Torne-se perito Crítica

Erosão nas paisagens do poema

Uma poesia que, na sua depuração, alcança pontos de realização segura, mas também conduz a algum excesso de rasura

Em Cisco, livro de estreia de Elisabete Marques, uma epígrafe de Manoel de Barros fornece uma indicação subtilmente precisa quanto aos trajectos de sentido destes poemas. As palavras do poeta brasileiro adquirem um valor quase programático, já que a transparência do verso, onde elas se propõem “enfiar pregos sujos”, bem como o “cisco”, resgatado pelo título do livro, desenham, no limite, o projecto desta poesia. Os três momentos em que Cisco se divide levam a cabo uma operação que se poderia aproximar desse propósito de contrariar o que fora límpido.

É assim que a normalização expressiva dos poemas de A Nódoa na Manga, secção inaugural de Cisco, é objecto de uma depuração – em Porta-Enxerto, mas sobretudo na última parte, Grãos Exemplares – quase até a um mínimo expressivo. A própria forma de intitular os momentos de Cisco replica esse movimento rumo a certo minimalismo significativo; sobretudo, se tivermos em conta a palavra “grãos”, que não deixará de ser importante para o título geral da obra. É como se tudo fosse reduzido à unidade mínima de certo território, ao cisco, ou ao grão, justamente. Trata-se de opções já feitas pelas vanguardas, e não só, dentro e fora da nossa tradição literária. Contudo, é legítimo reconhecer alguma autonomia, e uma inegável valia, a este entendimento da poesia. Sobretudo no primeiro momento do livro, onde se pode reconhecer a sua mais notável consecução. Pese embora algum vício de estilo – como o excesso de hipérbatos: “sôfregas cigarras” (p.17), “curvo peixe” (p.19), “arrefecido ar” (p.23) –, estas primeiras composições parecem conter a melhor poesia de Cisco. A eficácia da sua factualidade não as coíbe de arrancar à coloquialidade do concreto certas fórmulas especialmente felizes – “aqui ofereço a mesa plana,/ frutos com etiqueta, a faca.// O sol dita um pouco de raio” (p.11). Repare-se como se evita o risco de trivialidade que haveria em descrever a luz solar sobre uma peça de fruta. Por outro lado, revela-se particularmente convincente o tratamento do tempo, expresso através do ajuste metafórico de um “fio da tarde” (p.20), ou pela subjectividade de um “Mês no bolso do casaco, bilhete de metro,/ Outubro apertado entre os dedos,/ quando a velha repara na saia rasgada, entre murmúrio e ruína húmida”. É assim que este poema concebe esse mês por excelência atreito ao cliché poético: de modo significativo, aqui “arrancado do calendário” (p.12). Esta poesia apropria-se ainda do léxico natural de um modo que beneficia da rudeza por vezes inesperada desses campos de sentido para gerar aquela tensão sem a qual o poema dificilmente pode viver. E que se plasma num impecável auto-retrato do sujeito – “crua como uma pedra” (p.21) –, mas também no “crescimento da casca” (p.20) com que se exprime, simultaneamente, a lentidão que tipifica a infância e a ameaça da decadência.

Após o confronto das três partes de Cisco, é possível identificar um certo desequilíbrio entre elas. O que não impede que haja momentos que se excepcionem no panorama geral. Por certo, aqueles em que o texto do poema, embora praticamente manietado por um estrangulamento deliberado da sintaxe, consegue gerar sentidos de menor opacidade e de uma produtividade mais efectiva – “E, contra, a par e passo, andar é o mistério” (p.39). Como é óbvio, não se pretende postular que a clareza seja condição absoluta para o alcance da poesia – ou da prosa, diga-se de passagem. Ainda assim, se aquilo que não transparece apenas faz convergir para o seu próprio interior todas as virtualidades, dá-se uma quebra no encadeamento de emissões e recepções que o poema não pode deixar de ser. Há muito se desmascararam falácias como as da intenção, ou da própria transparência, ou até da comunicação; mas do que se trata aqui é saber se, através da barreira imposta pela rede da sintaxe e, por extensão, dos versos, o poema fica prejudicado, ou se, pelo contrário, encontra forças nessa circunstância da sua oficina. A reposta inequívoca é difícil de dar. Porque Cisco, precisamente, não é uma realidade uniforme. Não por se encontrar dividido em segmentos distintos (tanto mais que esse artifício concorre, muitas vezes, para o reforço do sentido dos poemas e para a sua eficácia retórica), mas porque, dentro deles, e por vezes independentemente dessas partições, há desencontros qualitativos entre composições. Seja por desadequação, sobrecarga técnica, ou ainda pela demasiada pulverização desses elementos que consolidam uma construção literária.

Não deverá ser indiferente para a compreensão das propostas de Elisabete Marques saber que a autora se doutorou com uma tese sobre Maurice Blanchot e Samuel Beckett. Nesse particular, seria especialmente proveitoso considerar a poesia do irlandês, no que esta tem de esfacelamento impiedoso da palavra, biselada até ao limite do concebível. Uma condição que percorre a poesia de E. Marques, sobretudo na segunda e terceira secções de Cisco – “Areia e pó geram tempoutro, este” /p.58). Esta poesia, entrecortada por uma utilização da pontuação adversa à norma, é percutida por ritmos de compasso apertado, e revolteada pelo sopro da ambiguidade. O rasto desse modo de dizer, pensadamente dúbio, pode advir da sobreposição de unidades frásicas, que conduzem a distintas possibilidades de significado; como é possível que resulte de opções lexicais menos vulgares, quando não abertamente disruptivas da estandardização verbal – “Dobra descoberta/ amachuca alma melindrosa.” (p.57) Zonas do seu livro em que a poesia revela menor conseguimento do que na primeira secção de Cisco.

Cisco evolui, nas suas três secções, de um modelo discursivo de tipo canónico, para uma actividade verbal em que se erodiu essa solidez verbal. Este processo de desintegração que dá-se de modo faseado e gradual, pelo que, no segundo momento de Cisco, a depuração e contracção dos poemas não atinge o pico verificado no último ponto do livro. Aí, a linguagem chega a uma espécie de aporia. Nesse sentido, o livro pode ser entendido como uma alegoria da própria linguagem. De um determinado entendimento dela, enquanto organismo que evoluciona para uma crescente rarefacção. Após a leitura desta obra de estreia, uma das hipóteses que se podem levantar é, precisamente, a que avente uma dimensão alegórica da própria língua do poema. Paisagens crescentemente despovoadas, rasuradas no seu corpo de sentido, os poemas vão adquirindo a feição fantasmagórica de uma cidade despida – “dois sapatos esquecidos manifestam a erva desejada” (p.63). Essa operação de aplainamento desbasta a constituição da frase e redu-la a uma essencialidade que, em confronto com os primeiros poemas do livro, fica a perder. E é isso que nos faz lamentar que todo o livro não tivesse seguido as bases lançadas por A Nódoa na Manga.

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