Arquitecto alerta para risco de destruição das caves de Gaia

Rui Losa avisa que se este património não for preservado, o Porto perde a classificação da Unesco.

Alguns armazéns, como os da Calém, ganharam novas funções, mas outras intervenções são contestadas
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Alguns armazéns, como os da Calém, ganharam novas funções, mas outras intervenções são contestadas Dato Daraselia

O arquitecto e administrador da Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo Rui Loza afirmou esta quinta-feira que "se Gaia deixasse demolir as caves, o Porto perdia a classificação da Unesco". Rui Loza falava na primeira Conferência Cidades de Rio e Vinho - Memória, Património e Reabilitação, que decorre até sexta-feira no auditório das Caves Calém, em Gaia. A "relação indissociável" entre as caves de Gaia e o centro histórico do Porto foi o tema da sua intervenção.

Loza, que falou só como arquitecto, centrou a sua intervenção nos perigos que pairam sobre as caves de vinho do Porto, "o mais preocupante" dos quais é o "risco de abuso cultural decorrente da desvitalização da vertente industrial das caves". "No geral, as grandes casas de Gaia já não estão a ser necessárias para a quantidade de vinho que aqui é armazenado e envelhecido", afirmou, dando conta de que  "há a tentação de construir uma nova cidade com vistas para o Porto" nestes espaços vazios.

O arquitecto referiu que "não é possível obrigar" os proprietários das caves a guardar ali vinho do Porto se eles têm alternativas melhores, sendo por isso necessário encontrar "novas funcionalidades" paros esses velhos edifícios, através de uma "arquitectura adequada". Loza assinalou que "os proprietários e os promotores não são obrigados a ter cultura arquitetónica, papel que cabe aos os arquitetos, frisou, "mas eles são muitas vezes atraídos para uma moda, de substituição do existente por surpresas apelativas", alertou.

O arquitecto, que foi também diretor do ex-CRUARB (Projecto Municipal para a Reabilitação Urbana do Centro Histórico do Porto), é de opinião que "há muita gente a colaborar com o processo de destruição em massa dos armazéns" de vinho do Porto que são o ex-líbris do centro histórico de Gaia. "No nosso caso, estamos perante armas de destruição em massa. Não é uma pequena casa que arde, não é uma pequena cheia que vai alterar um rés-do-chão, são processos violentos e de grande dimensão" reforçou.

Rui Loza, que garantiu não ter uma visão imobilista, "porque todo mundo é feito de mudanças", afirmou também que os proprietários e os promotores têm "toda a legitimidade" quando dizem: "eu só faço se for viável". Mas insistiu na defesa do "Porto no sentido lato", o que na sua perspectiva inclui toda a área metropolitana e "o valor que a cidade histórica pode apresentar".

"Olhando do Porto para Gaia, vemos na linha do horizonte certas peças que, por ficaram longe e a cair para o lado de lá, não nos incomodavam muito, mas agora começam a cair para o lado de cá e vemos a invasão", assinalou.
Afirmou que o que já está feito em Gaia é "uma pequena parte daquilo que se ameaça, com propostas culturais que não têm nada que ver, que podiam ser feitas no deserto do Dubai ou em qualquer outra parte do mundo".

"Isto não é Via Nova de Gaia, isto é o abuso cultural de chegar a um sítio sem qualquer preocupação de pensar que isto demorou 300 anos a construir e fazer de novo demolindo. Isto é que não é possível acontecer e se isto acontecer o Porto é património mundial e Gaia muito menos", resumiu.

Organizada pela autarquia local, através da empresa municipal Gaiurb, a Conferência Cidades de Rio e Vinha - Memória, Património e Reabilitação" prevê intervenções de vários especialistas sobre as características das cidades fluviais e a sua relação com a produção, o comércio e a cultura do vinho.