Família acredita que morte de jovem pode estar relacionada com uso de pílula

Em 15 anos foram notificados dois casos suspeitos de morte, mas não há uma relação causal directa, segundo o Infarmed e a Bayer. Mulheres devem ir ao médico quando começam a tomar a pílula, diz especialista.

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A Bayer assegura que a Yasmin é eficaz e tem “um perfil benefício-risco favorável” Enric Vives-Rubio

A família de uma jovem de 22 anos que morreu subitamente com uma embolia pulmonar passou quase um ano a tentar perceber o que lhe aconteceu e está convencida de que a causa da morte foi a pílula que ela usava, a Yasmin, um contraceptivo oral combinado vendido em Portugal desde Outubro de 2000.

Com um documento oficial a atestar como “possível” a relação causal entre o óbito e o uso da pílula, a família de Carolina Tendon, uma jovem universitária que morreu em Fevereiro de 2014, decidiu agora divulgar a história para alertar as pessoas que este risco existe, apesar de ser desconhecido da população.

Inconformada com a morte de Carolina, uma jovem “saudável e cheia de vida”,  a irmã, Susana Alves, admite que a família pondera processar o laboratório alemão que comercializa esta pílula, a Bayer, como referiu a estação TVI, que relatou a história na semana passada. Mas uma eventual acção judicial, a avançar, “não será para já, nem é esse o principal objectivo”, afirmou Susana ao PÚBLICO. “O objectivo é, sobretudo, o de alertar que isto acontece e com mais frequência do que a estatística refere”, explicou.

Residente em Portimão, Carolina estava a frequentar o último ano do curso de Medicina Veterinária em Évora e era uma dançarina dotada. Sempre saudável, não fumava, nem tomava outros medicamentos, para além da pílula, que usava havia cerca de dois anos para controlar o acne, segundo a irmã.

Desde o início que a família suspeitou que houvesse uma relação causal, mas teve que esperar “seis meses” pelo relatório da autópsia, que concluiu tratar-se de morte natural. Não satisfeita com a resposta inconclusiva, a família decidiu investigar. “Recusamo-nos a aceitar o que aconteceu como uma morte natural”, diz Susana.

A resposta chegou quase um ano após a morte, em Dezembro passado, na forma de um relatório da Unidade de Farmacovigilância do Sul, a que a TVI teve acesso. “A relação causal entre o medicamento suspeito e a reacção adversa ao medicamento notificada foi classificada pelo perito clínico como possível, por se tratar de uma reacção adversa descrita no resumo das características do medicamento e por ter uma relação temporal bem estabelecida”, refere o documento.

14,8 milhões de embalagens vendidas
Frisando que não existem “medicamentos isentos de riscos”, o Infarmed defende, em nota de imprensa, que “não existem razões para as mulheres pararem de tomar o  seu contraceptivo” e, caso tenham dúvidas, devem “discutir  este assunto com o médico assistente”. 

Em 15 anos, revela, foram notificados 35 casos de reacções adversas a esta pílula específica, sendo dois deles de morte. Mas “não existe evidência” de “uma relação causal entre a toma do medicamento e a reacção adversa ou a sua consequência”. Ou seja, não está directamente provada a causalidade. Entre Outubro de 2000 e Dezembro de 2014 foram vendidas em Portugal cerca de 14,8 milhões de embalagens desta pílula, acrescenta.

O Infarmed recorda igualmente que em 2013 foi efectuada uma revisão de segurança a nível europeu para todos os contraceptivos orais devido ao risco de trombo-embolismo venoso e arterial. A conclusão foi a de que o risco, “já conhecido há vários anos, de formação de coágulos sanguíneos, é reduzido e superado pelos benefícios da utilização destes medicamentos”.

O ginecologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno Fetal, Luís Graça, acredita também que não há razão para alarme. “As pílulas têm alguma influência sobre a coagulação, há riscos, e isso vem descrito em todas as bulas”, diz Luís Graça, para quem os riscos são de tal forma “diminutos” que não constituem contra-indicação.

Dos “medicamentos mais estudados”
Luís Graça aproveita, porém, para deixar um alerta. A pílula é de receita médica obrigatória, mas “infelizmente há cada vez mais mulheres a usarem-na sem consultarem primeiro o médico”. E é preciso que o médico olhe para o historial clínico e familiar das mulheres e perceba se existem factores de risco a considerar.

Sobre o caso de Carolina, a Bayer expressa o “mais profundo pesar à família que se sentiu afectada pelo medicamento Yasmin” mas afirma que os contraceptivos orais combinados, como esta pílula, estão entre “os medicamentos mais estudados de forma sistemática e mais largamente utilizados na actualidade”.

Em comunicado, a Bayer sublinha igualmente que os “eventos adversos reportados não têm necessariamente uma relação causal directa com o medicamento”. Assegura ainda que a Yasmin é eficaz e tem “um perfil benefício-risco favorável quando utilizado como indicado através da monografia do medicamento aprovada pelo Infarmed”.