TAP: Nascida há 70 anos com liberdade no ADN

Companhia comemora o 70.º aniversário neste sábado, num momento em que o Governo tenta concluir a sua privatização com sucesso.

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Avião da TAP descola no aeroporto de Lisboa, em 2012 REUTERS/Rafael Marchante
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Assinatura do contrato de venda à Swissair, em 1997 Pedro Cunha/Arquivo
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Turbina de um avião da TAP, em 1999 Daniel Rocha
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Fernando Pinto, presidente da TAP, no ano em que chegou à empresa (2000) Daniel Rocha
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Apresentação da nova imagem da companhia, em 2005 Daniel Rocha
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Movimento Não TAP os Olhos, contra a venda da transportadora Enric Vives-Rubio
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TAP enfrentou um ano recorde de greves em 2014 REUTERS/Nacho Doce

“A TAP é provavelmente a única companhia aérea do mundo cujo fundador é um herói da liberdade”. A frase, da autoria de Frederico Delgado Rosa, neto e biógrafo de Humberto Delgado, o General Sem Medo, abre o texto que assina nas páginas da revista de bordo que este mês está colocada no banco da frente em todos os 77 aviões da TAP, que todas as semanas levantam voo cerca de 2500 vezes.

O orgulho de "certidão de nascimento" da empresa Transportes Aéreos Portugueses ter a assinatura do então tenente-coronel Humberto Delgado é óbvio e a data nela aposta, 14 de Março de 1945, faz com este sábado seja o dia oficial para a comemorações do 70º aniversario da companhia aérea. Humberto Delgado, à frente do secretariado de aeronáutica civil e que à época despachava directamente com Salazar, demitiu-se das funções no exacto dia em que inaugurou o sonho que o levou a exercer o cargo: fazer uma ligação aérea entre Lisboa, Luanda e Lourenço Marques (actual Maputo). 

“Portugal era a única potência  colonial que não tinha uma companhia de bandeira. Humberto Delgado assumiu essa tarefa e o desafio enorme de fazer a ligação às colónias, que estavam a mais de 20 mil quilómetros de distância. Em tempo recorde, a ambiciosa viagem inaugural da Linha Aérea Imperial (assim chamada ao gosto daqueles tempos) teve a sua descolagem no dia 31 de Dezembro de 1946. Humberto Delgado, agastado com a ausência de Salazar, demitiu-se nesse dia”, contou o neto.

“Os genes de liberdade e da ambição, esses, ficaram timbrados no seu ADN”, termina Delgado Rosa, que se escusa a tomar uma posição pública no assunto que mais tem mobilizado as opiniões no que ao futuro da TAP diz respeito: o processo de privatização da empresa, que está já em curso e que tem a data de 15 de maio como limite para a apresentação de propostas. “Tenho deixado bem claro a importância que atribuo à TAP como empresa estratégica de Portugal e a importância que tem para os portugueses. Quem quer que entre num avião da TAP sente que está a entrar em Portugal.” 

Delgado Rosa vai estar na manhã deste sábado no Museu do Ar na inauguração oficial da Exposição “70 Anos a voar/A Linha Imperial: uma ponte entre a Europa e África”, que documenta o ousado sonho de fazer uma ligação aérea entre Lisboa, Luanda e Lourenço Marques, ao lado de todas as entidades oficiais. À tarde, na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, o cineasta António-Pedro Vasconcelos vai coordenar uma festa de anos menos institucional: “haverá um bolo e vamos desenhar com uma moldura humana os nossos parabéns à TAP”, explicou ao PÚBLICO. Uma manifestação que servirá também para sensibilizar a população e recolher de assinaturas para a convocação de um referendo que possa travar o processo de privatização da TAP.

“Há uma ligação sentimental muito forte entre os portugueses e a TAP. Todos têm andado distraídos com outras questões - até porque lhes foram directamente ao bolso, com os aumentos de impostos e as reduções de salários - mas agora está muita mais gente desperta para as negociatas que têm vindo a ser feitas no âmbito das privatizações. É altura de dizer basta”, argumenta o realizador, aqui como porta-voz do “Não TAP os olhos”. 

Este movimento de cidadãos contesta os argumentos de que a privatização da TAP é obrigatória - já que a ela o país se comprometeu na assinatura do memorando com a troika, segundo o Governo -  ou até mesmo urgente. “Já não estamos a falar de uma empresa deficitária, mas de uma empresa rentável”, sustenta António-Pedro Vasconcelos. “Não queremos sobretudo”, acrescenta o realizador,  “que continuem em marcha negociatas como a que deu o monopólio dos aeroportos, que se transformaram num gigantesco centro comercial. Os novos donos da ANA têm-se limitado a aumentar as taxas a seu belo prazer”.

O ponto alto da agenda deste movimento será o concerto marcado para a próxima quarta-feira no Coliseu dos Recreios, por onde desfilarão nomes como Jorge Palma, Kátia Guerreiro, Sérgio Godinho, OqueStrada, e apresentação de Rita Blanco e Virgílio Castelo. Vasconcelos diz que a organização deste concerto - para uma equipa não profissional - lhes tem consumido muita atenção e energias. António Pedro Vasconcelos diz que depois do concerto será mais fácil aos seus elementos se empenharem na angariação de assinaturas que permitam convocar um referendo. São necessárias 75 mil. António Pedro Vasconcelos diz que já foram recolhidas cerca de 25 mil.  Na página de internet, a petição conta com um pouco mais de cinco mil nomes. O certo é que esta petição congrega várias vontades: as dos que são contra o processo de privatização, em termos ideológicos e definitivos, e os que não têm tanta certeza. Isto é, ate admitem que a empresa pode vir a ser privatizada, mas que contestam que o seja nas actuais circunstâncias e por um governo que está em final de mandato. 

De qualquer maneira, o tempo urge, já que a intenção do governo é concluir o processo de privatização até ao final deste semestre. Não seria a primeira vez que a privatização da TAP acabava não sendo concretizada, apesar dos anúncios governamentais para o efeito. Aliás, as duas ultimas décadas da empresa são férteis nesse sentido. Basta dizer que o actual presidente da empresa, Fernando Pinto, foi recrutado há já 14 anos pelo então ministro de Jorge Coelho - quando António Guterres era primeiro-ministro - para vir concretizar a privatização da empresa. Na altura estava já tudo encaminhado para a entrada no capital por parte da Swissair, mas a falência da companhia de bandeira suíça fez ruir todo o processo.

Já com este Governo, e depois de falhada a primeira tentativa em 2012 com a  rejeição da oferta do único candidato, Gérman Efromovich, o processo de privatização foi relançado no passado mês de Novembro. O modelo escolhido passa pela alienação, numa primeira fase, de 66% do capital do grupo – 61% junto de investidores e 5% junto dos trabalhadores. Mas o objectivo, a médio prazo, é que o Estado saia totalmente da TAP, com a venda dos restantes 34% no período de dois anos.

Se os trabalhadores do grupo chegaram a defender a privatização - depois das negociações hábeis de Fernando Pinto, que conseguiu encontrar nos responsáveis dos sindicatos os aliados de que precisava para se manter na empresa e “sobreviver” às sucessivas mudanças de governo (o gestor já foi a despacho com nove ministros e cinco primeiros-ministros), são agora algumas das franjas que mais a contestam. A oposição à venda da TAP esteve na origem da última greve que Fernando Pinto enfrentou, e que chegou a trazer para cima da mesa uma requisição civil. Os protestos,  convocados para o crítico período de Natal, acabaram por não se concretizar. Mas os prejuízos foram encaixados pela empresa. 

O pedido de suspensão da venda da TAP foi pedido em bloco por todos os partidos da oposição na Assembleia da República, mas as bancadas da maioria rejeitaram as propostas em apenas dois minutos. O processo prossegue e, soube-se em Fevereiro, os interessados têm até 15 de Maio para apresentar uma proposta de compra pelo grupo TAP. Cinco investidores manifestaram interesse na aquisição da companhia, embora não haja garantias de que avancem: um consórcio liderado pelo empresário português Miguel Pais do Amaral, Gérman Efromovich (que, falhada a tentativa de aquisição em 2012, pretende voltar à carga) as companhias brasileiras Gol e Azul e o grupo espanhol Globalia. Todos eles poderão ter acesso ao chamado data room da privatização, que permite aos investidores acederem a toda a informação sobre o processo, depois de assinarem um acordo de confidencialidade que os inibe de divulgar os detalhes da situação financeira da empresa. 

Enquanto isso, a empresa não pára por causa do processo de privatização em curso. Continua a voar todos os dias e a preparar o futuro. A administração da TAP vai trabalhando nos planos de exploração e nos planos estratégicos do futuro e prepara ambos os cenários: no caso de a empresa vir a ser privada e no caso de se manter pública. Numa recente entrevista ao Expresso, Fernando Pinto continuou a defender a venda da TAP, mas admite que esta não precisa de correr, e que o fundamental é ser bem privatizada. 

“A TAP mantém toda a sua actividade e planos de futuro. É essencial a capitalização da empresa, para que ela se mantenha competitiva num mercado cada vez mais competitivo e continue a crescer. Mas a TAP sobrevive sem ser privatizada”, esclarece, ao PÚBLICO, o porta-voz da empresa, André Serpa Soares. Mas não sobrevive sem continuar a pedir aos portugueses que se envolvam e se empenhem dos destinos da empresa. Ainda a pretexto do aniversário, a TAP lançou o portal Creative Launch, onde está a recrutar - e a pagar - as melhores ideias de negócio que neles  surjam para os  vários sectores da aviação e dos transportes aéreos.

O concurso  já contou com mais de duas centenas projectos nas sete categorias a concurso (experiência em terra, experiência a bordo/entretenimento, experiência a bordo/operações e serviços, fidelização de clientes, sustentabilidade, manutenção e engenharia e gestão de operações). Se há incertezas quanto ao futuro, para este sábado sobra a festa: também foi escolhido na internet o modelo do bolo que vai ser oferecido hoje a todos os passageiros TAP.