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Andreas Lubitz ocultou baixa médica para dia do voo em que matou 150 pessoas

Polícia alemã afirma que Andreas Lubitz sofria de uma doença não especificada e que estava a ser medicado. Ficam afastadas hipóteses de razões políticas ou terrorismo.

As autoridades alemães conduziram buscas à casa dos pais de Lubitz e ao seu apartamento em Düsseldorf
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As autoridades alemães conduziram buscas à casa dos pais de Lubitz e ao seu apartamento em Düsseldorf Fredrik Von Erichsen/AFP

As autoridades alemãs encontraram vários atestados médicos rasgados na casa de Andreas Lubitz e afirmam que um deles cobria o dia em que Lubitz pilotou o avião da Germanwings e deliberadamente o despenhou contra os Alpes, matando as 150 pessoas a bordo, incluindo ele próprio.

Numa nota ontem publicada, os procuradores alemães dizem que foram recolhidas provas que indicam que Andreas Lubitz sofria de uma doença e que estava a tomar medicação para a tratar, não especificando, contudo, de que doença se tratava. Na casa de Lubitz não havia nenhuma nota de suicídio ou confissão.

“Foram encontrados documentos médicos que indicam a existência de uma doença e de tratamento médico apropriado”, lê-se no comunicado.

De acordo com a polícia alemã, Lubitz terá escondido a doença de que sofria — e os atestados — da operadora aérea Germanwings, da sua empresa-mãe Lufthansa e dos seus colegas de trabalho. Ao início da tarde, a Germanwings confirmou isso mesmo: “Não houve nenhuma comunicação médica apresentada à empresa para esse dia.” 

É pelo menos essa a informação transmitida no comunicado, traduzido do alemão pelo diário britânico The Guardian: “Foram encontrados atestados médicos rasgados — também correspondentes ao dia do acto —, sustentando, depois de um exame preliminar, o pressuposto de que o falecido escondeu a sua doença ao empregador e círculos profissionais.”

A polícia parece afastar definitivamente a ideia de que Lubitz cometeu um acto terrorista, ou agiu de acordo com convicções religiosas e políticas. Algo que já fora contestado pelas autoridades francesas. Não foram encontraram “indicações de antecedentes políticos ou religiosos para o incidente”, lê-se no comunicado.

Parecem ganhar força as teses que apontam para que Lubitz sofresse de perturbações psiquiátricas. Estas informações começaram a surgir na quinta-feira, dia em que as autoridades francesas anunciaram que Lubitz se trancara no cockpit do Airbus e, ignorando os apelos do comandante e torre de controlo, deliberadamente manobrou o avião para que este embatesse nas montanhas.

Estas informações eram até ao momento atribuídas a fontes não identificadas citadas por jornais alemães. As primeiras notícias foram publicadas no site da revista Der Spiegel e no tablóide Bild. Ambos sugeriram que Lubitz sofrera de “depressão” e “desgaste” em 2009, ano em que interrompeu — até agora sem explicação oficial — o curso de piloto na Lufthansa.

Empresa sublinha testes

Uma das informações avançadas pela imprensa local afirmava que Andreas Lubitz recebera tratamento para um episódio de depressão no hospital de Düsseldorf. Uma informação que o hospital refutou, adiantanto, contudo, que Lubitz aí fora sujeito a uma “avaliação médica”, como escreve o diário britânico Guardian. Uma vez mais, não foram dados detalhes sobre que tipo de doença estaria em causa. 

O relato dos procuradores alemães é até agora a única fonte oficial que sustenta a tese de que Lubitz sofria de uma doença que o podia impedir de pilotar um avião. Em todo o caso, as indicações de um historial de doenças psiquiátricas foram-se adensando ao longo do dia.  

Sobretudo devido a um relato do Bild. Este cita um documento alegadamente enviado pelo Centro Aeromédico da Lufthansa ao regulador aéreo alemão em que se indicava que Andreas Lubitz sofrera de um “grave episódio depressivo” em 2009. A Lufthansa e os procuradores alemães recusaram-se a comentar a notícia do Bild.

Esta justificação parece preencher o vazio deixado pela Lufthansa na conferência de imprensa de quinta-feira. Ao descrever o percurso profissional do co-piloto, o CEO da operadora alemã referiu pela primeira vez que Lubitz interrompera o curso de piloto durante vários meses. Um ponto que concentrou as atenções. 

Esta paragem aconteceu um ano depois de ter começado o curso, em 2008. Mas Carsten Spohr disse desconhecer qual era a razão por trás desta interrupção. Uma das explicações avançadas era a de que a justificação estaria sob sigilo — o que aconteceria caso a paragem se tivesse devido a uma razão clínica.

Em todo o caso, se houve um ponto que o CEO da Lufthansa se esforçou por deixar claro durante a conferência de imprensa foi o de que Andreas Lubitz, tal como o resto dos pilotos da operadora, foi sujeito a vários testes, físicos e psicológicos. No caso do co-piloto, Spohr afirmou que este teria de ter justificado a ausência do curso e repetido os testes.  

“Não posso dizer nada acerca das razões desta interrupção, mas disse-vos antes que se alguém interrompe o curso terá de fazer vários testes para que a competência e a condição física sejam avaliadas novamente”, afirmou Carsten Spohr na quinta-feira. 

Indemnizações “ilimitadas”

As novas informações mostram que tanto a Lufhansa como a Germanwings poderão receber pedidos de indemnização de centenas de milhares de euros se não conseguirem provar que não tiveram responsabilidade, sublinha o Guardian.

Peritos legais citados pelo jornal disseram que se for confirmado que de facto o co-piloto tinha um historial de depressão e problemas psiquiátricos a empresa terá dificuldade em defender-se de pedidos de compensação.

“Para evitar pagar quantias ilimitadas, têm de provar que a queda do avião não se deveu a negligência, omissão ou acção errada deles [da empresa], dos seus funcionários ou agentes”, disse Clive Garner, chefe do departamento de aviação da empresa Irwin Mitchel, que tem representado familías de passageiros em casos semelhantes.

A quantia geral atribuída é de mais de 14 mil euros por vitima, mas em geral, diz Garner, estes casos são resolvidos fora dos tribunais com acordos de compensações ainda maiores.     

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