Um caçador que aceita ser caçado

Sal da Terra (2013), o documentário realizado a meias entre Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (filho de Sebastião), estreia-se em Portugal no dia 9 de Abril.

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Sebastião Salgado DR
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Sebastião Salgado e Win Wenders DR
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Quando alguém circula no espaço público com um trabalho que consiste em fixar a realidade, temos a ilusão de conhecer a realidade dessa pessoa. Acontece frequentemente com a maneira como olhamos para os fotógrafos, quando vemos o seu nome estampado nas páginas de jornais e revistas, em livros, nas exposições – a natureza do seu ofício atira-os para a ribalta de forma explícita, quer queiram quer não. Vemos a realidade pelo seu olhar. E, na verdade, sabemos tão pouco sobre eles.

Sebastião Salgado é um dos fotógrafos vivos mais reconhecidos (e reconhecíveis) do nosso tempo. As imagens que captou ao longo dos últimos 40 anos tornaram-se parte da iconografia do fim do milénio, cercam-nos por onde quer olhemos. E, no entanto, sabemos tão pouco sobre ele. Conhecemos a sua forma de estar na fotografia, a dimensão dos ensaios que abraça, a estética das suas imagens. Mas só percebemos recentemente a dimensão do abalo psicológico que sentiu quando saiu da tragédia relacionada com os vários períodos de fome na Etiópia (no final dos anos 80), do rescaldo do genocídio no Ruanda (meados dos anos 90) e da guerra nos Balcãs (ao longo dos anos 90). Ou da importância que teve uma quinta da família no Vale do Rio Doce (Aimorés, estado de Minas Gerais), na sua reconciliação com a fotografia e o regresso da sua fé na humanidade. Ou ainda da importância de Lélia - sua mulher, companheira de todas as andanças - na gestão e no impulso do sua carreira.

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Sebastião Salgado DR

Para lá das fotografias que o tornaram Sebastião Salgado famoso, é sobretudo a vida do homem atrás da câmara fotográfica que fica na retina depois de vermos Sal da Terra (2014), o documentário realizado a meias entre Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (filho de Sebastião) que se estreia a 9 de Abril. O filme, que tem tido um percurso com um sucesso assinalável (Menção Especial do Júri da secção Un Certain Regard no último festival de Cannes, nomeação para Melhor Documentário nos Óscares 2015), ganha um élan especial pela forma como Sebastião se expõe, pela intensidade com que conta as intermitências da sua vida (foram muitas) e a postura literalmente frontal como o faz. Sebastião aparece quase sempre a falar de olhos postos na direcção da câmara que o filma. A serenidade consciente com que vai desfiando a sua existência é a de um caçador que pousa a arma para aceitar ser caçado – para explicar, mais uma vez, muitas das suas opções na fotografia e, finalmente, para dizer sem rodeios quem é e ao que veio.