O campeonato brasileiro de 1987 ainda não acabou

O tribunal que julga os mais importantes casos da justiça brasileira decidirá quem é o campeão: Sport ou Flamengo

O Flamengo de Zico celebrou a conquista do título em 1987. Mas a justiça dá razão ao Sport
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O Flamengo de Zico celebrou a conquista do título em 1987. Mas a justiça dá razão ao Sport DR

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. A sabedoria popular encaixa que nem uma luva no caótico campeonato brasileiro de 1987. Passados 28 anos, Sport do Recife e Flamengo continuam a disputar o título de campeão tanto na opinião pública como pelas vias legais. O Supremo Tribunal Federal (STF), a máxima instância da justiça brasileira – por onde passam os casos mais importantes, como por exemplo o escândalo de corrupção “Mensalão” – terá a responsabilidade de colocar um ponto final no imbróglio. Seja qual for o desfecho, promete dar que falar.

Após “dois meses de contradições e desencontros”, como escrevia o Jornal do Brasil na edição de 11 de Setembro de 1987, o campeonato iniciou-se com um Palmeiras-Cruzeiro. Para trás ficavam discussões intermináveis entre os clubes e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Este organismo queria reduzir o número de clubes no primeiro escalão, após o cúmulo da desorganização em 1986, com 80 emblemas divididos por oito grupos. Só que as discussões arrastaram-se, os tribunais foram metidos ao barulho, e as posições extremaram-se. Os 13 principais clubes encontraram um patrocinador e queriam levar avante um campeonato reduzido, mas a CBF ameaçou desfiliá-los e acabou por chegar ao acordo possível: a Copa União (um nome repleto de ironia) foi disputada por 32 clubes, divididos em dois módulos: o Verde, com os emblemas teoricamente mais fortes, e o Amarelo.

O acordo celebrado previa também o cruzamento entre os dois primeiros classificados de cada módulo para apurar o campeão. Mas todos encaravam o módulo Verde como o campeonato principal e o Amarelo como um segundo escalão. E, meses mais tarde, o Flamengo celebrava a conquista do título.

No módulo Amarelo, após uma final em que se chegou a 11-11 no desempate por penáltis (interrompido e depois abandonado), Sport do Recife e Guarani apuraram-se para o quadrangular final. Flamengo e Internacional de Porto Alegre ignoraram o cruzamento, não compareceram, e o Sport festejou o título com uma vitória e um empate nos jogos com o Guarani. Os dois emblemas representaram o Brasil na Taça dos Libertadores em 1988.

A polémica estava só a começar. Depois dos relvados, o campeonato transferiu-se para os tribunais. A CBF já reconheceu campeões tanto o Flamengo quanto o Sport; a FIFA afastou-se da polémica; e o Superior Tribunal de Justiça deu razão ao Sport. O recurso do Flamengo para o STF deverá ser o capítulo final desta longa novela.

Juca Kfouri, um dos mais reputados comentadores desportivos brasileiros, resumiu o caso em poucas palavras: “O campeão legítimo é mesmo o Flamengo. O legal acabou sendo o Sport”. Mais prático foi o ex-futebolista Renato Abreu: “Se fosse eu, dava uma taça para cada e acabava com a briga.” Talvez fosse o mais sensato.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos