Doentes com VIH vão fazer tratamentos de prevenção para a tuberculose

Número de casos de tuberculose em Portugal caiu em 2014 mas ainda há zonas muito problemáticas como Lisboa e Porto. Direcção-Geral da Saúde vai fazer protocolos com as autarquias para melhorar os resultados.

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Os dados preliminares de 2014 estimam um total de 1940 casos novos Manuel Roberto

O número de casos de tuberculose em Portugal ficou pela primeira vez abaixo das 20 novas infecções por cada 100 mil habitantes em 2014. Contudo, ainda há vários dados preocupantes: a percentagem de pessoas com VIH no total de casos de tuberculose é mais do dobro da registada na União Europeia e, no global dos doentes, Lisboa e Porto continuam com valores acima do desejável. A estratégia da Direcção-Geral da Saúde para 2015 passa por fazer protocolos com as autarquias para chegar mais facilmente a grupos de risco, como os doentes com VIH/sida, e por avançar com tratamentos preventivos nos seropositivos com “tuberculose latente”, isto é, que estão infectados mas ainda não desenvolveram a doença.

Os dados e as medidas foram apresentados nesta terça-feira pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), por ocasião do Dia Mundial da Tuberculose. A directora do Programa Nacional para a Tuberculose, Raquel Duarte, avançou que a nível da Europa 4,9% dos doentes a quem foi diagnosticada esta doença em 2013 tinham também VIH/sida. Em Portugal os dados empurram esta percentagem para 12,4%, pelo que é neste grupo de risco que a DGS pretende concentrar os esforços em 2015. Os dados preliminares de 2014 estimam um total de 1940 casos novos, o que se traduz numa taxa de incidência de 18,7 casos por 100 mil habitantes e que está a cair a um ritmo superior ao da Europa, mas que “não chega para erradicar a tuberculose”, diz a directora.

Os imigrantes, os reclusos e a população residente nos grandes aglomerados urbanos, como Lisboa e Porto, são outras das preocupações de Raquel Duarte – por serem áreas a contrariar a barreira das 20 infecções por 100 mil habitantes, uma fasquia em que só Portugal seguia em sentido contrário à restante Europa ocidental. Numa altura em que a incidência caiu, acrescentou a pneumologista, a preocupação centra-se também nos mais velhos. São cada vez menos os casos de tuberculose nos mais jovens, como acontece em todos os países que conseguem reduzir a carga da doença, mas nos idosos que foram infectados no passado assiste-se a uma reactivação da doença.

Ao mesmo tempo, crescem os chamados casos de tuberculose multirresistente, que não responde aos principais antibióticos e ganha também expressão uma variante ainda mais mortal, a tuberculose extensivamente resistente – sendo que não têm surgido novos tratamentos. “Os sintomas da tuberculose são muito enganadores”, alerta Raquel Duarte, que saliente a tosse, expectoração, transpiração excessiva e emagrecimento como sinais de alerta que podem ser confundidos com outras doenças.

Tuberculose e desemprego

A DGS procurou também cruzar os dados da tuberculose com vários indicadores e percebeu que há uma relação directa, por exemplo, com o desemprego: por cada 1000 desempregados em cada 100 mil habitantes o país conta com mais um caso de tuberculose. No sentido contrário vão os dados dos profissionais de saúde, com um aumento de dez médicos por 100 mil habitantes a poder contribuir para menos cinco casos. Concretamente sobre o VIH, percebeu-se ainda que cada dez novos casos de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana em 100 mil habitantes levam a um aumento de 2,5 casos de tuberculose na mesma fatia populacional.

“A infecção por VIH debilita o sistema imunitário da pessoa exactamente no mesmo tipo de células onde a tuberculose vai actuar. A ideia é tratar uma pessoa que está infectada pelo bacilo da tuberculose mas que ainda não desenvolveu a doença, para evitar que surjam os sintomas tem de fazer o tratamento”, explicou ao PÚBLICO o director do Programa Nacional para a Infecção VIH/Sida, onde se integra também a estratégia de combate à tuberculose. António Diniz disse que ainda estão a ultimar os pormenores para guiar este plano, mas a ideia é desenvolver as medidas sempre em parceria com as autarquias, numa estratégia de “descentralização”.

António Diniz salvaguardou, contudo, que as parcerias com as câmaras de Lisboa e do Porto não se destinam apenas a doentes com VIH. Tanto as consultas como os tratamentos são gratuitos para qualquer pessoa com tuberculose, mas sublinhou que o transporte dos doentes para a toma diária dos medicamentos nos hospitais pode ser “uma barreira” que se quer contornar a nível local para não permitir que, por exemplo, os desempregados deixem os tratamentos por dificuldades financeiras.

“O protocolo com as câmaras tem a ver com questões de acessibilidade para que as pessoas se possam deslocar ao local mais próximo e para que não existam restrições de ordem financeira. Às vezes basta que o serviço de saúde tenha à disposição do doente um pequeno-almoço. Isso já é feito em algumas unidades, mas avulso. O que pretendemos é que as boas práticas sejam estendidas de forma organizada a todo o país”, reforçou o médico, insistindo também na importância de dar formação aos médicos mais novos.

Ao mesmo tempo, António Diniz acrescentou que também está em vigor deste o Verão de 2014 um protocolo com a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais para que os reclusos possam fazer despistagem da doença quando dão entrada nos estabelecimentos e depois de forma regular para evitar surtos como registou em 2012. Para reduzir a infecção dos imigrantes vai ser assinado um protocolo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para facilitar o acesso dos migrantes ao Serviço Nacional de Saúde.

Vacina com problemas até Maio

A vacina contra a tuberculose, conhecida como BCG, e que continua a ser uma das principais armas de combate à doença, está com problemas no fornecimento que podem afectar a imunização nos próximos meses. O alerta foi feito pela própria Direcção-Geral da Saúde que, num comunicado, apelou a que as administrações regionais de saúde façam nos próximos meses uma boa gestão das reservas que ainda têm desta vacina. No entanto, segundo Raquel Duarte, uma vez que o problema deverá ser ultrapassado até Maio, “não vai ter grande influência” na luta contra a doença. A coordenadora diz que em causa estão crianças sobretudo até aos dois meses de idade, que não deverão ter contacto com situações de risco.

A ideia é que, enquanto se verifiquem problemas de fornecimento por parte do laboratório com sede na Dinamarca, as vacinas existentes em Portugal sejam concentradas “nas maternidades ou fazendo marcações para vacinação”. Os utentes cuja vacinação seja adiada vão ser contactados posteriormente quando houver novas doses. As autoridades de saúde garantem que a ruptura não representa qualquer risco para a saúde pública. Mas reconhecem a necessidade de “reforçar outras medidas de prevenção da tuberculose”.