Washington diz que há 12 mil soldados russos na Ucrânia

Em Janeiro, Kiev apontava para 8500 soldados russos ao lado dos rebeldes. Número um das Forças Armadas dos EUA defende envio de armamento para a Ucrânia.

Separatista pró-russo na zona do aeroporto de Donetsk em Setembro de 2014
Foto
Separatista pró-russo na zona do aeroporto de Donetsk em Setembro de 2014 Marko Djurica / Reuters

O Pentágono estima que cerca de 12 mil soldados russos estejam a apoiar as forças rebeldes no Leste da Ucrânia. A pressão para fornecer armamento ao Exército ucraniano aumenta nos Estados Unidos, mas a solução diplomática continua a ser privilegiada.

Foi em Berlim que o comandante do Exército norte-americano para a Europa, Ben Hodges, revelou a mais recente contabilização de soldados regulares russos presentes no território ucraniano. O contingente de 12 mil homens reparte-se entre conselheiros militares, operadores de artilharia e tropas de combate, precisou Hodges, citado pela Reuters. Segundo Ian Brzezinski, que edita o think tank Atlantic Council, trata-se de um aumento de três mil soldados em relação a Dezembro.

Na Crimeia – anexada pela Rússia há cerca de um ano – estão estacionados 29 mil soldados russos. E há ainda uma força de 50 mil homens a postos ao longo da fronteira ucraniana disponível para reforçar as fileiras rebeldes.

A constatação de Hodges foi confirmada horas depois pela secretária de Estado adjunta para a Europa, Victoria Nuland, que, perante uma comissão no Congresso, falou em "milhares e milhares" de soldados russos na Ucrânia, mas não quis dar mais pormenores sobre aquilo que designou como informação "classificada" durante uma sessão pública. "Desde Dezembro que a Rússia transferiu centenas de equipamentos militares, entre os quais carros, veículos blindados, (...) artilharia pesada. O Exército russo têm a sua própria estrutura de comando no Leste da Ucrânia, que vai desde oficiais generais a oficiais menos graduados", acrescentou, citada pela AFP.

O número dado pelo Pentágono é uma das estimativas mais elevadas sobre o número de soldados russos no terreno. Em Janeiro, o Conselho de Segurança e Defesa Nacional do Governo ucraniano apontava para cerca de 8500 efectivos russos – numa altura em que os combates atingiram um novo pico de violência.

Um antigo conselheiro do Pentágono, Phillip Karber, que trabalhou com o Governo de Kiev, disse em Novembro ao Daily Beast que estimava que a Rússia tivesse na altura cerca de sete mil homens na Ucrânia. Em Agosto, a NATO alertava para a presença de mil soldados russos, que se dividiam em “incursões” no território. Foi também por essa altura que a Aliança Atlântica disponibilizou imagens de satélite em que era possível ver tanques e camiões russos envolvidos em operações militares no interior da Ucrânia.

A presença de forças do Exército regular russo a lutar ao lado dos separatistas na Ucrânia é um dos temas mais disputados e que mais divide o Ocidente e a Rússia. Desde o início do conflito no Leste da Ucrânia que têm sido várias as ocasiões em que a NATO, os Estados Unidos, a União Europeia e a Ucrânia têm acusado a Rússia de enviar contingentes militares para apoiar as milícias pró-russas. Segundo várias fontes, Boris Nemtsov, o político russo oposicionista assassinado na semana passada, estaria precisamente a recolher uma série de provas documentais sobre o envolvimento de tropas russas no conflito ucraniano, que activistas do seu círculo próximo querem agora recuperar e trazer a público.

Foi durante a anexação da Crimeia que as primeiras tropas russas foram vistas em território ucraniano, depois de em poucos dias comandos especiais tomarem de assalto os principais edifícios administrativos da península. O Presidente, Vladimir Putin, tinha pedido autorização ao Parlamento russo para poder utilizar o Exército na Ucrânia e milhares de tropas já se encontravam estacionadas junto da fronteira.

No entanto, apenas cinco semanas depois, quando a anexação já era um facto consumado, é que Putin reconheceu que foram tropas russas que levaram a cabo as ocupações dos edifícios-chave.

O estalar do conflito no Leste da Ucrânia seguiu-se pouco depois, mas Moscovo nunca reconheceu ter enviado soldados para apoiar os separatistas. Perante as notícias da morte de soldados do Exército russo na Ucrânia, o Kremlin apenas disse tratarem-se de “voluntários” que tinham respondido ao apelo de defender os interesses russos no país vizinho. Segundo a organização Rússia Aberta, liderada pelo político da oposição Mikhail Khodorkovski, mais de 260 russos morreram durante o conflito.

Armar a Ucrânia?
Para contrariar o poderio das forças rebeldes, tem aumentado o número de vozes favoráveis ao fornecimento de armamento letal ao Exército ucraniano pelos aliados ocidentais. É o caso do próprio Ben Hodges que afirmou que tudo aquilo que Kiev precisa é “informações, capacidade de contra-ataque e algo que possa parar um tanque russo”.

Posição semelhante foi defendida esta terça-feira pelo Chefe do Estado Maior das Forças Armadas norte-americanas, o general Martin Dempsey, durante uma audição na comissão no Senado. “Acho que deveríamos considerar absolutamente o envio de ajuda letal no contexto dos aliados da NATO, uma vez que o grande objectivo de Putin é fracturar a NATO.”

Esta foi a primeira vez que Dempsey – a figura principal da hierarquia militar norte-americana, apenas superado por Obama – se pronunciou sobre o tema, juntando-se ao novo secretário de Estado da Defesa, Ashton Carter.

Apesar dos apoios que a tese do armamento tem recolhido, Barack Obama tem-se mostrado resistente a esta ideia, embora não a tenha afastado totalmente. Para já, a opção pela solução diplomática oferecida pela implementação dos acordos de Minsk continua a ser privilegiada em Washington e nas capitais europeias.

Os aliados ocidentais de Kiev garantiram esta semana que vão ter “uma reacção forte” caso os acordos de Minsk continuem a ser violados. Para aumentar a pressão sobre a Rússia, Obama assinou uma ordem executiva que prevê a extensão do regime de sanções aplicadas sobre Moscovo – cuja vigência terminava esta semana, um ano depois da sua implementação. A UE também pode avançar para mais penalizações “no caso de uma nova escalada”, afirmou o porta-voz da chanceler alemã.