Opinião

Marraquexe

Olha, meu caro, diz Tito, a única coisa que me causa dúvidas é não se conhecer candidato da área do centro esquerda.

De passagem para férias em Marrocos, Tito Zagalo entrou-me por Lisboa triunfante: estou finalmente a ler as Memórias da II Guerra Mundial de Winston Churchill e decidi percorrer em Marrocos os caminhos que Roosevelt e Churchill percorreram quando vieram ao Norte de África planear o desembarque na Sicília. Vou a Casablanca e depois darei um salto ao oásis de Marraquexe.

Ainda hoje me surpreendo como foi possível àqueles grandes homens, arriscarem viagens longas e inseguras em aviões incómodos para se articularem num esforço imenso e prolongado contra Hitler e o nazismo. Se quiseres, é uma pequena homenagem retardada.

Tito confessou-se exasperado com o episódio da lista VIP de contribuintes. Não entendo tanta asneira junta e tanto erro primário de comunicação, tentei eu amaciar. A partir de uma simples queixa sindical de defesa de associados contra processos cujo nível crescia ao ritmo da curiosidade malsã de quem pode saber dos outros o que ninguém mais sabe, o governo estatela-se em negações, contradições, evidências documentadas, demissões forçadas de peões numa prática que discrimina cidadãos para caçar curiosos: Qual quê, não te iludas, o que o governo pretendia no fundo era fechar o acesso a dados de cidadãos no poder, ou dele próximos, para minimizar riscos. O mesmo espírito que o levou a mudar os responsáveis da televisão pública a seis meses das eleições, responde Tito. O pior de tudo é a revelação do que o governo pensa da administração: carne para canhão! Se as coisas correm mal, toca a demitir, para salvar a pele.

Tito, não te enerves, estamos na Páscoa, os políticos vão viajar, outros apascentar o anho com a família. Até Portas, vais ver, fará turismo na nossa terra, desta vez. Sabes, responde Tito, o que mais me intriga é como o homem aguenta aquelas constantes viagens, aquele esforço físico para elevar aos píncaros as exportações, mesmo que os resultados sejam míseros. Outro já teria desistido. E que me dizes, Tito, da saúde ocupacional destas empresas que empregam pilotos baratos de tenra idade e os deixam suicidar-se arrastando centenas de inocentes? Nada de novo, infelizmente. Coisas semelhantes ocorreram nos EUA em 1993. Em pouco mais de um ano tivémos desastres vários, no País com a melhor ajuda à navegação aérea do mundo. Já não te recordas, mas nessa altura eu voei várias vezes entre Nova Iorque e Washington com péssimo tempo, viagens pavorosas para cumprir horários e metas comerciais. Tínhamos saído de uma greve prolongada de tripulações, as grandes companhias despediram toda uma geração de pilotos experientes, recrutaram jovens por um terço do salário dos despedidos, como um amigo meu de 23 anos, co-piloto, pago então a dois mil dólares por mês. Por maior perícia que tivessem, faltava-lhes experiência e bom senso. O resultado foi a queda de três aviões em pouco mais de um ano. A situação levou tempo a estabilizar. Hoje a competição força os limites e relaxa as regras. Mais um triste resultado do capitalismo selvagem.

Sabes, Tito, temos os cofres cheios de dinheiro emprestado, vivemos um sucesso económico esfusiante e as notadoras recusam tirar-nos do lixo? Passos Coelho desculpou logo notadores e notados: a culpa é das eleições. Meu caro, responde Tito, enquanto não dermos sinais de que a dívida pública começa a ser reduzida, estaremos sempre em risco. E ela só se reduz com crescimento e emprego. Tudo irá piorar, não pelas eleições, mas pelo eleitoralismo. Quem vier depois terá vida difícil e novo ciclo depressivo nos espera. A menos que sejam Coelho e Portas a vencer eleições, nessa altura será castigo para todos: para o povo e para eles. Lembrei-lhe que as sondagens apresentadas aos quarenta empresários me faziam lembrar 1991, no Verão, quando uma notícia, em férias de agosto, colocou o PS como vencedor, contra toda a evidência disponível. Chegou Outubro e Cavaco arrecadou segunda maioria absoluta. A sondagem que o PSD agora exibiu, sem a mostrar ao CDS, certamente para o não desmoralizar com os pobres 4%, deve ter sido realizada pela mesma empresa da de 1991. Qual sondagem responde Tito, pura invenção canhestra, duvido que qualquer um dos quarenta tenha acreditado nesse conto para crianças.

Sei que tens pressa Tito, mas diz-me o que pensas das presidenciais. Olha, meu caro, a única coisa que me causa dúvidas é não se conhecer candidato da área do centro esquerda: Mas é impossível, respondi, não temos ninguém que possa ser atirado às feras e que as consiga domar ao longo de seis meses. Quando chegasse Outubro, tal candidato estaria com a roupa chamuscada e queimaduras de primeiro grau por todo o corpo, sem que pudéssemos substituí-lo. O endosso partidário desta vez será sempre tardio e pós-eleitoral. O mesmo acontecerá na direita, acrescenta Tito: Marcelo passeia e mostra-se, sorri ao Governo a quem dá tréguas, mas no final não se apresentará. Seria pedir a Mefistófeles que se redimisse em anjo. Santana Lopes, resiliente, unirá o que restar então. Para partir perdendo, será necessário ter coragem.

Professor catedrático reformado