Controlar com a mente, uma maravilha (por legislar?)

É imprescindível que a humanidade, sob pena de se destruir a si mesma com “passos maiores que a perna”, equacione o que é aceitável

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Christian Weidinger/ Flickr

Temos assistido a uma evolução notável em vários ramos da ciência biotecnológica, em particular no trabalho nas ligações ao sistema nervoso central, que mostram as ultrapassagens que a ciência tem feito a barreiras até há pouco intransponíveis.

 

O mundo vibrou em Outubro de 2011 ao ver Sarah Churman a chorar no momento em que ouvia a sua voz pela primeira vez (a prova-lo, as 24 milhões de visualizações no YouTube, cerca de 4 milhões nas primeiras semanas), ela que sofria de perda de audição neurossensorial desde a nascença.

Num plano diferente está Allen Zderad, que já em Fevereiro deste ano recebeu um olho biónico que “envia” ondas de luz ao nervo óptico “contornando” a retina, voltando a ver formas e o próprio reflexo no espelho com alguma nitidez, 10 anos depois de ter ficado quase completamente cego, consequência de uma doença degenerativa chamada retinite pigmentosa, que ainda não tem cura.

As aplicações são igualmente notáveis no âmbito da criação de próteses para amputados, como o espectacular exemplo de Les Baugh, que perdeu ambos os braços num acidente de electrocução há quarenta anos e, no final de 2014 voltou a poder agarrar pequenos objectos, num processo de reaprendizagem que o levará a ter cada vez mais autonomia com os novos membros, que são acoplados ao seu corpo, controlados pelo pensamento por estarem junto a nervos (com funções redefinidas por cirurgia) e músculos contíguos a estes.

Uma outra Caixa de Pandora


Para não se pensar que estamos a falar apenas de futurologia, existem já alguns aparelhos destes à venda no mercado, desde aparelhos de reconhecimento de expressões faciais a tomógrafos ópticos com uso na Medicina, passando naturalmente por interfaces de apoio a vídeo-jogos, que ainda não substituem o rato ou outro controlo, mas complementam e aumentam as acções que se podem tomar.

Todo este mundo maravilhoso leva a Humanidade a equacionar a abertura de mais uma Caixa de Pandora: a leitura directa do pensamento, do monólogo interno, da memória de curta duração, ser capaz de ler e transmitir algo que hoje tomamos como absolutamente privado e impassível de invasão.

As maravilhas da tecnologia e as implicações legais 

Se esta leitura é possível, o que nos impede de ler a mente de alguém que é acusado de um crime? Ou, de forma semelhante, de uma extracção de informação do cérebro de alguém ser usada como prova? Ou como mero detector de mentiras?

Não havendo dúvidas que a investigação decorre de uma forma activa no meio empresarial e no meio académico, o tema já está também em estudo e discussão do ponto de vista ético e legal, quer em fóruns e lobbies de preparação de uma legislação adequada, como também em cadeiras de faculdade nos EUA e não só.

Todo o processo de leitura e descodificação de informação e comunicação com o cérebro está numa fase de franca evolução e abre espaço, numa primeira fase, para a leitura, mas certamente que nos temos de preparar para o que poderá vir depois de atingirmos esse domínio.

 

O que virá a seguir... a escrita (de informação no cérebro?)


É imprescindível que a humanidade, sob pena de se destruir a si mesma com “passos maiores que a perna”, equacione o que é aceitável, o que é intrusivo, o que é disruptivo do comportamento humano na medida em que a aparência ou interpretação feita pelo nosso cérebro do que acontece se sobreponha à realidade.

Porque, como já está provado, o ser humano é bastante receptivo ao contentamento aparente em detrimento da felicidade conquistada e, tal como é proposto por vários autores (literários e cinematográficos), um estado de ilusão induzida de prazer e bem-estar poderá estar para oferta comercial quando soubermos, de facto, ler e escrever livremente nas nossas mentes e nas dos outros.

P.S.: será isto uma visão do apocalipse?