Opinião

O homem que sabia de menos

Olhemos para a lista de prémios conquistados por Zeinal Bava, segundo a sua página da Wikipédia: melhor CFO europeu no sector das telecomunicações em 2003, 2004 e 2005; melhor CEO na área de Investor Relations em 2009; melhor CEO europeu no sector das telecomunicações e melhor CEO em Portugal em 2010; segundo melhor CEO europeu no sector das telecomunicações e melhor CEO em Portugal em 2011; melhor CEO europeu no sector das telecomunicações e melhor CEO em Portugal em 2012.

A sua página da Wikipédia de uma muito conveniente e apagada neutralidade, onde espantosamente não consta uma única referência ao BES, ao GES ou ao papel de Bava no processo Face Oculta termina a informar-nos de que “em 7 de Outubro de 2014 Zeinal Bava renunciou ao cargo de Director Presidente da Oi”. Estando a página claramente desactualizada, proponho acrescentar a seguinte informação, à consideração dos editores:

A 26 de Fevereiro de 2015, Zeinal Bava deslocou-se à comissão de inquérito do caso BES para fazer a mais patética figura da sua carreira, fingindo-se amnésico, dissimulando cumplicidades, enrolando deputados, e atentando contra a sua inteligência e a inteligência de quem o ouvia. Questionado sobre a razão que levou a PT a investir 80% dos seus fundos num só grupo, Bava homenageou La Palice, respondendo: “É onde estava investido.” O que permitiu à deputada Mariana Mortágua fazer uma das melhores perguntas retóricas de 2015: “É um bocadinho amadorismo para quem ganhou tantos prémios de melhor CEO da Europa e arredores, não é?”

Admito que esta possa parecer uma entrada de Wikipédia muito opinativa, mas o seu rigor é inatacável e pode ser comprovado por milhões de portugueses. Todos conhecemos a expressão “banalidade do mal”, cunhada por Hannah Arendt durante o julgamento de Adolf Eichmann: o homem que estava a ser julgado em Jerusalém, segundo Arendt, não era um carniceiro desequilibrado, mas apenas alguém que, dentro de uma lógica estritamente burocrática, pretendia a tudo o custo ascender na carreira e, por isso, aceitava as ordens dos seus superiores, sem nunca se dar ao trabalho de questionar se estariam certas ou erradas.

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Falar de “banalidade do mal” a propósito do BES será excessivo, mas aquilo a que temos assistido na comissão de inquérito é a uma variação soft dessa lógica. É a banalidade do amoral: um desfile de burocratas sem princípios que para salvarem o pescoço não se importam de se ridicularizar e menorizar a si próprios, garantindo que não sabiam de nada, que não viram nada, e que se limitaram a cumprir ordens. Que essa tenha sido igualmente a postura do brilhante Bava, que não se importou em pleno Parlamento de repetir e agravar a atitude de 2010, aquando do caso Face Oculta, apenas aumenta o desespero de quem olha para aquela gente e pensa: é desta massa que são feitos os homens mais poderosos do país? 

Basta olhar para a criação da Meo para percebermos que Zeinal Bava é um génio da gestão que mereceu cada um dos prémios citados no início deste texto. Mas, para chegar ao lugar mais elevado da PT, ele teve de vender a sua alma ao diabo numa esquina do Fórum Picoas. Ver um homem com o seu talento, que já foi admirado por milhares de trabalhadores, fazer aquela figura brutesca é apenas fonte de um único consolo: há humilhações que nenhuma pilha de dinheiro justifica, nódoas no carácter que nenhum prémio algum dia poderá apagar.