Vendas de arroz para o estrangeiro dispararam quase 100% num ano

Arroz carolino é a espécie mais produzida em Portugal, mas a menos consumida e não há verbas para o promover. Operação de exportação conjunta de três empresas levou a recorde nas vendas para o estrangeiro em 2014.

Foto

Os portugueses ainda não despertaram para o arroz carolino, a espécie mais produzida em território nacional, mas também a menos consumida. E enquanto não chegam verbas para a Casa do Arroz avançar com uma campanha interna de promoção deste produto, as empresas mantêm a estratégia de vender para fora. Há um ano, a Novarroz, a Valente Marques e a Orivárzea juntaram-se, pela primeira vez, para vender em conjunto para a Turquia e só esta operação fez disparar o valor das exportações totais de arroz em 99%: de 16,3 milhões em 2013 para 32,4 milhões de euros.

O valor atingido o ano passado é, aliás, o mais alto desde 2010, altura em que as vendas internacionais somavam 12,7 milhões. Ao mesmo tempo, as importações (sobretudo da variedade agulha, a mais consumida) praticamente estagnaram e subiram apenas 0,3% para 49,3 milhões de euros.

"Em 2014, exportámos em conjunto cerca de 35 mil toneladas de arroz em casca para a Turquia. Este ano, já enviámos mais três mil toneladas e devemos reforçar", adianta António Madaleno, presidente da Orivárzea - Orizicultores do Ribatejo (dona da marca Bom Sucesso), uma das maiores produtoras.

Obrigada a procurar alternativas no estrangeiro, a indústria diz que é "urgente" uma campanha que promova o carolino em Portugal. "Trocámos o carolino pelo agulha e, enquanto não quisermos comer o que é nosso, não há outra alternativa senão exportar. Além de que os outros países valorizam mais" [esta variedade], garante, acrescentando que a campanha é "fundamental" para colocar o carolino no prato, o arroz mais adequado ao clima nacional e com forte presença na tradição gastronómica.

Pedro Monteiro, director da Casa do Arroz (organização interprofissional) e secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais de Arroz (ANIA), diz que o carolino “continua a perder quota de mercado”. “Exportar foi uma solução de recurso que felizmente se encontrou. O ano passado tínhamos 50 mil toneladas em stock quando o normal são 20 mil e era muito difícil comprar a campanha toda aos agricultores”, recorda. Quanto às importações, não sofreram grandes oscilações porque o consumo “é estável”, adianta.

Por seu lado, António Madaleno dá outra explicação para esta tendência. “No ano passado, o consumo de arroz em Portugal diminuiu 4%, o que pode levar a uma estagnação das importações. Essencialmente, assenta no facto de estarmos a desperdiçar menos. Quando sobra arroz já não deitamos fora”, afirma.

A Casa do Arroz está a aguardar pela abertura da linha de financiamento dedicada às organizações interprofissionais do PDR 2020, o novo pacote de verbas comunitárias para o desenvolvimento rural. “Em princípio, estará disponível em Agosto ou Setembro, o que já é tarde”, lamenta. Para lançar a campanha, a Casa do Arroz precisa de entre 700 mil a 800 mil euros a três anos. “Não foi possível obter apoio do antigo quadro de apoio porque privilegiava a promoção externa e a exportação”, diz, acrescentando que, primeiro, é preciso pôr os portugueses a comer carolino e só depois avançar para a divulgação fora de portas.

De acordo com os dados da ANIA, a produção de arroz envolve 2000 agricultores, numa área global de 30 mil hectares. Em 2013, produziram-se 190 mil toneladas de arroz em casca (100 mil das quais da variedade carolino), o que equivale a cerca de 130 mil toneladas de arroz branco. O volume de negócios soma 60 milhões de euros. Os portugueses são os maiores consumidores per capita de arroz da União Europeia.