Alba Rohrwacher dança em família

É a mãe e a esposa que apazigua a família de O País das Maravilhas. É a mãe e a esposa que instala o medo em Corações Inquietos - duas antestreias no Festival de Cinema Italiano

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Numa família em que o pai exerce a tirania do amor, ela é esperança de apaziguamento para os filhos – Alba Rohrwacher é a mãe em O País das Maravilhas (abertura da Festa do Cinema Italiano, dia 25, às 21h30, São Jorge, e estreia comercial a 26).

Em Corações Inquietos/Hungry Hearts, o elemento feminino de um casal que se conhece numa casa de banho (início burlesco para um grande amor, e episódio que se revela, em mais do que um sentido, a cena original), Alba está obcecada pela pureza: nessa casa de banho, onde a personagem de Adam Driver, futuro marido, evacuou, ela está sempre com o dedo no nariz, pormenor que será, retrospectivamente, significativo; o que vem a seguir é o terror num apartamento em Nova Iorque, com pai, mãe, criança e patologia.

Realiza o primeiro, filme em que a fantasia circula tanto quanto o medo numa família que resiste ao mundo com o seu negócio de abelhas e mel, Alice Rohrwacher, irmã de Alba. O segundo (Festa do Cinema Italiano, dia 27, 21h30, São Jorge, e estreia a 9 de Abril) é de Saverio Costanzo. Poderia ser uma versão, com habilidades não mais do que domésticas, de A Semente do Diabo, de Polanski. A passagem por vários géneros, com aquela conjugalidade a ser devorada por dentro pelo terror psicológico, é irresistível e o realizador trabalha isso com dedicação; mas é mais interessante com a ambiguidade do que com a explicitação.

A silhueta de gamine de Alba é tanto uma possibilidade de escape à claustrofobia (O País das Maravilhas) como o veículo através do qual o medo se instala (Corações Inquietos). Em ambos, a família é país de misteriosas ligações: é sempre inexplicável, para o espectador de um filme, a forma como actores vindos de sítios diferentes, às vezes com línguas diferentes, parecem viver juntos há uma vida.

“O que me interessa no cinema são as relações entre as personagens”, diz Alba. “Em Corações Inquietos era importante encontrar uma verdade que tornasse credível um grande amor para depois se contar o fim desse grande amor. Tudo depende, claro, de um argumento e de um realizador. Mas há os actores. O que aconteceu com Adam Driver, que chegou pouco antes da rodagem, portanto sem tempo para ensaios, apenas para uma leitura do guião, é que se criou sintonia imediata. Temos o mesmo modo de trabalhar. Não lutámos pela mesma versão de uma história, mas pela melhor visão de uma história que para nós já era a mesma. Foi como uma dança entre três pessoas que bailavam com o mesmo ritmo, nós e o realizador, que era também o operador de câmara.”

A dança foi mais complexa em O País das Maravilhas. “Tratou-se de unir modos de trabalhar muitos diversos, até porque havia não actores – as crianças [as filhas da personagem de Alba] eram estreantes. Passámos muito tempo juntos e o resultado disso, em termos de empatia, foi autêntico. A mãe – interpretada por mim –, que é para elas a segurança e a paz em relação ao pai, era um guia. Foi essa a relação na vida: eu, Alba, tentando ensinar-lhes alguma coisa. Foi mais complexo, sim, porque não partimos todos do mesmo ponto, mas quando as coisas funcionavam, sentia-se...”

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A silhueta de gamine de Alba é tanto uma possibilidade de escape à claustrofobia (O País das Maravilhas) como o veículo através do qual o medo se instala (Corações Inquietos) — na foto, com Adam Driver DR
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Alba é irmã de Alice, a realizadora. Diz a actriz (Caos Calmo, 2008, Eu Sou o Amor, 2009, A Solidão dos Números Primos, 2010) que o parentesco não adocicou as exigências profissionais que cada uma reserva para si. “Ela é a realizadora, eu sou actriz.” Mas... Alba e Alice têm uma memória comum – a infância na região da Umbria italiana, ao lado da Toscana onde o filme foi rodado, com pais apicultores tal como no filme. Foi a partir dessa memória que a realizadora fantasiou.
“O filme passa-se nos anos 90, na Toscana, nós crecemos na Umbria. Este é um mundo que a minha irmã imaginou, fantástico, mas próximo de algo que vivemos. Transportado para o cinema tornou-se fantasia. É claro que é uma metáfora de um mundo a acabar. Este tipo de mundo - aquele em que o filme se inspirou - seguramente acabou: o mundo campesino, o mundo de uma utopia, um ideal posto fatalmente à prova pela sociedade.”
Não é uma história biográfica “mas o trabalho sobre a memória foi directo. Foi fatigante, meses de preparação, coisas a combinar para tornar credível esta família e as suas relações. Mas foi também natural, porque a memória de Alice é igual à minha. As personagens tornaram-se logo claras. Tínhamos a mesma ideia de como esta mãe devia ser. Foi muito fluido. Houve, claramente, vantagens... uma grande confiança, uma compreensão imediata. Compreendo imediatamente o que ela quer. Pude ler muitas vezes o argumento. Mas o meu método de trabalhar é sempre o mesmo: com todos os realizadores quero interagir e compreender, não quero ser uma boneca.”