Chuva de estrelas socialista derrama-se sobre Belém

Henrique Neto, ex-deputado e empresário, avança com candidatura esta semana, enquanto a esfera socialista se desdobra em propostas para o sucessor de Cavaco Silva.

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Henrique Neto Pedro Cunha

O empresário Henrique Neto será o primeiro a avançar, mas, muito provavelmente, não será o único socialista a candidatar-se a Belém. Nesta segunda-feira, os apoiantes da sua candidatura sinalizaram a pretensão com o agendamento da “apresentação da candidatura” para quarta-feira.

Numa mensagem encriptada, anunciava-se que as próximas presidenciais não estavam “condenadas a ser uma mera extensão da representação partidária”. E que, em frente ao Padrão dos Descobrimentos, seria dado a conhecer a personalidade que “na sua vida profissional, se destacou pela sua competência e capacidade de concretização, tendo levado o nome de Portugal a níveis de referência mundiais”. O currículo ficava completo com a referência: “[Com] um trajecto de posições políticas frontais e claras, há muito que defende a necessidade de introduzir profundas alterações no sistema político”.

Apesar das suas ligações ao PS, durante os Governos de José Sócrates assumiu uma clara divergência com a linha do partido de que foi deputado durante os anos 90 do século passado. A sua passagem pelo Parlamento surgiu já depois de se ter estabelecido como empresário de sucesso através da empresa Iberomoldes, de que foi um dos fundadores.

No volúvel ambiente dos últimos meses, Henrique Neto não tem sido, contudo, um dos nomes defendidos para a Presidência no seio da sua esfera política. Sinal disso foi a forma como um ex-ministro socialista reagiu à notícia. “Falta ao centro-esquerda um candidato presidencial forte e mobilizador de toda a sua base eleitoral, e não apenas de uma sua franja, por mais vocal que ela seja; e a restante esquerda embarcou numa alegre grupuscularização sem fim à vista”, escrevia segunda-feira Augusto Santos Silva na rede social Facebook.

O campo socialista parece permanecer órfão pelo silêncio do ex-primeiro-ministro António Guterres. Um tabu que gerou uma chuva de propostas. A situação chegou ao ponto de o secretário-geral do PS ter já, publicamente, elogiado mais de uma possibilidade. Já depois das referências a Guterres, ainda durante a campanha pela liderança do PS, Costa reconheceu em Janeiro deste ano que António Vitorino tinha "todas as qualidades para ser um excelente Presidente [da República]".

Entretanto, o semanário Expresso noticiava que António Guterres, depois de afastar a sua candidatura, sugerira como candidato o actual presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d’Oliveira Martins. O ex-ministro de Guterres disse não ter “nada a dizer” sobre o assunto. O que não impediu o actual ministro da Presidência, Luís Marques Guedes (PSD), de assumir a sua admiração por Oliveira Martins.

Antes disso, já o nome do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-presidente da AR Jaime Gama fora defendido por deputados socialistas. Em Dezembro do ano passado, o secretário nacional do PS, Sérgio Sousa Pinto, classificou o açoriano como um “excelente candidato” a Belém. Há menos de um mês, foi a vez de Miranda Calha, actual vice-presidente da AR, fazer o mesmo.

Há pouco mais de uma semana, o ex-reitor Sampaio da Nóvoa, durante o Congresso da Cidadania, proclamava “a responsabilidade de uma geração” e assumia que não tinha “medo”. Uma entrevista do actual presidente do PS, Carlos César, foi entendida como um sinal quando reconheceu, em relação a Belém, existirem “vantagens no facto de a personalidade da área da esquerda democrática não sair de uma organização partidária”.

Curiosamente, o ex-presidente do Governo Regional dos Açores foi também apontado como presidenciável. Num artigo de opinião no PÚBLICO, o histórico socialista Edmundo Pedro traçou o perfil ideal antes de concluir que César era o que melhor correspondia às “exigências da função”.

As coincidências de função associavam ainda César a outro dos nomes socialistas já aventados. Em Janeiro deste ano, a eurodeputada socialista Ana Gomes sugeriu, durante uma reunião da comissão política nacional do PS, a ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira como uma “excelente candidata”. O que levou a ex-presidente do PS, numa entrevista, a reagir de forma diplomática, ao frisar que estava empenhada “nas legislativas”. “Depois logo se verá...”, rematou.