Torne-se perito

A música como guia para descobrir e para viver Ponta Delgada

A segunda edição do Tremor 2015 trouxe mais gente e ofereceu-nos magníficos concertos de Medeiros/Lucas, Sensible Soccers ou Emperor X. Mas Ponta Delgada e as gentes que a ocuparam foram, uma vez mais, as personagens principais.

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Na imponente Igreja do Colégio, o terceirense Carlos Medeiros e o faialense Pedro Lucas mostraram as canções que compõem esse disco precioso que é Mar Aberto Rui Pedro Soares
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Rui Pedro Soares
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Emperor X na Londrina Rii Pedro Soares

No Clipper, pequeno em dimensão mas grande em história (foi fundado em 1944), o senhor Miguel, atrás do balcão, diz que é preciso quebrar a monotonia, que é preciso criar alternativas para trazer de novo as pessoas ao centro histórico de Ponta Delgada.

Enquanto o diz, entra no café Bruno Pernadas. Está a caminho do concerto que dará nesta noite de 28 de Março no Teatro Micaelense, um dos destaques da segunda edição do festival Tremor, e faz uma paragem rápida para comprar um maço de tabaco.

O senhor Miguel apercebe-se que Pernadas é um dos músicos responsáveis pela animação que se vive na cidade naquela noite. “Obrigado por estarem a fazer isto”, exclama. “Estas coisas são maravilhosas, é uma ideia genial”, elogia. Pernadas agradece e segue caminho até ao palco transformado em belíssimo paraíso ecológico (há árvores e arbustos a emoldurar os nove músicos) onde apresentará o seu celebrado álbum de estreia How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?. E nós, por esta altura, já concluímos que o homem há 28 anos atrás do balcão do Café Clipper tem razão. Esta coisa que é o Tremor, festival que se espalha pelo centro histórico de Ponta Delgada, ocupando espaços onde a música é habitual e outros (uma igreja, um hostel, uma loja de tecidos ou de roupa) onde ela é surpresa inesperada, é realmente, e citamos novamente, “maravilhosa”.

Das dez da manhã de Sábado, quando pais e crianças desceram até à praça do Centro Comercial Solmar, na marginal, para ouvir a música para infantes dos Du-Dé-Du até madrugada muito alta (estávamos quase nas 6 da manhã quando os Sensible Soccers chamaram o público a subir ao palco da Academia das Artes para fazer a festa), vimos concertos de Duquesa, Bitchin Bajas, Medeiros/Lucas, Black Bombaim, ZA!, Emperor X, Moullinex ou Lucretia Dalt. As viagens low-cost para São Miguel, que trarão milhares à ilha e que são o grande tópico de conversa por estes dias, ainda não começaram (os primeiros voos aterram em Abril), mas Ponta Delgada estava vibrante, com cerca de um milhar de pessoas correndo as ruas e enchendo os espaços disponíveis para ver o que o Tremor tinha para oferecer.

O festival que emanou da actividade da Yuzin, agenda cultural fundada há seis anos por Luís Banrezes, portuense migrado para os Açores, teve o seu embrião nas festas organizadas para celebrar o aniversário da publicação. Em 2014, a festa tornou-se algo maior. Em colaboração com a editora e promotora portuense Lovers & Lollipops, responsável, por exemplo, pelo Milhões de Festa em Barcelos, a festa transformou-se num festival. E o festival, depois do sucesso da primeira edição, parece transformar-se em algo mais. Há a música e o prazer em reencontrar ou descobrir bandas. Mas há, também, aquilo que nos diz o homem que fomos vemos ao longo do dia, bloco na mão, a retratar em grafite e traço rápido os músicos que vão ocupando os palcos. É ele que nos fala da possibilidade de “tertúlia” que aqui nasce, propiciada pela escala humana do festival.

O Tremor é um festival em que a cidade, com as suas ruas estreitas, as suas casas brancas, os passeios de rocha negra, os edifícios com séculos de história exibindo o basalto ricamente trabalhado, é ela mesma actriz principal. E, ao segundo ano, depois do sucesso obtido na estreia e com a curiosidade que gerou, já é visível o “efeito multiplicador” de que falou o retratista não oficial do Tremor. Segundo Luís Banrezes, a percentagem de público vindo de fora, atraído pelo festival e pela possibilidade de aproveitar a viagem para descobrir São Miguel, aumentou de forma notória. Gente curiosa, aberta à descoberta. É, de facto, uma proposta irresistível.

Nos dias anteriores, houve sessões de cinema e desenvolveram-se workshops. Nos dias anteriores, quando o relógio se aproximava das 19h30, tornou-se hábito ver uma longa fila de pessoas reunir-se numa paragem de autocarro junto às Portas da Cidade. Dali partiriam para um destino desconhecido para ver um concerto surpresa: os Bitchin Bajas na plantação de chá da Gorreana, Duquesa nas estufas de ananás dos Arruda ou Emperor X, o americano Chad Matheny, na ampla varanda de uma suite do São Miguel Park Hotel, a sair debaixo dos lençóis da cama para conquistar meia centena de privilegiados com as suas canções folk danificadas e um humor irresistível – no dia oficial do Tremor, lotaria durante a tarde a histórica Londrina, “a loja de roupa culturalmente mais relevante do hemisfério norte”, como classificada pelo próprio.

Sábado, o dia é um corrupio. Tanto para ver, tantos espaços para conhecer, tanta música tão diversa para aproveitar. Na nave da antiga Igreja da Graça, remodelada para acolher a Academia das Artes, a tarde começa ao som do colectivo portuense Srosh Ensemble, que fez dos Açores música. Literalmente: violas da terra manipuladas, basalto e outras rochas locais percutidas, água micaelense a fervilhar e molas tratadas como vibrafone que reproduz o som dos sinos das igrejas (pouco a pouco submergimos naquele universo e sentimo-nos próximos de uma qualquer essência do local). Numa lotadíssima Louvre Michaelense, uma antiga loja de tecidos, Lucretia Dalt faz a sua electrónica saturada ecoar pelas montras envidraçadas que cobrem todas as paredes. Pouco depois, estaremos no salão do Ateneu Comercial a ouvir a pop feliz e solar de Duquesa, que leva banda completa ao palco enquadrado por cortinas de veludo creme e uma pintura gigantesca, deliciosamente kitsch, de uma vista aérea de Ponta Delgada – há crianças na fila da frente, há uma sala repleta que os sócios do Ateneu, sentados nas mesas ao fundo da sala, observam divertidos e orgulhosos.

O Tremor faz-se das caminhadas e dos encontros e reencontros com as caras que, à medida que as horas passam, se vão tornando conhecidas. Faz-se desta vontade de mostrar música nova, música estimulante, desafiante, sem fronteiras de géneros. Num momento estamos na tasca, que é também centro de tertúlia musical, chamada Travessa dos Artistas, a ver um blues-rocker endiabrado a extrair riffs ácidos da guitarra enquanto ataca sem piedade uma bateria electrónica (seu nome de guerra: Bandido e o Coração Pirata). No momento seguinte, no espaço renovado que, esse sim, se chama Tasca, o veterano irrequieto chamado Alexandre Soares, que antes víramos integrado no Srosh Ensemble, pega na guitarra eléctrica para esculpir matéria sónica perante os nossos olhos. Haverá mais blues-rock, com o promissor King John, músico local, a fazer com que a Refinaria, espaço muito acarinhado pelos boémios de Ponta Delgada, transbordasse de gente. E haverá a “música espiritual para ateus”, como definida pelos próprios, dos Bitchin Bajas – tocam num antigo claustro convertido em auditório e, com órgão, flauta e electrónica serena, reconfortante, oferecem-nos um final de tarde perfeito.

Este correr do dia ao sabor do som e marcado pela geografia urbana, é o que faz do Tremor um festival único – porque é Ponta Delgada e suas gentes que se inscreve nele. Mas é de um festival que falamos, um festival de música. Ou seja, recordaremos a pop de vistas amplíssimas de Bruno Pernadas no Teatro Micaelense, o espaço mais institucional do Tremor, e a forma como nela se centrifuga groove jazz e planagem prog-rock, como se harmonizam tão perfeitamente as vozes de Francisca Cortesã (Minta) e Afonso Cabral, dos You Can’t Win Charlie Brown; como entre o sopro dos metais e as teclas e guitarras de Pernadas há a memória transformada de Beach Boys, Talking Heads, Miles Davis ou Van Der Graaf Generator. Deste Tremor, levaremos a poderosíssima descarga eléctrica dos Black Bombaim, bem-vinda catarse rock praticada às 3 da manhã, e a magnífica viagem entre o cosmos evocado pelo psicadelismo e o apelo físico da batida de groove bem medido dos sempre óptimos Sensible Soccers.

Do Tremor 2015 guardaremos o elegante festim dançante oferecido pela banda de Moullinex, trajando túnicas decoradas com farripas, no belíssimo Coliseu Micaelense. E quando tudo se aproximava do fim, quando os infatigáveis operários da organização independente, um do it yourself muito profissional, podiam por fim libertar-se sem constrangimentos do stress acumulado, quando Luís Banrezes já começava a pensar no que poderá ser feito de diferente no Tremor 2016, nesse momento, continuávamos sob o efeito do que víramos na imponente Igreja do Colégio de pé direito altíssimo e altar em impressionante talha de madeira ricamente trabalhada. Ali víramos Medeiros/Lucas, ou seja, o terceirense Carlos Medeiros e o faialense Pedro Lucas, mostrar-nos com a sua banda as canções que compõem esse disco precioso que é Mar Aberto. A voz de Medeiros cresceu perante nós, tão límpida e justa para com as emoções que as palavras continham, a banda rodeou-a para que as emoções ganhassem corpo palpável e demos por nós a pensar que, só por aquela hora tão intensa e tão comovente, já todo o Tremor teria valido a pena.

Felizmente, tivemos mais, muito mais. Tivemos o dia em que uma cidade recebeu um sopro de vida e se celebrou através da música e das pessoas que a música chama. Acabou o Tremor 2015 e a boa notícia é que já só falta um ano para o próximo.

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