Um dos dois pilotos do Airbus estava fora do cockpit quando o avião caiu

Primeira análise a uma das caixas negras do aparelho permite concluir que um dos pilotos deixou a cabine antes do desastre e já não conseguiu regressar. Companhia aérea não confirma.

Muitas perguntas continuam sem resposta na tragédia que matou 150 pessoas nos Alpes
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Muitas perguntas continuam sem resposta na tragédia que matou 150 pessoas nos Alpes AFP/DENIS BOIS/GRIPMEDIA

Há um novo desenvolvimento no caso do Airbus A320 que se despenhou nos Alpes que adensa ainda mais o mistério à volta da queda do avião: fontes ligadas à primeira análise ao gravador de voz da cabine do aparelho avançam que um dos pilotos deixou o cockpit antes do desastre e que não conseguiu voltar à cabine antes de o avião se despenhar. Esta informação foi primeiro avançada na noite de quarta-feira pelo diário norte-americano New York Times e mais tarde pela AFP.

Um alto funcionário militar envolvido na investigação descreveu ao Times uma conversa "muito calma" entre os pilotos durante a primeira parte do voo de Barcelona para Düsseldorf operado pela companhia de baixo custo Germanwings. Em seguida, o registo áudio indica que um dos pilotos abandonou a cabine por razões que ainda se desconhecem e não conseguiu voltar a entrar antes de o avião se despenhar, matando todos os seus 150 ocupantes.

“O piloto do lado de fora está a bater levemente à porta e não há resposta. Depois ele bate à porta com mais força e não há resposta. Nunca há resposta. Dá para ouvir que ela tenta derrubar a porta”, referiu a fonte ao diário norte-americano.

A Lufthansa, a companhia aérea à qual pertence a Germanwings, já teve conhecimento da notícia do NYT, mas não obteve confirmações acerca da sua veracidade. "Não temos informações das autoridades que confirmem esta notícia e estamos a procurar mais informação. Não iremos participar na especulação quanto às causas do desastre", disse esta quinta-feira de manhã um porta-voz da companhia alemã.

Segundo o New York Times, embora o registo áudio pareça fornecer alguns detalhes sobre as circunstâncias que levaram ao acidente do avião da Germanwings, ele também deixa muitas perguntas sem resposta. “Não sabemos ainda a razão por que um dos pilotos saiu", disse o mesmo investigador, que pediu anonimato por a investigação estar ainda a decorrer. "Mas o que é certo é que, no final do voo, o outro piloto está sozinho e não abre a porta."

A notícia do diário norte-americano não especifica se o piloto que terá ficado do lado de fora do cockpit era o capitão ou o co-piloto. A identidade dos dois pilotos não foi revelada, mas a Lufthansa explicou que o co-piloto estava na Germanwings desde Setembro de 2013 e tinha uma experiência de 630 horas de voo, enquanto que o piloto contava já com mais de seis mil horas.

Estas informações surgem no mesmo dia em que os investigadores que têm a cargo a análise a uma das duas caixas negras do Airbus anunciaram terem conseguido extrair um ficheiro de áudio “utilizável". Terá sido este registo de áudio que permitiu saber que um dos pilotos estava fora do cockpit no momento do desastre. Mas, durante a tarde de quarta-feira, a agência que investiga a queda do avião nos Alpes recusou-se a avançar qualquer detalhe sobre o seu conteúdo. 

Os investigadores disseram apenas que poderá demorar dias até ser possível esclarecer detalhes sobre o que é dito nesse registo, quem está presente ou em que momento do voo foi gravado.Não foram dadas mais explicações sobre o registo encontrado na caixa negra onde fica gravado o que sucede no cockpit do avião, mas o director da agência de segurança aérea comercial francesa (BEA) disse estar “convencido” de que este será útil para as investigações.

Este foi o maior avanço oficial produzido ao longo desta quarta-feira pelas investigações à queda do avião da Germanwings. Na conferência de imprensa dada por Remi Jouty também se ficou a saber que a aeronave fez uma última transmissão de rotina, confirmando a sua trajectória, apenas um minuto antes de começar a perder altitude abruptamente, a uma média de 1000 metros por minuto.

Uma das principais dúvidas em torno do acidente da última terça-feira recai sobre o facto de os pilotos não terem comunicado nenhum problema até à colisão. Remi Jouty não avançou nenhuma explicação para isto, nem comentou as várias teorias que têm surgido para explicar este silêncio.

Ao contrário do que foi noticiado ao longo do dia, Jouty afirmou que não foi ainda encontrada a segunda caixa negra. Esta segunda caixa contém informações técnicas de voo, como por exemplo os registos de velocidade, altitude e direcção da aeronave. Algumas notícias apontavam para que esta caixa tivesse sido encontrada, embora danificada e sem o crucial chip de memória. Mas o director do BEA foi peremptório: “Não localizámos a [segunda] caixa negra nem encontrámos destroços dispersos.”

De resto, Jouty manteve os dados essenciais lançados na terça-feira. O pequeno tamanho dos destroços sugere que o avião não explodiu em voo, diz a BEA, que confirma também que a última altitude registada foi de cerca de 1,8 quilómetros, praticamente a altura a que embateu nas montanhas. Confirmada foi também a duração da queda. Desde que o avião começou a perder altitude até ao momento do impacto passaram-se dez minutos sem que durante esse tempo se tenha registado qualquer desvio na rota.

O CEO da Lufthansa assegurou na quarta-feira que o avião estava “tecnicamente irrepreensível” e que, para a operadora alemã, o desastre é ainda “inexplicável”. 

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