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Médicos estão "exaustos" e Ordem quer estudar o problema

Estudo anunciado em 2010 não avançou, mas Ordem não desiste de ter um diagnóstico rigoroso da situação

Médicos Unidos querem “corrigir o caminho errado que vem sendo feito nos últimos 10 anos” na saúde
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Médicos Unidos querem “corrigir o caminho errado que vem sendo feito nos últimos 10 anos” na saúde Nelson Garrido

Isto anda tudo ligado. Se os doentes se mostram mais exasperados e exigentes, os profissionais de saúde sentem-se cada vez mais cansados e desmotivados. Nídia Zózimo, há longos anos a trabalhar no serviço de urgência do Hospital de Santa Maria (Lisboa) e membro da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), defende que muitos profissionais estão hoje completamente "exaustos” e que os conflitos e agressões não podem ser dissociados deste problema.

“As agressões acontecem porque não há prevenção, nem no local de trabalho, nem no modo como a tutela nos trata”, protesta Nídia que, aos 60 anos, acredita que a situação, no que à violência diz respeito, já chegou a ser pior no passado. “No tempo em que Leonor Beleza foi ministra da Saúde havia mais agressões. Aliás, sempre que os médicos são mais atacados na comunicação social, as agressões disparam”, enfatiza.

O problema, agora, é que os médicos sentem-se “tão humilhados e maltratados que já nem se zangam", e este é um dos sinais de" burnout" (síndrome de exaustão emocional e física crónicas).  “O ambiente já não é de zanga, mas sim de desânimo. Os profissionais percebem que a situação não muda e muitos vão-se embora”,  sintetiza Nídia, para quem o mais importante é “criar condições de trabalho para que os profissionais não entrem em burnout”.

Defensora de uma política preventiva, sustenta que é preciso, entre outras coisas, organizar devidamente o espaço de trabalho. Ela própria engendrou uma estratégia simples para evitar problemas de maior no serviço de urgência do Hospital de Santa Maria. Quando as salas de espera começam a ficar muito cheias, vai lá e explica aos doentes e acompanhantes que o atraso será maior. “As primeiras reacções são más, mas a medida é profiláctica”, sustenta a médica, que por diversas vezes foi agredida (“já me deram estaladas, até os óculos voaram”) e se habituou a sair em defesa dos colegas mais novos, do alto do seu “pouco mais de metro e meio”.

O problema do “burnout” não é de agora. Em 2010, a Ordem dos Médicos (OM) criou mesmo um grupo de trabalho por estar preocupada com os casos de exaustão percepcionados e decidiu lançar um estudo nacional para ter uma ideia da real dimensão do problema. Mas o estudo acabou por não avançar porque ficava muito dispendioso, explica Nídia, que integra este grupo da OM e continua empenhada em avançar com a investigação, apesar de o fenómeno ser difícil de estudar porque muitos profissionais o negam devido ao estigma. “Os médicos são treinados para tratar, não para ser tratados”, ensaia, em jeito de explicação.

O retrato que traça do estado a que alguns médicos chegaram é preocupante. Mesmo não havendo dados rigorosos, sabe-se que esta classe profissional tem taxas de divórcio e de suicídio superiores à média, lembra. “Muitos profissionais auto-medicam-se com antidepressivos”, acrescenta.

Também a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos já anunciou um inquérito para obter um diagnóstico preciso da síndrome de "burnout", face ao multiplicar dos casos de exaustão e de conflitos. “Hoje, o nível de exigência é muito elevado. Os profissionais estão desmotivados e cansados. Além de terem que combater as doenças, têm que lutar contra as insuficiências”, justifica o presidente da OM/Centro, Carlos Cortes.

Apesar de o fenómeno ser sobejamente conhecido, ainda há poucos trabalhos sobre este tema em Portugal e alguns dos que foram feitos são meramente parcelares, como um recente inquérito a 263 anestesistas. Mais de metade admitiam sofrer de exaustão emocional e 45% diziam não se sentir realizados.

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