Estado compra "raríssima" pintura dos primitivos portugueses

Direcção-Geral do Património paga 30 mil euros por tríptico do século XV atribuído a Mestre de Santa Clara.

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A obra (na foto) foi levada à praça por cinco mil euros, mas acabou por ser arrematada por 30 mil euros Miguel Manso
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O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, continua a ver crescer a sua colecção. Depois de no final do ano passado, a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) ter comprado uma pintura de Vieira Portuense para o museu, nesta quarta-feira à noite comprou um "raríssimo" tríptico a óleo sobre madeira atribuído ao Mestre de Santa Clara e datado do século XV. A compra aconteceu num leilão disputado no Palácio do Correio Velho, em Lisboa, com a obra a ser arrematada por 30 mil euros.

A obra que integrou o leilão de Antiguidades, Arte Moderna e Contemporânea, foi levada à praça por cinco mil euros mas acabou vendida muito acima do esperado – a estimativa mais alta apontava para os dez mil euros. O preço final fixou-se nos 30 mil euros, depois de uma disputa entre vários interessados, na sala e ao telefone. A tendência do leilão antes de chegar a este lote indicava que a venda podia ser um sucesso.

A obra do Mestre de Santa Clara era o lote 77 e até ao momento do seu leilão, já a maioria dos lotes anteriores tinha sido vendida por valores acima dos estimados pela leiloeira.

Ainda antes de começar o leilão de Nossa Senhora com o Menino Jesus e dois anjos, João Pinto Ribeiro, presidente da leiloeira Palácio do Correio Velho, revelou que a DGPC abriu um processo de classificação à obra, sujeitando-a a um regime de protecção especial que impede, por exemplo, a saída do país da obra sem autorização ou a sua venda no estrangeiro.

Depois de o tríptico ter sido arrematado pelo representante do Estado no leilão, Pinto Ribeiro comunicou que a compra “desta peça muito interessante” tinha sido feita pela DGPC, o que arrancou da sala uma ovação. “O Estado está de parabéns”, disse o leiloeiro.

É uma "raríssima" pintura, reconheceu já esta quinta-feira de manhã Joaquim Caetano, conservador de pintura do Museu de Arte Antiga. "Não me lembro de no último quarto de século ter estado à venda uma pintura desta importância histórica", acrescenta. "Quase toda a nossa pintura entre os Painéis de São Vicente, a oficina de Nuno Gonçalves, e o ciclo manuelino de pintura, marcado por uma influência flamenga muito grande, desapareceu. Há um grande hiato de conhecimento", ou seja, "saber o que depois do ciclo dos painéis aconteceu à pintura até ao outro brilhante ciclo de pintura do tempo do rei D. Manuel". Terão sobrevivido menos de três dezenas de pinturas. O Museu de Arte Antiga tem outra obra próxima do Mestre de Santa Clara, intitulada Ceia em Emaús.

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Tríptico Nossa Senhora com o Menino Jesus e dois anjos DR

Na quarta-feira à noite, foi logo revelado que a peça iria para o Museu de Arte Antiga, que ainda em 2010 dedicou uma grande exposição aos primitivos portugueses, cujo nome maior é Nuno Gonçalves, autor dos Painéis de São Vicente, que podem ser vistos exactamente no MNAA.

“É uma obra que vem ajudar a preencher uma lacuna muito importante do museu”, diz ao PÚBLICO António Filipe Pimentel, director do MNAA. “É uma obra que vem trazer novidade a uma galeria que vai apresentar muito mais obras do que as que tradicionalmente apresentava, dispondo-as de uma outra maneira, com uma nova narrativa”, continua Pimentel, referindo-se à reabertura do 3º piso do museu, onde esta pintura será apresentada.

Quando fala de uma nova narrativa, o director do museu fala de dar a conhecer um bocadinho mais um período sobre o qual ainda pouco se sabe. “Há um hiato na década de 70 do século XV para o início do século XVI”, explica. “É exactamente em torno da compreensão de Nuno Gonçalves e do meio em que ele viveu, que se torna importante preencher esse hiato e contextualizá-lo, é preciso perceber que embora Nuno Gonçalves seja a figura cimeira do seu tempo, trabalhou num quadro onde existiam outras oficinas que trabalhavam também dentro do mesmo ambiente estético.” Se Nuno Gonçalves já está documentado em meados do século XV, já o Mestre de Santa Clara trabalha no final do século XV.

A leiloeira recorreu ao historiador de arte Vítor Serrão para entender a origem da peça. E segundo Serrão, lê-se no catálogo, esta obra estava dada por perdida pelo historiador de arte Reynaldo dos Santos (1880-1970). “O mestre conhecido como Mestre de Santa Clara é o autor do políptico de Santa Clara-a-Velha de Coimbra, de cerca de 1486, hoje no Museu Machado de Castro”, continua a descrição, colocando o autor de Nossa Senhora com o Menino Jesus e dois anjos, próximo do pintor régio de D. João II, o Mestre Vicente Gil.

“Este é um período nebuloso, conhece-se aquela oficina de Coimbra que terá produzido esta pintura. Mas é exactamente por isso que é muito importante a existência destas obras nas colecções públicas para estimular o próprio avanço da historiografia que numa área de documentação escassa vai sempre andando um pouco por tentativa e erro, isto é por aproximações críticas mais do que documentais”, defende Pimentel, contando que a única imagem que se conhecia deste tríptico era uma fotografia a preto e branco publicada por Reynaldo dos Santos em 1940. “Veja-se o salto que é agora poder ter a pintura, estudá-la tecnicamente, fotografá-la, radiografá-la, etc. De repente fica ao alcance de historiadores e de públicos”, continua.

António Filipe Pimentel não estranha que durante todos estes anos a obra tenha estado desaparecida. É o que acontece quando “estão na posse tranquila das famílias”. “O Estado não tem nem pode ter o radar de ver o que há em casa das pessoas. É contínuo este movimento das peças de vai e vem. Não há nada de transcendente nisto, há uma feliz coincidência agora”, diz, saudando a decisão do Estado de comprar a obra.

Segundo João Pinto Ribeiro, a obra pertencia desde a primeira metade do século XX à colecção privada de uma família, “provavelmente das mais importantes em termos de coleccionismo em Portugal, ligada às artes e ao mecenato”.

Questionado sobre a base de licitação de cinco mil euros para uma obra com esta importância histórica, o leiloeiro reconhece que era "um quadro que estava a começar muito barato”. “Muitas vezes os preços que se colocam é uma mera estratégia”, continua Pinto Ribeiro.

“O Museu de Arte Antiga atento, e em boa hora, pediu à DGPC e vieram licitar e ganharam. Tiveram uma ovação na sala merecida e mesmo assim acho que fizeram uma compra razoável”, diz o responsável do Palácio do Correio Velho. “Foi muito importante o Estado ter tomado esta decisão, é de louvar. A família ficou também muito contente que a obra vá para o museu, e as pessoas que estavam presentes ficaram contentes, mesmo aqueles que estavam interessados na compra da obra ficaram satisfeitos com o resultado.” Para Pinto Ribeiro, o que aconteceu nesta quarta-feira foi também importante por o Estado ter ido ao leilão e agido de forma transparente. “Ninguém pode acusar de que foi barato ou foi caro porque foi o que o público deu.”

Para o director do MNAA, o que aconteceu na quarta-feira é um “sinal de que o Estado está a retomar a aquisição para o enriquecimento das colecções públicas dos museus nacionais”. Nossa Senhora com o Menino Jesus e dois anjos vai agora ser submetida a um processo de restauro, esperando António Filipe Pimentel apresentá-la aquando da inauguração do terceiro piso do museu. “Ainda não está marcada mas ocorrerá num espaço curto de meses. Nessa altura espero que a pintura já esteja pronta.”

O representante do Estado no leilão, um responsável da DGPC, tentou ainda licitar um conjunto de dois painéis de azulejos do século XVIII, mas as peças que tinham como base de licitação oito mil euros acabaram arrematadas por outro comprador pelo total de 21 mil euros. 

Com Isabel Salema