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Maria, João e Isaac em Cuba do Alentejo Pierre Gonnord
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Pierre Gonnord

"Nos dias que correm, nenhum fotógrafo é bem-vindo"

"Gaia, Mother Earth" parece Pintura, mas é mais Literatura. O fotógrafo francês Pierre Gonnord esteve em Portugal onde penetrou em comunidades ciganas e piscatórias. "São como reis e rainhas em exílio", disse ao P3

Pierre Gonnord é o autor da série fotográfica "Gaia, Mother Earth" ("Gaia, Terra Mãe") que inclui retratos de portugueses que vivem em contacto profundo com a natureza. O projecto começou a ganhar vida em 2009 e conduziu o fotógrafo até comunidades piscatórias, mineiras e ciganas nómadas que trabalham na agricultura. O fotógrafo francês concedeu uma entrevista ao P3, via email. "As gentes ciganas têm uma elegância e dignidade naturais, são como reis e rainhas em exílio. Fazem-me lembrar a história dos primeiros judeus da Bíblia. Os retratos servem para nos recordar do poder da expressão de um rosto humano, da sua graça, das nossas raízes profundas e do nosso futuro", diz Gonnord. Parte do seu trabalho fotográfico pode ser visto aqui.

Porque elegeste Portugal para desenvolver o projecto?

Porque adoro o vosso país (e porque não?): as pessoas, a história, a cultura, os hábitos, as paisagens... Vivi em Espanha durante 26 anos e somos vizinhos próximos. Durante as minhas longas viagens por Portugal tive a sorte de conhecer comunidades muito interessantes, como por exemplo a de pescadores e as suas famílias ao longo da costa, desde a Nazaré até ao Algarve e perto de Lisboa, na Costa da Caparica e em Fonte da Telha. Já participei em diversos eventos artísticos em Portugal, nomeadamente numa exposição do BES e na Trienal do Alentejo.

PÚBLICO -
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O fotógrafo Pierre Gonnord

Porquê este grupo de pessoas?

Desde criança que sou fascinado pela história cigana, pelas suas raízes, estilo de vista, e sempre me comovi com a exclusão que enfrentam por toda a Europa. Sei que faço os retratos para ter oportunidade de encontrá-los, pela experiência. Aprender com os outros, escutar, ver, sentir, expressar significa abrir os olhos para o mundo. Conhecer o universo dos outros, outras realidades é ir além das nossas próprias fronteiras, é ir um pouco mais longe no entendimento da espécie humana. É também ultrapassar os limites da minha timidez, da minha solidão, do meu condicionamento e dos meus tabus. O retrato começa por ser a história de um encontro, muito antes do processo de criação do retrato. Esta prática só pode ser bem-sucedida quando existe intimidade ao ponto de se estar cara-a-cara com o outro. Hoje em dia, damos demasiada importância ao documentarismo em detrimento da intimidade. Sinto falta de uma abordagem humana e psicológica. Fazer um retrato é também lutar contra o esquecimento; trata-se de um canibalismo do outro, da sua diferença e do que nos une como seres humanos. A comunhão, a apropriação da beleza, da graça e dignidade que nos torna semelhantes.

Foi difícil penetrar nestes mundos?

Nos dias que correm, nenhum fotógrafo é bem-vindo porque as pessoas desejam preservar a sua intimidade. Receiam aparecer na televisão, no Facebook ou em qualquer outro meio de comunicação. A minha intenção não é apenas retratar, mas também passar algum tempo com essas comunidades e entender a sua cultura, conhecer os membros das famílias, as suas personalidades e sensibilidades, e decidir a partir dessa análise como os retratar no futuro. Só depois disso explico o meu projecto e mostro o meu trabalho. Passado algum tempo (podem passar semanas, às vezes meses), proponho uma sessão fotográfica num espaço mais privado, como um palheiro, uma casa ou mesmo um acampamento. Só retrato pessoas que conheço e com quem tenho uma relação de amizade. As famílias ciganas são muito hospitaleiras quando as conheces, são generosas e eu desejo responder a essa generosidade o máximo possível. Deixa-me satisfeito. Os meus modelos ficam muito entusiasmados com a elegância e beleza dos meus retratos. Recebem uma impressão com dedicatória e geralmente colocam-no na parede de suas casas. As gentes ciganas têm uma elegância e dignidade naturais, são como reis e rainhas em exílio. Fazem-me lembrar a história dos primeiros judeus da Bíblia. Os retratos servem para nos recordar do poder da expressão de um rosto humano, da sua graça, das nossas raízes profundas e do nosso futuro. Também que existe algo que nunca se irá perder: a nossa espiritualidade — apesar de vivermos num mundo material. As pessoas que aparecem nos meus retratos têm, geralmente, uma ligação profunda com a natureza e não foram ainda expostas à sociedade de consumo. Têm uma visão da vida um pouco distante e têm consciência da sua efémera condição humana, uma vez que a sua fé os conduz à crença na vida eterna.

As tuas fotografias parecem remeter para a Pintura...

Prefiro não seguir referências da Pintura. Apenas tento alcançar o momento mágico e misterioso que origina um grande retrato. Tenho muito mais interesse no poder da Literatura e sorvo mais influência de um romance de William Faulkner ou de Fiódor Dostoiévski do que de um retrato de Caravaggio. No século XVII apareceram, subitamente, grandes criadores que revelaram o retrato segundo regras académicas. Esses artistas, como El Greco, Velásquez ou Goya eram mestres absolutos, alquimistas na abordagem à mente humana e ao seu mistério, dipunham de grande talento, de uma economia de meios fantástica e grande simplicidade na expressão: menos desenho, menos cor, menos foco mas mais alma, mais psicologia e por vezes mesmo psiquiatria aguçada aliados a um fundo negro e neutro. É isso que tento sintetizar. Tento "apanhar uma mosca com a mão" através de um rosto ou olhar. A luz na pintura, que é sempre luz natural, luz de dia, luz de vela, que são também peças chave do meu tipo de expressão.

Que técnica fotográfica utilizas?

Acho que os meus fundos negros e abstractos são feitos para isolar e engrandecer o assunto. É uma velha técnica que existe desde sempre, desde as primeiras pinturas romanas em Pompei até ao século XVII na era dourada da Pintura. Mas acho que as personagem, as pessoas que eu retrato, são pessoas muito tradicionais que remetem a outros tempos da história humana, às nossas raízes. Não utilizo Photoshop nas minhas imagens, nem HDR. Não necessito disso uma vez que a luz que utilizo é natural e os meus retratados são pessoas reais. Aparecem tal e qual são, as mesmas caras, corpos, miradas e vestes.

Pierre Gonnord exibe esta série fotográfica na galeria Hasted Kraeutler em Nova Iorque até o dia 25 de Abril.