Ainda só tem 50? Que pena, volte daqui a uns anos!

O projecto “A avó veio trabalhar”, da designer Susana António e do psicólogo Ângelo Campota, pega nos lavores tradicionais e coloca-os em boas mãos

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Catarina Sanches

Sábado, 21 de Março. São três da tarde e no rés-do-chão da Rua do Poço dos Negros borda-se com linhas de amor a sabedoria dos avós e dos lavores tradicionais. Com sorrisos que me encheram o peito, sou recebida pelas meninas. Na entrada da sala, pode ler-se: “Ainda só tem 50? Que pena, volte daqui a uns anos!”

Chama-se “A avó veio trabalhar” e nasceu de um sonho partilhado pela designer Susana António e pelo psicólogo Ângelo Campota. “Gosto mesmo muito, muito de velhinhos”, oiço a Susana dizer, enquanto o meu olhar se perde por entre a felicidade que espelham os olhos da artesã Filomena, o carinho que transborda dos bordados da Maria das Dores e as divertidas provocações das chefes de sala, Elisa e Celeste.

O design enquanto ferramenta de transformação e capacitação é aquilo em que sempre acreditou a dupla autora da ideia, cujo encontro aconteceu no âmbito do projecto Remix, do qual o Ângelo é coordenador. “Somos um bocadinho almas-gémeas”, confessam com um brilho nos olhos — e talvez tenha sido por este brilho tão peculiar que o design social arregaçou as mangas e nasceu a Fermenta, uma associação que usa o design como ferramenta de inovação social, sempre na óptica de capacitação de grupos e comunidades.

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“A avó veio trabalhar” é o projecto que costura o poder transformador do design nos tecidos da comunidade sénior e estimula o envelhecimento activo, ao colocar estes avós a produzir verdadeiras colecções de moda através de actividades que recuperam artes e ofícios dos quais eles são os melhores guardiões.

Pontualmente, temos a sorte de ser colocada à nossa disposição uma raríssima colecção de linhas de lavores de amor, através da qual os tutores (com um mínimo de 60 anos de experiência) nos convidam a aprender a costurar em diferentes idades. Basta que peguemos nas agulhas e nos façamos acompanhar de mãos vazias para que possamos receber todo o carinho e dedicação com que nos serão passados conhecimentos que vão desde o bordado tradicional ao tricot, passando pelo tear, serigrafia, esmirna e até crochet.

Destas técnicas nasceram já as colecções de luvas e almofadas, estando a colecção de tapetes a ser confeccionada neste momento por um grupo que conta actualmente com cerca de 40 idosos, mas que inicialmente teve de desbravar caminho por entre os mecanismos de defesa enraizados no seio desta comunidade. “Eu não sei fazer nada”, “eu não tenho interesse” são alguns deles, agora desactivados, apenas e só, graças ao esforço e dedicação desta dupla que, ao recuperar lavores domésticos, os relembrou da riqueza da sua experiência acumulada, quebrou estigmas e os trouxe de volta à vida activa.

As diferenças maiores sentem-se nos pequenos detalhes do dia-a-dia. Contam-nos os autores que na semana passada a Filomena trouxe uma amiga e, poucos dias depois, a amiga já estava a telefonar a uma vizinha: “Estás em casa, sempre aborrecida, tens de vir para aqui – sinto-me tão melhor!”. Agora a Fernanda já sabe que serve para alguma coisa e até vai buscar o batom vermelho para a fotografia. A Maria das Dores colocou a sua melhor blusa de cetim para nos receber e a Elisa já ousa bordar a relva com tons vermelhos, porque aprendeu a ver o mundo com outras cores.

“Em última análise, o que nos define é o nosso trabalho, portanto um idoso quando se reforma deixa de ter uma identidade para passar a fazer parte do grupo dos ‘velhinhos’.” Ainda bem que a Susana e o Ângelo nunca acreditaram nisto. Agora é a nossa vez.