Homem testou programa anti-suicídio do Facebook e acabou numa instituição psiquiátrica

Norte-americano ficou internado durante 72 horas após ter publicado post a alegar que se iria suicidar.

O Facebook decidiu reforçar a presença nos telemóveis
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O Facebook decidiu reforçar a presença nos telemóveis Thomas Hodel/Reuters

No dia 26 de Fevereiro, Shane Tusch, de 48 anos, publicou um post na sua página no Facebook a afirmar que iria suicidar-se na Golden Gate Bridge, em São Francisco, EUA. Um utilizador da rede social alertou as autoridades para a mensagem e Tusch acabou retido 72 horas numa instituição psiquiátrica, onde foi submetido a várias análises. Cinco dias depois do incidente, revelava no seu perfil que tudo não passou de uma tentativa para testar o recém-reforçado programa de prevenção do suicídio do Facebook.

No post que publicou na sua página na rede social, Tusch, casado e pai de dois filhos, disse que estava a ter problemas sérios com o banco onde tinha o empréstimo bancário da sua casa. O norte-americano contou que não conseguia aguentar mais o stress provocado pela situação. “Por isso, decidi suicidar-me de uma forma muito pública que espero que leve as pessoas a falarem sobre os crimes que estes bancos cometem”, acrescentou. “Penso enforcar-me na Golden Gate Bridge com um grande sinal a dizer que o Bank of America me matou e deixou a minha mulher e os meus filhos sem pai ou uma casa”, termina o post.

O post teve quatro comentários, todos a apelarem a Tusch que reconsiderasse, e um de reacção do próprio Tusch. Segundo o homem, a pessoa que alertou o Facebook e as autoridades para a sua mensagem de ameaça de suicídio não o conhece pessoalmente, nem está entre os seus amigos na rede social. A polícia apareceu em casa de Tusch quando este não estava. O homem decidiu dirigir-se ele próprio às autoridades, que iniciaram a sua própria investigação e o levaram até uma unidade de psiquiatria para que fosse ouvido por um médico.

A 3 de Março, o homem publica uma nova mensagem, onde diz que a sua “experiência de 72 horas terminou”. No texto, o norte-americano confirma que tentou testar o programa de prevenção de suicídio que o Facebook tinha lançado dias antes e que acabou numa instituição psiquiátrica, onde foi submetido a exames e análises clínicas e lhe foram negados “cuidados humanos” durante a sua permanência na unidade.

O teste ao programa do Facebook serviu ainda para Tusch alertar para os perigos da iniciativa da rede social. Em Fevereiro, o Facebook tornou possível denunciar um post onde exista uma suspeita de intenção suicida, aconselhando a rede social a que sejam contactadas as autoridades e os serviços de emergência para casos destes. Sempre que isso não for possível, o Facebook tem uma opção para denunciar uma possível situação de tentativa de suicídio. Para criar este programa, a empresa iniciou uma parceria com a Universidade de Washington e organizações de saúde mental.

Para Shane Tusch, o programa pode suscitar vários problemas, nomeadamente inundar a polícia e as unidades psiquiátricas com chamadas e casos de potenciais suicidas, para depois se verificar que o utilizador do Facebook ficou 72 horas num hospital sem existir uma necessidade médica. “Estava apenas a tentar provar que o Facebook não se deve envolver nisto”, defende, sugerindo que a prevenção do suicídio deve ser deixada para as “famílias e amigos”.

Tusch poderá agora levar o caso até aos tribunais, depois de ter apresentado uma queixa contra a rede social por violação da privacidade e da liberdade de expressão. O norte-americano diz já ter recebido apoio por parte da associação de defesa dos consumidores Consumer Watchdog, que enviou no passado dia 11 de Março uma carta a Mark Zuckerberg a pedir que o “programa de prevenção de suicídio seja suspenso até estar garantido que respeita os direitos de todos os indivíduos e contém salvaguardas contra situações de abuso”.

Segundo o presidente da associação, Jamie Court, o Facebook “facilitou que um homem ficasse privado da sua liberdade durante 70 horas” e que “outras vítimas inocentes podem vir a ser apanhadas na rede do Facebook se não forem melhorados os procedimentos em torno do programa de prevenção”.

O Facebook não fez ainda qualquer declaração sobre o caso.