Cemitério dos Ingleses, Lisboa

“Not forgotten”

Quando nasceu, tentou-se que os ciprestes escondessem os túmulos dos “hereges” dos olhos católicos. Talvez por isso, o Cemitério dos Ingleses é, ainda hoje, um dos segredos mais bem guardados de Lisboa.

placa está discretamente colocada no muro interior do cemitério. Para chegar até ela é preciso virar à esquerda à entrada e seguir até ao fundo. Manchada por um leve musgo, quase se confunde com o muro, mas o texto é perfeitamente legível: “O primeiro cônsul dos Estados Unidos, Thomas Barclay, foi morto num duelo em Lisboa e enterrado neste cemitério a 21 de Janeiro de 1793. Tinha nascido em Strabane, Irlanda, em 1720. George Washington tornou-o cônsul em Marrocos em 1791 a pedido do primeiro secretário de Estado Thomas Jefferson.”

É um pedaço da história americana que está aqui escondido num muro do Cemitério dos Ingleses, em Lisboa. A figura de Thomas Barclay despertou-me a curiosidade. Uma pesquisa na Internet revela que foi o primeiro cônsul americano em França e o diplomata que negociou o primeiro tratado com o sultão de Marrocos, em 1786. Foi também “o primeiro diplomata americano a morrer num país estrangeiro ao serviço dos Estados Unidos”. O “país estrangeiro” foi Portugal.

Mas os textos sobre Barclay não fazem qualquer referência a uma morte em duelo. A história que se conta é outra: o diplomata teria sido encarregue pelo Presidente Washington de ir a Argel negociar a libertação de uns americanos e deslocou-se a Lisboa para conseguir os fundos necessários para a sua missão. Foi aqui que começou a sentir-se doente, primeiro com uma ligeira febre e depois sofrendo um claro agravamento do seu estado. Morreu no dia 19 de Janeiro de 1793, com o que os médicos disseram ser uma inflamação nos pulmões. Sobre um duelo, nem uma palavra.

Mas, por muito que a história seja intrigante, Barclay não é o mais célebre dos mortos que repousam neste cemitério que fica no centro de Lisboa mas parece escondido de todos. A figura mais famosa, e a única que tem uma placa a indicar a localização do seu túmulo, é o escritor inglês do século XVIII Henry Fielding, autor do romance Tom Jones. Foi em 1754, umas décadas antes de Barclay, que Fielding chegou a Lisboa, onde esperava curar-se das doenças que o atacavam, entre as quais, gota e asma. Mas acabaria por viver aqui apenas mais dois meses e terminar no túmulo mais grandioso do cemitério.

Outra figura célebre aqui enterrada é Christian August, príncipe de Waldeck, “morto ao serviço do exército português”. Foi também no final do século XVIII, em 1797, que este general austríaco chegou a Portugal com a missão de comandar o exército, mas as coisas não correram como previsto, enfrentou obstáculos na sua missão e acabou por morrer a 25 de Agosto de 1798 no Palácio Nacional de Sintra, aos 53 anos.

Como estas, há muitas outras histórias repousando em silêncio ali ao lado do Jardim da Estrela, por detrás dos muros do Cemitério dos Ingleses, cuja criação foi possível graças a um tratado de 1654 entre os governos de Oliver Cromwell e de D. João IV. Antes disso, explica Jorge Martins Ribeiro num texto sobre o anglicanismo em Portugal do século XVIII ao XIX, havia um grande problema com a morte dos ingleses não católicos: “Os ingleses protestantes, quer se tratasse de residentes, quer de marinheiros afogados, eram enterrados à beira-mar ou nas margens dos rios.” Segundo Martins Ribeiro, “em Lisboa, estes mortos inumavam-se à noite num terreno não consagrado, situado na margem sul do rio Tejo e, a fim de não serem causa de escândalo, eram metidos em caixas de açúcar e para lá transportados a bordo de um navio britânico”.

Sabe-se que o primeiro enterro registado neste cemitério foi o de um refugiado huguenote, Francis La Roche, em 1724. Mesmo assim, a Inquisição decretou que se plantasse um muro de ciprestes em redor para que as campas dos “hereges” não fossem vistas pelos católicos, conta Vítor Manuel Adrião no site Lusophia.

Após as guerras napoleónicas, foi construída uma igreja dedicada a São Jorge, que já recebeu as visitas do Rei Eduardo VII da Grã-Bretanha e da princesa Margarida, irmã da Rainha Isabel II. À volta dela, as sepulturas austeras, de pedra cinzenta, sem flores, recordam, com sentidas dedicatórias, muitos dos que, tendo nascido longe, um dia, por razões muito diversas, vieram até Lisboa e aqui morreram. A eles, uma das lápides diz tudo o que importa dizer: “Not forgotten.”