Mia Couto entre os finalistas do Man Booker International Prize

É a primeira vez que um escritor moçambicano surge entre os finalistas do prémio, emanado do Man Booker e atribuído bienalmente numa escolha aberta a autores de todo o mundo.

Mia Couto recebeu o prémio pela "vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e profunda humanidade"
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O júri destacou o carácter "preciso" e "profundo" das "histórias de civilização e barbárie" de Mia Couto Rui Gaudêncio

Mia Couto está entre os finalistas do Man Booker International Prize. A lista de 10 escritores foi anunciada esta terça-feira na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, e inclui também o argentino César Aira, a libanesa Hoda Barakat, Maryse Condé, de Guadalupe, a americana Fanny Howe, o líbio Ibrahim Al-Koni, o húngaro László Krasznahorkai, o congolês Alain Mabanckou, a sul-africana Marlene van Niekerk e o indiano Amitav Gosh.

Atribuído bienalmente, o prémio emana do Booker Prize, um dos mais prestigiados prémios literários britânicos. Está aberto a escritores de todo o mundo, desde que traduzidos para inglês, e premeia um corpo de obra e não um título específico. O vencedor da edição de 2015 será anunciado em Londres dia 19 de Maio.

O júri destaca o carácter “preciso” e “profundo” com que a língua é utilizada nas “histórias de civilização e barbárie” de Mia Couto, o primeiro moçambicano a figurar na lista final do Booker International. “Ele tece em conjunto a tradição viva da lenda, poesia e canção. As suas páginas estão cravejadas de imagens surpreendentes”, referiu o júri, que destaca entre a sua obra livros traduzidos para inglês como Terra Sonâmbula, O Último Voo do Flamingo ou Jesusalém.

Este ano, oito dos dez finalistas são autores traduzidos para inglês, algo inédito na história do prémio. Marina Warner, a presidente do júri, destacou precisamente a abrangência geográfica e diversidade cultural formada pelos finalistas. “A ficção pode aumentar o mundo para todos nós e expandir a nossa compreensão e compaixão”, comenta no comunicado emitido pela organização.

Edwin Frank, editor chefe da New York Review Classics, referiu, citado pelo Guardian, ter sido intenção do júri ter em atenção “o mundo vasto da literatura”, destacando a presença da literatura árabe, representada pelas histórias do deserto de Ibrahim Al-Koni, bem como os restantes autores africanos "escrevendo em línguas e tradições literárias muito diferentes”.

Segundo Marina Warner, escritora e académica londrina, a literatura dos finalistas é prova de que o romance está actualmente em “boa forma” enquanto “campo para questionamento, tribunal da história, mapa do coração, antena da psique, estímulo do pensamento, fonte de prazer e laboratório de linguagem”. Nenhum dos finalistas tinha surgido anteriormente entre os finalistas do prémio.

Nas suas três últimas edições o Man Booker International Prize foi atribuído a autores do norte do continente americano. A contista Lydia Davis foi distinguida em 2013, Philip Roth foi o vencedor de 2011, e a contista canadiana Alice Munro, que seria nobelizada quatro anos depois, em 2009.

Atribuído pela primeira vez em 2005 (o albanês Ismail Kadare foi o distinguido), o Man Booker International atribui um prémio monetário de 60 mil libras (cerca de 82 mil euros) ao vencedor. Caso este seja um autor traduzido, pode escolher um tradutor para inglês da sua obra a quem é atribuído em paralelo um prémio de 15 mil libras (cerca de 20 mil euros).