Nuno Dias
Foto
Nuno Dias

Megafone

O apocalipse da literatura: variações sobre o caso português

Como é que depois de Mallarmé continuamos a dizer que a poesia é a expressão dos sentimentos e que ensina a cair e essas lamechices?

A literatura vai acabar. Ou está na moda? Ou tem a cabeça no cepo e está hoje sem dó, nem piedade, como Nimrud às mãos da ISIS, à mercê da crítica sanguinária e embrutecida, sarcástica e infeliz q.b.?

Nem uma coisa nem outra. Oxalá ardesse. Com gritos, labaredas e muita cinza. Mas a literatura portuguesa é só uma comédia em três actos que, do operático à tragédia passando pela lambe-botice, nem para rir serve. Como diria Cesariny: “Faz-se luz pelo processo / de eliminação das sombras”. Ou seja, se é para demolir, que seja a sério. Porque para conto do vigário já temos política que chegue.

É certo que já ninguém nos livra de um mercado livreiro entregue à bicharada, da banha da cobra das edições de luxo, das pantominices das estrelas pop ou do cheiro a farturas das feiras do livro. E muito menos ainda da pior de todas as sinas: a poesia romântica e confessional. Ainda assim, pergunto-me: como é que depois de Mallarmé continuamos a dizer que a poesia é a expressão dos sentimentos e que ensina a cair e essas lamechices? Oito séculos de tradição lírica depois? Ninguém está farta? O último epígono de Pessoa à séria foi Manuel António Pina, e fê-lo com estilo. Ora fazer tábua rasa da tradição ou plagiá-la e assobiar para o lado, não vale. Mas não é assim em tudo?

Depois há os paladinos da literatura salvífica. Se querem saber, é-me completamente indiferente essa coisa marxista da literatura. A literatura não serve para matar a fome. Assim como o pão não serve para matar a ignorância. Mas porque é que há-de servir? Sim, Marx já disse: primeiro o pão, depois a literatura. Não há aqui qualquer coisa de muito básico nisto?

E nas escolas também não há muito a fazer. Há muito que o/a professor/a de português deixou de ser uma referência estética, reduzido/a que está à sua condição kafkiana de burocrata, enterteiner, psicólogo/a, saco de boxe para toda a obra. Já para nem falar da escola, hoje a arena de um "fight club" impressionável, arranca-cabeças entre quem lá queira meter o bedelho. Lá está, na tradição lendária dos samurais, a lealdade era o mote do combate. Hoje é mais o “casa onde não há pão, todos/as ralham e ninguém tem razão”.

Entretanto também Madalena Perdigão pode dar voltas na tumba, pioneira que foi do maior projecto de formação artística de que há memória desde 1974, o ACARTE (1984-1989), e que não deixou lá muitos frutos. Foi-se tudo com as febres da pós-modernidade. É verdade que temos hoje, dessa altura também, uma RNBP notável. Mas mesmo com uma taxa de alfabetização record, os tops não deixam enganar muito quanto ao rating da nossa literacia crítica. Caso para dizer: muito betão e pouca uva.

O fogo fátuo auto destrói-se. Já a literatura, arde por si, a 233 graus Celsius, como vaticinou Ray Bradbury. A literatura é apocalíptica. A destruição é um seu estado latente. É a linguagem em ebulição. Como tal, não vai acabar.