis semanas extra de campanha depois da mudança da data da votação de Fevereiro para 28 de Março, e lançou uma ambiciosa ofensiva militar contra os islamistas. O Exército nacional, com o apoio das forças vizinhas do Níger, Chade e Camarões, e ainda de grupos mercenários sul-africanos, conseguiu recuperar o controlo de grande parte do território sob domínio dos extremistas no Nordeste e Norte do país.

O que poderia ser um trunfo eleitoral, poderá ter funcionado contra o Governo, levando muitos eleitores a perguntar-se porque não tinham sido tomadas medidas mais cedo para conter a violência dos islamistas: segundo as estimativas das Nações Unidas, o Boko Haram matou mais de 7300 civis desde o início de 2014, quando começou a expandir-se de Borno para os estados vizinhos. No mesmo período, cerca de 1,5 milhões de pessoas deixaram as suas casas e tornaram-se refugiados, noutros pontos da Nigéria ou nos países contíguos.