A doença é a minha musa

Demorou mais de três anos a fazer porque os ouvidos de Colin Hubert, o líder, contraíram uma doença que o torna extremamente sensível ao ruído. O esforço não foi em vão: Nervous é tremendo e até agora é lá que se encontra a melhor canção de 2015, Bank accounts and dollar bills.

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A hiperacusia de Colin Hubert obrigou o líder dos Siskiyou a mudar de tom — agora, a banda toca baixinho DR

Experimentem colocar-se na seguinte situação: têm como profissão a música e um belo dia ela torna-se, para usar a expressão de Colin Hubert, o líder dos Siskiyou, “o inimigo”. O que é que fazem? Pousam os instrumentos e tiram um curso intensivo de digital marketing antes de tomarem conta das redes sociais de uma empresa enquanto anotam as variações do tráfego online? Vendem a guitarra ao vizinho e dedicam-se à mecânica automóvel? Ou abrem uma loja gourmet? Seja qual for a opção, a música, a inimiga, é a carta fora do baralho, certo?

Errado. Na viragem de 2011 para 2012, pouco depois da edição de Keep Away The Dead, o segundo álbum dos Siskiyou, Colin Hubert sentiu dores de cabeça e o médico diagnosticou-lhe hiperacusia, uma doença que, na versão leve, se caracteriza por hipersensibilidade a certas frequências e a certos volumes sonoros e, na versão intensa, faz com que a simples audição dos mais banais sons do dia-a-dia se torne fisicamente dolorosa para o paciente.

A variedade de hiperacusia que calhou na rifa a Colin foi a última. O que, apesar dos ataques de pânico de que começou a padecer, dos nervos esfrangalhados, da sensação de toda a sua vida se virar do avesso, não o impediu de publicar recentemente o admirável Nervous, terceiro álbum da banda. Demorou quase quatro anos, mas conseguiu. A ironia é que Nervous é o disco mais barulhento da história dos Siskiyou – que, se houver justiça neste mundo, estará agora a deixar de ser um ente obscuro e a granjear muitos seguidores.

“Para ser honesto”, diz Hubert em conversa com o Ípsilon, “ainda estou a aprender a viver com isto”. O homem é um lutador: no início da década, farto de ser apenas o baterista dos Great Lake Swimmers, banda pequena mas com culto, largou as baquetas e foi trabalhar para uma quinta. Ou pelo menos é o que se lê pela Internet fora, visto o relato de Hubert ser diferente: “Na realidade, eu não deixei a banda para trabalhar na quinta. Eu estava a viver no lado oposto [do continente americano] àquele em que os Great Lake Swimmers viviam, e tinha outros assuntos pendentes, por isso na altura fazia sentido deixá-los. Mas sim, pouco tempo depois, acabei a trabalhar numa quinta." É uma versão menos romântica, mas, mesmo assim, quantos músicos largariam o glamour para acabar de enxada na mão?

Depois da quinta vieram dois discos enquanto Siskiyou, em que o antigo baterista compõe e canta – e de seguida a doença, que é, “sem dúvida, a coisa mais difícil com que alguma vez” Hubert teve “de lidar em termos pessoais”. Como com muitas outras coisas, com o tempo “um tipo habitua-se”. Dito isto, não vale a pena a pôr paninhos quentes: “Teres um dos teus sentidos alterado para sempre... nunca mais vais sentir-te uma pessoa normal”, diz Colin, com natural melancolia. 

Por estes dias, ele tem de usar “um aparelho auditivo que regula o som, o que ajuda imenso mas não é suficiente”. Também medita diariamente, mas mesmo assim a doença afectou de “forma notória” o seu trabalho e a sua vida. Um exemplo simples: desde que tudo isto começou, Colin ainda não conseguiu actuar ao vivo. Algo tão natural para a maior parte de nós, como o volume de um amplificador, pode atirá-lo de rojo para o chão. “Tenho impressão de que uma parte do meu cérebro se reconfigurou, mas mesmo assim tenho receio de enfrentar uma digressão”, explica, antes de fazer uma confissão pungente: “Sinto que não sou de todo a mesma pessoa." 

É nesta altura que ele diz a frase parafraseada no início: “A música, que costumava ser um enorme prazer, tornou-se, por vezes, o inimigo. E não está a ser irónico. Aliás, o disco não se chama Nervous por acaso; no refrão da faixa-titulo, Hubert canta “I’m trying to relax” e não está a criar uma personagem. E quando o ouvimos citar John Lennon, cantando Give peace a chance a meio de um tema, não é uma referência à paz no mundo mas à paz dentro da cabeça. 

O que é que se faz a um inimigo que já se amou? Viram-se as costas? Mantém-se a relação, mesmo sabendo que nos pode ferir, numa espécie de vínculo neurótico? Colin optou por partir numa missão diplomática delicada: foi ter com a música, explicou-lhe que gostava muito dela e queria permanecer a seu lado, mas estabeleceu regras, fronteiras inultrapassáveis, de modo a não sofrer (demasiado). Trocando por miúdos: tocou baixinho. 

Pára-arranca
Antes da hiperacusia, os Siskiyou eram vistos como uma banda folk – o que, se não irritava Hubert, também não o deixava feliz. Numa nota oficial para a imprensa, escrita por um amigo, na altura do segundo disco, lia-se: “Os Siskiyou não são uma banda folk." “As pessoas ouvem um banjo numa canção e classificam-na automaticamente como música tradicional”, diz Hubert. 

O que estava planeado para Nervous “não era um esforço consciente” para a banda se afastar da etiqueta folk, apenas “esticar o mais possível a escrita e a produção”, ver até onde Colin conseguia chegar se fosse buscar tudo aquilo que [lhe] ocorresse pôr num disco”. Hubert, ao fim e ao cabo, não é um compositor experiente. Na realidade, ele aprecia “muito mais tocar bateria do que tocar guitarra ou cantar”. Enquanto estava nos Great Lake Swimmers não compunha muito, apenas o suficiente para ter em carteira um punhado de canções – que acabaram por se tornar no primeiro e homónimo álbum dos Siskiyou. 

Mas todos os planos que Hubert pudesse ter foram à vida “quando a audição começou a deteriorar-se”. Primeiro ficou à espera de que a situação melhorasse, como que por magia. “Ao fim de seis meses, nada havia mudado”, pelo que Colin começou a trabalhar em demos para mostrar à banda. Gravara os dois primeiros discos sozinho, de modo que gravar um disco muito mais expansivo com uma banda “foi, sem dúvida, radicalmente diferente”. 

Havia uma regra que os músicos tinham de seguir: todos os instrumentos seriam tocados “a um volume ridiculamente baixo”, de modo a não provocar dor a Hubert. Como é que isto foi possível é difícil dizer. Até porque Nervous é o disco mais ecléctico da banda: as canções subdividem-se em três ou quatro temas, há momentos em que apenas baixo e bateria acompanham a voz, para, de seguida, uma secção de metais fazer uma entrada espampanante, uma guitarra slide adorna Bank accounts and dollar bills antes de violinos descerem, e aos três minutos e pouco de Babylonian proclivities há piano, guitarra, bateria de escovas, cordas, enfim, tudo. Se tocaram mesmo assim tão baixinho, então tinham óptimos microfones.

Nervous vive num constante pára-arranca – tem a mesma febre da estreia dos Arcade Fire, Funeral, e o luxo de um disco dos Tindersticks. E se por acaso acharem que entre os Arcade Fire e os Tindersticks há demasiada distância para poderem servir de referência a um mesmo disco, então ouçam Hubert: “Eu não tinha a mínima intenção de fazer um disco com um som definido; apenas fazer o melhor possível com cada canção. Por isso, se uma soasse aos Cure na década de 1980 e a seguinte aos Guided By Voices, por mim tudo bem. Não consigo ouvir Cure e Guided By Voices no disco, mas valha a verdade também não sofro de hiperacusia. 

Hubert, que estudou Ecologia e Botânica e tem uma filha de 16 meses, não consegue encontrar “uma forma de fazer uma digressão para promover este disco sem que tudo se descontrole”, diz, semi-resignado. A vida não é justa – muitas vezes, é mesmo feia e cruel. Nervous é exactamente o oposto: belíssimo e doce. Haja ouvidos no mundo para ele.