Arábia Saudita lança operação militar no Iémen

Ataques aéreos envolvendo “mais de dez países” visam travar a rebelião dos huthis no país. Estados Unidos prestam apoio logístico e informativo, mas não intervêm directamente.

Populares em fuga durante o tiroteio desta quarta-feira na base aérea de al-Anad, a 60 quilómetros de Aden REUTERS/Anees Mansour
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Populares em fuga durante o tiroteio desta quarta-feira na base aérea de al-Anad, a 60 quilómetros de Aden REUTERS/Anees Mansour
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Pessoas procuram sobreviventes após bombardeamentos perto do aeroporto de Sanaa Khaled Abdullah / Reuters
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Cenário de destruição depois de ataque aéreo numa zona residencial nas imediações do aeroporto de Sanaa Khaled Abdullah / Reuters
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Mohammed Huwais / AFP
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Rebeldes huthis patrulham as ruas da capital, Sanaa Khaled Abdullah / Reuters

“A operação visa defender o governo legítimo do Iémen e impedir que o movimento radical huthi [apoiado pelo Irão] tome o controlo do país, avançou em conferência de imprensa o embaixador Adel al-Jubeir. A operação, que começou às 23h (em Portugal Continental), irá durar até que o "Governo legítimo" do Iémen tenha o seu poder restaurado, disse ainda Al-Jubeir. Pelo menos 18 civis foram mortos e 24 feridos durante as primeiras horas da intervenção, segundo informações dos Ministério da Saúde, citadas pela Al-Jazira.

Os bombardeamentos concentram-se sobretudo na capital do país, Sanaa, controlada pelas forças rebeldes desde Janeiro. Correspondentes descreveram fortes explosões durante a noite na zona do aeroporto da capital e noutros locais. Os ataques estenderam-se também às regiões de Malaheez e Hafr Sufyan, na província de Saada, um bastião huthi muito próximo da fronteira com a Arábia Saudita. As forças rebeldes anunciaram que os bombardeamentos foram respondidos com o lançamento de rockets na direcção do vizinho do Norte. De Riade não houve qualquer confirmação.

A Arábia Saudita lidera os ataques e mobilizou 150 mil soldados e cerca de cem aviões, de acordo com o canal saudita Al-Arabyia, embora Riade ainda não tenha confirmado oficialmente estes números. Em 2010, a Força Aérea saudita já tinha bombardeado posições dos huthis, em apoio ao Presidente da altura, Ali Abdullah Saleh.

As operações estão para já limitadas a ataques aéreos cirúrgicos contra posições controladas pelos rebeldes no Iémen, mas outras forças militares estão mobilizadas e a coligação “fará tudo o que for necessário”, acrescentou. “Temos uma coligação de mais de dez países que participam ou vão participar nestas operações”, afirmou o embaixador, sem nunca nomear os restantes países envolvidos. Entretanto, a Jordânia anunciou na manhã desta quinta-feira que também participa na operação militar. Os Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Qatar e Egipto são outros dos países que participam nos bombardeamentos no âmbito da operação Tempestade Decisiva, segundo a Al-Arabyia. O Paquistão recebeu um pedido para integrar a coligação, mas encontra-se ainda a "examinar a matéria", de acordo com um porta-voz do Governo.

Adel al-Jubeir indicou apenas ter “consultado de muito perto os [seus] aliados, e especialmente os Estados Unidos". "Estamos muito satisfeitos com o resultado dessas discussões ", observou. Os EUA não participam directamente na operação, mas a Casa Branca revelou que está a prestar apoio logístico e informativo à coligação de países árabes. "Uma vez que as forças norte-americanas não estão a ter envolvimento militar directo no Iémen, estamos a estabelecer uma Célula Comum de Planeamento com a Arábia Saudita para coordenar o apoio militar e informativo dos EUA", explicou a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Bernadette Meehan.

A operação militar recebeu o apoio diplomático do Reino Unido, de França e da Turquia, que contestam a desestabilização levada a cabo pelos rebeldes e pedem o regresso ao poder do Presidente Hadi. 

"Há uma milícia que controla ou poderá controlar mísseis balísticos, armas pesadas e uma força aérea. Não me lembro de outra situação na História em que uma milícia dispõe de uma força aérea. [...] É uma situação muito perigosa", argumentou o embaixador, sublinhando que o avanço dos huthis, que tomaram a capital Sanaa em Fevereiro e estão agora às portas da cidade portuária de Aden, no Sul, não poderia ser mais tolerado. "Tentámos encontrar uma mediação", mas "cada tentativa iniciada pelo Iémen foi contrariada pelos huthis, que rejeitaram qualquer acordo", explicou ainda.

Pedido de ajuda
Já depois deste anúncio de Riad, cinco dos seis Estados com assento no Conselho de Cooperação do Golfo — um organismo intergovernamental que engloba um conjunto de países da Península Arábica, mas do qual o Iémen não faz parte — divulgaram um comunicado conjunto onde anunciam a sua decisão de responder favoravelmente a um pedido de ajuda lançado pelo Presidente iemenita, que enfrenta uma rebelião xiita em que combatentes vindos do Norte controlam desde Fevereiro a capital Sanaa e estão agora perto de Aden, cidade de 760 mil habitantes na costa do mar Vermelho, onde Abdu Mansour Hadi se tinha refugiado. As milícias vinham ganhando terreno em direcção ao Sul nos últimos dias, com a tomada, no domingo, de Taiz, a terceira cidade do país. Nesta quarta-feira, a conquista da base aérea de al-Anad, a 60 quilómetros de Aden, confirmou os piores receios.

A Arábia Saudita, o Qatar, o Kuwait, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos — que, com Omã, compõem o Conselho de Cooperação do Golfo — fizeram assim saber que "decidiram responder a um apelo do Presidente Hadi para proteger o Iémen e o seu povo face à agressão da milícia huthi".

A partir de Washington, o embaixador saudita nos EUA precisou que dispõe de "meios aéreos de vários países" e que "meios militares estão a caminho” do Iémen “para participar nestas operações". "O uso da força é sempre um último recurso e foi com grande relutância que tomámos esta decisão com os nossos parceiros do Conselho de Cooperação do Golfo e de outros países” de fora deste conselho, precisou. Também a Liga Árabe vai discutir nos próximos dias a situação no Iémen, durante uma cimeira de chefes de Estado marcada para o fim-de-semana em Sharm el-Sheikh, no Egipto.

Hadi refugiou-se em Aden no início de Fevereiro depois da tomada da capital Sanaa pelos rebeldes, suspeitos de ligações ao Irão xiita e a sectores do exército ainda leais ao antigo Presidente Ali Abdullah Saleh, deposto em 2012 após 33 anos no poder. O ex-líder pretenderá agora lucrar com a instabilidade no país para promover o seu filho, Ahmad, numa possível futura candidatura presidencial.

O chefe da diplomacia do Iémen, Ryad Yassin, avisara já nesta quarta-feira que "a queda de Aden nas mãos dos huthis marcaria o início de uma profunda guerra civil". Por apurar continua o paradeiro de Hadi. Na quarta-feira, relatos contraditórios davam conta da fuga do Presidente iemenita do seu refúgio em Aden, mas vários dirigentes desmentiram estas notícias. A televisão do país, controlada pelas forças rebeldes, emitiu na última noite um pedido de captura e a oferta de uma recompensa pelo Presidente "fugitivo".

Na terça-feira, e depois de ter repetidamente denunciado um "golpe de Estado" dos huthis, Hadi exortou a ONU a adoptar uma "resolução vinculativa" para deter o avanço dos rebeldes e confirmou ter solicitado às monarquias sunitas do Golfo uma "intervenção militar". Uma operação saudita no Iémen não é inédita. Em 2010, a Força Aérea do vizinho do Norte bombardeou posições huthis, em apoio ao Presidente de então, Ali Saleh.

Que consequências?
A entrada da Arábia Saudita no conflito pode abrir uma nova etapa com repercussões que vão além das fronteiras do Iémen. A ajuda de Riad a Hadi pode dar ao Irão o pretexto para expandir o apoio prestado aos huthis — que pertencem à facção zaidita do ramo xiita do Islão — e, segundo alguns analistas, dar início a uma “guerra por procuração” entre as duas potências regionais, com a crise iemenita como pano de fundo.

A Arábia Saudita, principal aliado dos Estados Unidos no Médio Oriente, vê no Irão o seu principal rival na disputa pela hegemonia regional e qualquer tentativa de expansão da influência do regime xiita será encarada como uma ameaça por Riad. A recente aproximação entre Washington e Teerão, no âmbito das negociações sobre o programa nuclear iraniano, é também receada pelo regime saudita, de acordo com vários analistas, pois teme descer de posição na lista de prioridades da política externa norte-americana.

O Governo iraniano apelou ao fim das "agressões militares" no Iémen. "As acções militares no Iémen, que enfrenta uma crise interna, (...) vão complicar ainda mais a situação (...) e vão comprometer os esforços para resolver a crise através de métodos pacíficos", disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Marzieh Afkham, citada pela agência oficial Fars.

A televisão estatal iraniana está a condenar a operação militar lançada pelos países do Golfo, referindo-se a uma "agressão apoiada pelos Estados Unidos". O regime de Teerão nega oficialmente prestar qualquer tipo de apoio ao movimento huthi. Um dirigente do grupo xiita garantiu que os huthis serão capazes de se defenderem sem o apoio do Irão. "O povo iemenita está preparado para enfrentar esta agressão sem qualquer interferência externa", disse à Reuters Mohammed al-Bukhaiti, membro do Politburo do Ansarruallah, o braço político dos huthis.

O agudizar da crise no Iémen — que no ano passado teve uma produção de 133 mil barris de petróleo por dia — também se faz sentir nos mercados internacionais. Nas últimas horas, o preço do barril de Brent aumentou cerca de 6%, segundo a Reuters.

O caos no Iémen abre igualmente perspectivas a uma expansão das actividades de grupos terroristas como a Al-Qaeda, cujo ramo mais activo está sedeado no país e que terá inspirado os irmãos Kouachi a atacarem a redacção do jornal satírico francês Charlie Hebdo.

Hadi está no poder desde 2012, na sequência de uma onda de protestos contra o antigo ditador, Ali Abdullah Saleh. Em Hadi, os Estados Unidos encontraram um aliado na luta contra a AQAP (sigla em inglês da Al-Qaeda na Península Arábica), feita sobretudo através de ataques executados por drones.