Opinião

Guiné, o país das “mesas redondas”

Será que os governantes ainda não têm a noção exacta sobre o que tem de ser feito para diminuir a pobreza que grassa no país?

A Guiné-Bissau, querendo ultrapassar a sua situação de pobreza, tem de eleger o trabalho como o único meio de o fazer. A ajuda externa pode ser um contributo necessário, porém nunca suficiente para guindar o país do fosso socio-económico em que se encontra.

Em vez de, primeiro, equacionar os seus problemas e procurar nos seus recursos humanos e naturais a solução da grande parte dos mesmos, está mais virada para o apoio externo, ignorando que este resulta do trabalho dos países doadores. Ou será que os governantes guinéus ainda não têm a noção exacta sobre o que tem de ser feito para diminuir a pobreza que grassa no país?

A agricultura deverá ser a principal âncora do desenvolvimento para a auto-suficiência alimentar e, por conseguinte, a indústria de transformação e, a seguir, o comércio melhor organizado e adaptado à economia nacional. Mas, para que a agricultura tenha expressão importante na economia, há que acabar com mais plantações de cajueiros, além de reduzir de forma drástica as actuais, libertando terrenos aráveis para as diversas culturas. A Guiné é um país menor que o Alentejo; portanto, não deve fazer da sua agricultura monopólio dos cajueiros, de cujo interesse para os agricultores é a simples troca de castanhas de caju com o arroz. Os recursos naturais, à mão de semear, são a agricultura, a pesca e a floresta com uma excelente qualidade de madeira. As suas explorações, de forma racional e isenta de corrupção, podem ser a solução de muitos problemas, sem necessidade de estar sempre a recorrer à ajuda externa até para tapar um simples buraco na estrada. A Guiné ganhou o vício das “mesas redondas” mas sem nunca ter apresentado resultados palpáveis delas decorrentes. Espero que, desta vez, tudo seja diferente.

A realização da “mesa redonda” sobre a Guiné em Bruxelas, no dia 25 de Março, deverá ser a última oportunidade que o país não pode desperdiçar. A Guiné não se pode queixar de falta de apoio da comunidade internacional, sobretudo de Portugal, que tem sido incansável não apenas na ajuda nas diversas áreas da cooperação como também o seu importante lobby junto das instâncias internacionais. Agora, é urgente tomar as decisões que vão ao encontro dos problemas identificados, de modo a que a Guiné possa sair da situação em que se encontra e acautelar o futuro sem grandes sobressaltos.

Há quarenta anos de independência, o país meteu-se numa encruzilhada e ainda não conseguiu encontrar o caminho de saída para a realização do sonho independentista, o qual se transformou num verdadeiro pesadelo infindável para o seu povo, devido à falta de visão da condução política certa por parte dos dirigentes. Não obstante, continua a merecer a solidariedade da comunidade internacional, sem a qual o país já teria entrado em situação de inviabilidade eterna. A gigantesca tarefa que tem pela frente, no sentido de acabar com a sua endémica crise, deve ipso facto mobilizar todos os guineenses para este novo desafio até entrar nos carris da via do desenvolvimento credível.

A Guiné, depois da libertação, tem desperdiçado várias oportunidades, ao longo da sua existência histórica, que lhe podiam ter proporcionado uma situação diferente e melhor que aquela que hoje vive. Oxalá que a realização da “mesa redonda” em Bruxelas sobre o país possa, desta vez, ser bem aproveitada pelo governo e a sociedade civil empreendedora. Aliás, o desenvolvimento de qualquer país requer a participação de todos os que podem contribuir para o bem comum. Neste caso, o previsto apoio financeiro da reunião na capital belga deve também contemplar a comunidade na diáspora, desde que alguns dos seus membros apresentem projectos de interesse social/económico no país de origem. Com efeito, o know how e a experiência adquiridos durante a estadia fora poderão garantir o sucesso dos projectos e a sua continuidade no terreno.

Pois bem, o financiamento que vier a ser concedido à Guiné como ajuda para o seu desenvolvimento e sem rigorosa fiscalização dos dadores sobre a sua correcta aplicação será a mesma coisa que confiar o ouro ao bandido.

Presidente da Associação Guineense de Solidariedade Social