Crítica

Cinderela (en)cantada: com libré e modernice

Os personagens principais tiveram dois excelentes cantores a servi-los na ópera La Cenerentola.

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Angelina, a Gata Borralheira Miguel Manso
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Angelina e as irmãs Miguel Manso
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Angelina e as irmãs Miguel Manso
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Alidoro Miguel Manso
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Miguel Manso
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Miguel Manso

Rossini, já se sabe, é uma festa. E a história de Cinderela, uma fantasiosa inevitabilidade. É portanto inevitável festejar a sua versão rossiniana: a ópera La Cenerentola (1817), que ressurge no palco de São Carlos (onde foi representada logo em 1819) por via de uma produção do seu teatro homónimo napolitano.

A encenação de Paul Curran contextualiza os eventos nos anos anteriores à 1ª Guerra Mundial, altura em que a estrutura social aristocrática, com os seus criados de libré, ainda pode ser imaginada. A opção é defensável, mas tem uma consequência desastrosa na cenografia: o palácio em estilo barroco, decadente, que representa o Castelo do Barão, surge com mais dignidade do que a supostamente deliciosa casa do Príncipe, em estilo art nouveau, que parece feita de pechisbeque. Isto porque o efeito de luxo conseguido pela "arte nova" se deve menos ao desenho e aos seus motivos florais do que à escolha e combinação dos materiais. A cenografia tradicional, bem adaptada a teatros oitocentistas, recorre à tela pintada, ao cartão, a madeira e a tecido barato; na ausência de uma manufactura convenientemente ilusionista, a cenografia de Pasquale Grossi para os interiores principescos tresanda a painel de supermercado.

Felizmente, se os figurinos (de Zaira de Vincentiis), não chocando, também não impressionam, o espectáculo é salvo pela fluidez nas mudanças de cena; por certos achados caricatos de inspiração clássica como o chapéu de Mercúrio surgido ex machina, ou a ginástica visual e sonora da tempestade; pela competência orquestral (sob a direcção sensível e enérgica de Pedro Neves); pela boa prestação do coro masculino, incluindo o número que abre o segundo acto, raramente ouvido; e finalmente, pelas qualidades do elenco vocal e pelo humor e desenvoltura do seu movimento cénico — a modernice que mais resulta.

Isto em geral, porque o tenor espanhol Jorge Franco (Príncipe Ramiro), destacando-se agradavelmente pela emissão fácil e pelo timbre aveludado, mostrou-se hirto como uma vassoura, o que talvez se explique pela inexperiência teatral e pelo nervosismo próprio de uma estreia. Embora nem sempre claro no ritmo e nas passagens musicalmente mais densas, o baixo Domenico Balzani foi vocal e expressivamente adequado no papel do camareiro Dandini. As portuguesas Carla Caramujo e Cátia Moreso fizeram, de maneira convincente e divertida, de irmãs muito más. O baixo italiano Lucca dell'Amico foi exemplar como Alidoro, demonstrando enorme à-vontade no papel de mestre e mago.

Os personagens principais tiveram dois excelentes cantores a servi-los: o barítono José Fardilha (Barão D. Magnífico) e a meio-soprano Chiara Amarù (Angelina, a Gata Borralheira). O primeiro foi magnífico tanto na prestação vocal como na teatralidade bufa, plena de matizes; a segunda, sem tiradas excessivas, triunfou com a sua voz profunda e cheia, mas exacta e leve na coloratura, associando-lhe uma sensibilidade cénica que a sua figura não deixava inicialmente adivinhar. Uma modesta Cinderela de encantar...

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Uma modesta Cinderela de encantar... Miguel Manso