Detectadas duas drogas novas por semana na União Europeia

Número de novas substâncias cresceu 25% em relação a 2013. São em dois terços dos casos substitutos da cannabis ou das drogas estimulantes.

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Em muitos casos as drogas procuram imitar a cocaína Daniel Rocha

Potentes, pouco estudadas e de venda fácil. Este é o perfil geral das novas drogas que surgiram na União Europeia em 2014. Ao todo foram 101, o que representa um ritmo de quase duas por semana. Em relação a 2013 houve mesmo um crescimento na ordem dos 25% e são quase sempre substâncias que se propõem substituir a cannabis ou as drogas estimulantes, como as anfetaminas, a cocaína e o ecstasy, explica o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, que apresentou os dados nesta segunda-feira.

As 101 notificações foram recebidas pelo Sistema de Alerta Rápido da União Europeia, adianta o observatório no relatório que coincide com uma sessão da Comissão de Estupefacientes (CND) das Nações Unidas, a decorrer em Viena, Áustria. Em 2013 tinham sido registadas 81 substâncias. Os dados contam com informação dos 28 Estados-membros e, ainda, da Turquia e Noruega. Quanto ao tipo de substância psicotrópica, as tendências mantêm-se. Num terço dos casos as novas drogas pertenciam à categoria das catinonas sintéticas e dos canabinóides sintéticos, vendidos como “substitutos legais das drogas estimulantes e da cannabis”, explica uma nota do observatório.

O Sistema de Alerta Rápido reúne também informação sobre “indícios de riscos graves”. No ano passado, foi necessário emitir um total de 16 alertas de saúde pública relacionados com estes produtos, com as principais preocupações voltadas para os chamados novos opiáceos sintéticos, pelo seu risco de overdose e “muitas vezes de grande potência e vendidos como heroína a consumidores desprevenidos”. “Três dos cinco opiáceos notificados em 2014 eram fentanis, uma família de drogas que já causou centenas de mortes na Europa e nos EUA”, sublinha o observatório. Ao todo são monitorizadas mais de 450 drogas.

O presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), João Goulão, que preside também ao conselho de administração Observatório Europeu, questionado pelo PÚBLICO sobre a evolução destas novas drogas em Portugal, adiantou que as novas substâncias praticamente não têm aparecido no país. “Desde que, em 2013, proibimos a venda de todas as substâncias conhecidas na altura que daí para cá praticamente desapareceram do mercado português estas novas drogas, o que mostra que a legislação foi eficaz e que deu como que uma machadada”, explicou.

Goulão garantiu que houve uma queda “muito significativa” das situações atendidas em “contexto de emergência hospitalar”. Um balanço feito em Maio de 2014 indicava que as autoridades estavam especialmente preocupadas com quatro drogas: a 25I-NBOMe, a AH-7921, a MDPV e a metoxetamina. Três delas tinham sido detectadas em Portugal, sendo que só a MDPV foi detectada em mais de 70 apreensões feitas em 2012 e 2013.

De acordo com o relatório, o crescimento do número de substâncias psicoactivas tem também tido impacto nas apreensões, que entre 2008 e 2013 aumentaram sete vezes a nível europeu. “Em 2013, foram notificadas na Europa quase 47.000 apreensões, correspondentes a mais de 3,1 toneladas destas substâncias, figurando os canabinóides sintéticos em primeiro lugar e as catinonas sintéticas em segundo”, especifica o observatório.

“As novas substâncias psicoactivas podem passar rapidamente da obscuridade a uma notoriedade dramática e causar enormes danos”, afirma o director do observatório, num comunicado, em que antecipa que “o crescimento do mercado destas substâncias continuará a colocar sérios desafios à saúde pública e à política na área da droga”. “Esses desafios decorrem da rapidez com que as substâncias surgem, da facilidade com que são vendidas e da falta de informação sobre os efeitos e danos que causam”, acrescentou Wolfgang Götz.