“Chegou o tempo de se dar um estrondoso murro na mesa”

Congresso da Cidadania teve sala cheia. “Ninguém nos perdoaria se não nos conseguirmos pôr de acordo”, disse Sampaio da Nóvoa, um dos nomes apontados para as presidenciais

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Ramalho Eanes João Silva
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Sampaio da Nóvoa João Silva
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Rui Tavares João Silva
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Carvalho da Silva João Silva
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Paulo Morais João Silva
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Mesa do Debate João Silva

A sala da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, está cheia e as pessoas levantam-se para aplaudir o discurso do ex-reitor da Universidade de Lisboa, apontado como possível candidato às presidenciais. Sampaio da Nóvoa elogia Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, cita Humberto Delgado que disse estar “pronto para morrer pela liberdade”. E avisa: “Sei que juntos ganharemos o que perderemos separados”.

Mas a frase que resume o sentimento do Congresso da Cidadania, Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática, que terminou neste sábado, vem do presidente da Associação 25 de Abril, que organizou o evento: “Chegou o tempo de se dar um estrondoso murro na mesa”, declarou Vasco Lourenço.

Vários temas atravessam os discursos: a emigração, o desemprego, a pobreza, a corrupção. Para Sampaio da Nóvoa, a austeridade tem sido “um desastre”: “É preciso acabar com esta política antes que ela acabe connosco.” E lança uma questão: “Se há tantas forças de mudança, por que é que não há mudança? Talvez porque continuamos fragmentados, fracturados. Talvez porque dividir é fácil, unir é que é difícil.” Defende o diálogo. “Ninguém nos perdoaria se não nos conseguirmos pôr de acordo”, disse. Referindo-se às legislativas e às presidenciais, defende que “com políticos antigos não haverá política nova”.

Não faltaram críticas aos actuais Governo e Presidente da República (PR). O catedrático de Direito da Universidade de Lisboa, Eduardo Paz Ferreira, aponta espingardas a Cavaco Silva e considera que “os portugueses sabem bem que não querem um presidente enfeudado em interesses financeiros e partidários”, não querem um “robot”. Defende um PR que “saiba dizer não”, que “não aceite que se continue a dividir os portugueses, a criar ódios entre gerações”.

Também o vice-presidente da Associação Cívica Transparência e Integridade, Paulo Morais – que centra o discurso na corrupção - acaba por lamentar que “nem o PR cumpre a Constituição da República Portuguesa”. Para Morais, quando “alguém não cumpre o programa eleitoral com que se compromete, só há uma saída” – a “demissão”. Por isso, o PR “deve-nos uma de duas coisas: ou a demissão do Governo ou a sua demissão. Como tal não aconteceu, cumpre-nos a nós fazer cumprir a Constituição.”

Vasco Lourenço alinha: “Não podemos voltar a escolher um PR que não garanta o regular funcionamento das instituições e, pelo contrário, garanta um estatuto de imunidade ao Governo, por mais que este tenha perdido a sua legitimidade. Um PR que assuma, antes da sua eleição, que, dentro das suas competências constitucionais, obviamente demitirá qualquer governo que não cumpra o que na campanha eleitoral prometeu.”

O antigo secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, disponível para as presidenciais, aproveita e critica o programa do Governo para atrair os emigrantes de novo a Portugal (VEM) e elenca vários problemas “concretos” do país, frisando que um PR “tem obrigação de os identificar”. Tal como Vasco Lourenço, para quem “a crise na Europa é uma crise de mesquinhez”, também Carvalho da Silva diz que “não temos futuro integrados na Europa se esta não for espaço de solidariedade e cooperação entre os povos”.

As perguntas mantêm-se ao longo da sessão: Como sair da crise? Qual a estratégia? Para o dirigente do Livre, Rui Tavares, que defende “uma maioria” nas legislativas, “o campo de batalha mudou e, quando muda, não podemos insistir em batalhas novas com livros velhos”. Caso contrário: “Vamos perder cada um no seu cantinho.”

Aos jornalistas, Vasco Lourenço, apelou a outras alianças que não sejam as do arco da governação: “Há outros partidos no terreno, quer antigos, o PCP, e o BE. Há outros novos que estão a surgir e se, como se espera, o PS for o partido maioritário e não tiver maioria absoluta, mas mesmo que tenha, penso que deve fazer alianças. Mesmo que não sejam alianças governativas. Alianças com base em políticas.” Defende que os acordos devem ser feitos entre várias forças, desde que empenhadas na ruptura com as políticas e as práticas desgraçadamente seguidas até aqui”.

Aos jornalistas, o antigo PR, Ramalho Eanes, preferiu por a tónica nas eleições “imediatas”, para o Parlamento: “É indispensável que os partidos, todos os partidos, nos digam de uma maneira competente e confiante o que pretendem para o país e como o vão realizar. De tal maneira que a opção dos portugueses possa ser correcta e criar até condições mais fáceis, mais favoráveis para uma eleição presidencial que deve ser obviamente discutida, porque é um cargo de enorme importância”.

Já o dirigente do PCTP-MRPP, Garcia Pereira, ressalvando que não nutre “a menor simpatia política” por José Sócrates, criticou a forma como o processo decorreu e defendeu que se deve exigir “a libertação imediata” do ex-primeiro-ministro.