Pode-se jogar padel no anfiteatro romano de Mérida?

As actividades previstas não têm um conteúdo “predominantemente cultural”, dizem os críticos. Polémica envolve um dos mais importantes destinos turísticos de Espanha.

Mérida é um dos principais destinos espanhóis de turismo cultural
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Mérida é um dos principais destinos espanhóis de turismo cultural DR

A possível celebração de um evento desportivo, num monumento na cidade espanhola de Mérida, está envolta em polémica, tendo reaberto o debate sobre o uso comercial do património histórico.

Parte da população da cidade espanhola de Mérida não quer que o seu anfiteatro romano se transforme numa pista de padel (um desporto de raquete, jogado a pares, de campo fechado rectangular), no próximo mês de Maio, embora o Consórcio Cidade Monumental de Mérida, que gere o património, tenha aprovado provisoriamente a realização da prova no recinto, construído há mais de 2 mil anos, para albergar combates de gladiadores romanos.

Mérida é a cidade moderna nascida no lugar da romana Emerita Augusta, que foi capital da província da Lusitânia, nos primeiros anos do império. Os seus vestígios romanos foram classificados pela UNESCO como Património Cultural e da Humanidade e a cidade tornou-se um dos principais destinos espanhóis de turismo cultural. Além do anfiteatro, há o famoso teatro, um dos monumentos mais procurados de Espanha, o circo e mais uma dezena de espaços que documentam a presença dos romanos na península.

Nos últimos dias têm surgido críticas de diversas forças políticas e foram recolhidas mais de sete mil assinaturas da população, depois de ter sido iniciada uma campanha na Internet.

A primeira formação política a insurgir-se contra a realização da prova foi o grupo municipal Esquerda Unida, que considerou a realização da prova desportiva incompatível com a conservação do monumento e a sua qualificação com o mais alto nível de protecção de bem de interesse cultural. A instalação de estruturas pesadas, o emprego de andaimes e a contínua entrada e saída de veículos pesados são algumas das razões invocadas para impedir a realização da prova.

O director do consórcio Cidade Monumental de Mérida, Miguel Alba, arqueólogo de profissão, citado pelo El País, diz-se surpreso com a polémica, até porque ainda não existirá uma decisão definitiva, faltando a aprovação da direcção técnica.

Aquando das mesmas declarações, salientou que não está prevista publicidade no recinto e que o património não será colocado em risco, argumentando que o equilíbrio – entre conservar ou promover turisticamente a cidade e o seu património – nem sempre é fácil de alcançar.

Por sua vez a associação ecologista Adenex recordou que, no ano passado, numa prova do circuito em Cáceres, foram instalados andaimes, valas e grades para serem recebidas três mil pessoas, qualquer coisa que, na sua visão, seria dificilmente compatível com um monumento romano frágil como o de Mérida.

Para além disso, argumentam, as actividades previstas têm um fundo apenas economicista, não possuindo um conteúdo “predominantemente cultural”, podendo colocar em perigo “a conservação do monumento”. O debate está aberto.