Crítica

Super Tubas

O virtuoso Sérgio Carolino traz nova luz ao papel da tuba como instrumento solista

??Não deixem escapar esta tuba: Sérgio Carolino
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Não deixem escapar esta tuba: Sérgio Carolino

O trio TGB – que juntava tuba, guitarra, bateria - terá sido o projecto com o qual Sérgio Carolino começou a ganhar maior visibilidade. Integrado nesse grupo, começou por trazer protagonismo à tuba, instrumento de sopro raro, da família dos metais, com a sonoridade mais grave, que poucas vezes se vê na condição de solista.

No trio TGB, com Mário Delgado e Alexandre Frazão, Carolino mostrou desde logo as suas qualificações como virtuoso do instrumento, mostrando possibilidades que não lhe imaginávamos. Nas mãos de Carolino a tuba ganhava uma agilidade fora do comum, deixando de ficar na sombra para assumir a primeira linha, solando com toda a criatividade. Mas se esse trio nos últimos tempos tem estado parado, Carolino não para e, com três discos, volta a apontar os holofotes para a tuba. 

O disco Surrealistic Discussion é um duo improvável, onde se junta a tuba de Carolino a comunicar com outro instrumento atípico, o acordeão, aqui tocado por João Barradas. Se o tubista se tem afirmado como virtuoso, também o jovem Barradas se tem feito notar pela destreza no acordeão e pela facilidade com que tem atravessado géneros musicais. Neste disco assistimos a um verdadeiro diálogo entre os dois, tendo por base peças originais que uma série de compositores escreveram a convite de Carolino. Se cada música já convida à interacção e diálogo entre instrumentos, Barradas e Carolino aproveitam para demonstrar toda a sua elasticidade e dinamismo, num festival de técnica e musicalidade. Todas as peças são globalmente interessantes, trespassando universos musicais distintos (do jazz, ao tango, à folk, à clássica…), mas será justo destacar Home, de Filipe Melo, aqui interpretada com a grandiosidade de um hino dolente.

A tuba de Carolino encetou uma outra parceria em duo, desta vez com o pianista Telmo Marques. XL é o resultado da colaboração, com a dupla a interpretar um novo conjunto de composições originais, onde se incluem temas de Bernardo Sassetti, Filipe Raposo, Carlos Azevedo (da Orquestra Jazz de Matosinhos) e do próprio pianista Telmo Marques. O piano tem um papel mais estático, cumpridor mas menos deslumbrante. Com a tuba mais contida, mas não esquecendo a inventividade habitual, a música soa geralmente mais plácida, surgindo pontualmente algumas faíscas da responsabilidade do tubista.

Do material recente de Carolino, o seu registo mais acessível e popular será o disco de estreia do grupo Funky Bones Factory. Revelados num disco homónimo editado pela JACC Records, esta é quase uma marching band, com Carolino ao centro – não só na capa do disco, mas também na própria música. Desta vez não usa a tuba, mas umlusophone lucifer – um instrumento por si inventado, técnica e musicalmente muito próximo da tuba. Ao lado de Carolino estão os trombones de Paulo Perfeito, Ruben da Luz, Daniel Dias e Rui Bandeira, a guitarra de Miguel Moreira e a bateria de Acácio Salero. O grupo trabalha uma música com groove e energia, onde se destaca o trabalho dos trombones (três trombones tenor e um trombone baixo). Carolino está sempre presente, sobretudo a cumprir a função de baixo, mas também tem oportunidade de solar, com a energia típica. Não deixem escapar esta tuba.