Sócrates acusa Passos de “acto desprezível” que o deixa “perto da miséria moral”

Antigo primeiro-ministro entra na polémica de Passos sobre dívidas à Segurança Social.

José Sócrates terá dito que os arquitectos eram os errados, revela testemunha britânica
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José Sócrates terá dito que os arquitectos eram os errados, revela testemunha britânica AFP

Na passada terça-feira, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD, Passos Coelho, sem nunca referir José Sócrates, fez uma declaração que foi vista como uma referência ao anterior primeiro-ministro.

Em causa estavam a dívidas pagas com atraso por Passos à Segurança Social. O actual primeiro-ministro disse que nunca usou o cargo “para enriquecer, para prestar favores ou para viver fora das suas possibilidades”, nem para nomear alguém por favor ou traficar influências.

Sócrates não gostou e na noite desta quarta-feira, a partir da prisão de Évora, respondeu numa carta enviada à TSF.

O antigo primeiro-ministro diz que a declaração de Passos é “um acto desprezível”, que o “deixa perto da miséria moral”

Numa carta de quatro parágrafos enviada à TSF, Sócrates fala ainda num “cobarde ataque pessoal” e numa “tentativa de condicionamento do resultado das próximas eleições”.

“É um momento desesperado face às acusações de incumprimento de obrigações contributivas (…) Esta forma de fazer política diz tudo sobre quem a utiliza, ao atacar um adversário político que está na prisão a defender-se de imputações injustas, Passos não se limita a confirmar que não é um cidadão perfeito, antes revela o carácter dele e o quanto está próximo da miséria moral.”

Sócrates diz ainda que não espera que “o senhor primeiro-ministro, para quem manifestamente vale tudo, compreenda o valor da presunção de inocência num Estado de Direito, a extrema importância do respeito pelo princípio da separação de poderes e muito menos que entenda que, no meu caso, não só ainda nada foi dado como provado como não foi sequer deduzida qualquer acusação”.

E conclui na carta à TSF: “Em vez de atirar lama para cima dos outros, faria melhor em explicar aos portugueses se ele próprio cumpriu ou não cumpriu a lei.”

Ferro Rodrigues compreende "indignação" de Sócrates
No Parlamento, o líder parlamentar do PS afirmou já esta quinta-feira interpretar as acusações do ex-primeiro-ministro José Sócrates ao actual chefe do executivo, Passos Coelho, como próprias de alguém indignado com a violação do seu direito à presunção de inocência.

Depois de salientar que falava aos jornalistas a título pessoal, já que o tema não tinha sido objeto de análise na reunião da bancada socialista, Ferro Rodrigues referiu-se à carta do ex-primeiro-ministro José Sócrates, dizendo interpretar a carta de José Sócrates como sendo própria de "alguém que vive uma situação muito difícil e muito grave".

"[José Sócrates] ficou indignado com o facto de o primeiro-ministro ter violado um direito constitucional que tem, que é o da presunção de inocência", declarou Ferro Rodrigues.

No final da reunião da bancada socialista, Ferro Rodrigues também se pronunciou a título pessoal sobre um episódio ocorrido entre o secretário-geral do PS, António Costa, e uma jornalista da SIC no Parque das Nações, em Lisboa, que o interpelara sobre as declarações proferidas na terça-feira por Passos Coelho no final das Jornadas Parlamentares do PSD. Na ocasião, Costa recusou pronunciar-se sobre o caso das dívidas contributivas do primeiro-ministro, argumentando com a forma de abordagem da jornalista.

Ferro Rodrigues afirmou compreender a reacção que teve nessa ocasião António Costa e criticou hipotéticas "esperas" feitas por jornalistas. "O dr. António Costa faz bem em querer que haja regras para a interpelação dos jornalistas. Não pode aparecer uma pessoa atrás de um carro", respondeu.

Na relação entre políticos e jornalistas, o líder da bancada socialista referiu que "há a possibilidade de marcar entrevistas e de ter assessores de imprensa com quem se podem combinar as questões e os momentos". "Não me parece que seja muito correto fazer esperas", acrescentou o ex-ministro socialista.