Crítica

O dia em que Pedro e Partimpim venceram o lobo

Prokofiev e Partimpim, pela mão de Adriana Calcanhotto e da Orquestra Gulbenkian, tiveram um encontro feliz em Lisboa. Duas apresentações a 1 de Março, ambas com lotação esgotada.

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Adriana "Partimpim" Calcanhotto Leo Aversa

Quem tem seguido a trajectória de Partimpim, o alter-ego “infantil” (como soa deslocada, aqui, esta palavra) de Adriana Calcanhotto, não teria qualquer dificuldade em imaginá-la no papel de narradora do clássico (e eterno) conto sinfónico de Prokofiev Pedro e o Lobo. Juntar esse papel ao de Partimpim, ela mesma, e envolver tudo em arranjos para orquestra, com uma peça nova pelo meio, acabou por ser o resultado de tal desafio.

Já apresentado no Brasil, o espectáculo vem com a marca de André Mehmari, jovem e talentoso pianista a quem foram encomendados não só arranjos orquestrais para uma meia dúzia de canções de reportório de Partimpim (para crianças e adultos, porque, como Adriana disse um dia, fazer “discos só para crianças é a pior maneira de criar uma geração de ouvintes”) mas também uma peça orquestral nova. Nessa peça, que Mehmari intitulou Festa dos Bichos, ele quis que os ouvintes imaginassem o que sucederia se os animais do conto sinfónico de Prokofiev fossem, por uns tempos, aspirar os ares do Brasil.

Tudo isto, em palco, numa hora: Prokofiev, Mehmari, Partimpim. Com muitas crianças e muitos adultos na sala (confortavelmente renovada) do Grande Auditório da Gulbenkian, num domingo. No palco, a Orquestra Gulbenkian dirigida pelo maestro Rui Pinheiro. Adriana entrou depois, no papel de narradora. Um papel já desempenhado, até hoje, por dezenas de personagens ilustres: além da própria mulher do compositor, Lina Prokofiev, foram narradores de Pedro e o Lobo Sir John Gielgud, Peter Ustinov, Alec Guinness, Boris Karloff, Leonard Bernstein, André Previn, Sir Ralph Richardson, Jack Lemon, Sean Connery, Sophia Loren, José Ferrer, Antonio Banderas, Jeremy Nicholas, Richard Baker, David Bowie ou Sting. No Brasil, Rita Lee e Roberto Carlos já desempenharam tal papel, protagonizado em Portugal por Eunice Muñoz ou Catarina Furtado.

Voltando a Adriana: de cartola e com uma espécie de fraque escuro, ela mostrou-se (na primeira das duas apresentações, a única a que se refere este texto, a das 11h), uma narradora eficaz, não só pela boa dicção como pela mímica, integrando-se harmoniosamente nos tempos da partitura. Com um único senão, que não foi culpa sua: o volume da voz de sala estava abaixo do exigível para um bom equilíbrio entre voz e instrumentos (desajuste também influenciado pelo volume da monitorização ao ouvido, este mais alto e dando-lhe a ilusão de que na sala a voz se ouvia bem).

Mas enfim: o lobo lá saiu (caçado, é claro, mas para “um zoológico”), ficando na sala a pairar uma sensação de triunfo reforçada por mil aplausos. Festa dos Bichos, de Mehmari, pegou no Andantino de Pedro e o Lobo (que ele usou, aliás, para pontuar até as orquestrações para os temas de Partimpim) e daí partiu para uma viagem que, embora cumprisse no essencial a premissa da aproximação a sonoridades brasileiras, deixou a sensação de que poderia ter sido mais ousada. Basta pensar em Le Carnaval des Animaux, de Saint-Saëns (composto em 1886, muito antes de Pedro e o Lobo) para achar o Brasil proposto por Mehmari demasiado conforme aos cânones.

Já na readaptação, para orquestra, das canções de Partimpim, Mehamri fez um trabalho notável, permitindo que elas respirassem muito bem nesta outra atmosfera. Assim sucedeu com a sempre bela Ciranda da bailarina, mas também com Canção da falsa tartaruga, O mocho e a gatinha, O trenzinho do caipira (pérola imortal de Heitor Villa-Lobos) e Elefantinho, a fechar. Depois, num primeiro encore, Adriana puxou do violão e cantou e tocou (sem orquestra) Fico assim sem você, repetindo, num segundo encore, e de novo com orquestra, Ciranda da bailarina.

Os muitos aplausos deram um final feliz à história do dia em que Pedro e Partimpim venceram o lobo. Com André Mehmari, claro, a Orquestra Gulbenkian, Rui Pinheiro e uma plateia atenta; e deixando, através da música, algo de muito agradável a pairar no meio de nós. Chamemos-lhe arte.